Copa nos Estados Unidos faz o Qatar parecer um sonho
É difícil acompanhar todos os absurdos acontecendo adiante da Copa do Mundo de 2026. Muito se falou sobre o absurdo de realizar a competição no Qatar, com seu abjeto histórico de desrespeito aos direitos humanos.
O que estamos vendo nos Estados Unidos, porém, faz o país árabe parecer uma terra de conto de fadas.
Só nos últimos dias, a terra de Donald Trump fez o seguinte:
- proibiu a seleção iraniana de pernoitar no país, obrigando o time a se hospedar no México, mesmo tendo todas as suas partidas nos Estados Unidos
- não concedeu vistos a pelo menos 15 integrantes da delegação do Irã
- retirou a cota de ingressos para torcedores iranianos (todas as federações nacionais têm direito a 8% da cota de ingressos dos seus jogos)
- interrogou por sete horas Aymen Hussein, herói da classificação do Iraque. O artilheiro, que perdeu o pai e o irmão na guerra com os Estados Unidos e o Estado Islâmico, disse que se sentiu tratado "como um terrorista"
- negou entrada ao fotógrafo oficial da seleção iraquiana, depois de questioná-lo por 10 horas
- revistou a seleção do Uzbequistão antes da entrada em um estádio em Nova York, com detector de metais e cães farejadores revirando suas mochilas. A seleção da Holanda, adversária do amistoso, não passou pelo mesmo tratamento.
- proibiu a entrada no país do árbitro somali Omar Artan, eleito o melhor da temporada pela confederação africana e escalado pela Fifa para apitar a Copa (seria o primeiro árbitro da Somália a participar de um Mundial). Mesmo tendo visto e mesmo depois de sua embaixada emitir um passaporte diplomático para o profissional.
- A organizadora do evento está domada. Sobre Artan, comunicou: "A Fifa pode confirmar que o oficial de arbitragem Omar Abdulkadir Artan não poderá treinar nem atuar na Copa do Mundo 2026 após ter sua entrada nos Estados Unidos negada. A Fifa não se envolve nos processos de imigração dos países sedes, incluindo concessões de vistos, e foi informada pelas autoridades que a situação do Sr. Artan não será alterada neste momento".
Gianni Infantino, que entregou a Trump um Prêmio da Paz, segue calado. Deve estar ocupadíssimo agradando políticos e patrocinadores, inflando o preço dos ingressos para faturar bilhões, enquanto exclui a vasta maioria dos fãs e vê a isonomia do evento ir para as cucuias.
A imprensa reporta os casos, mas é difícil imaginar que a cobertura seria a mesma se estes mesmos fatos estivessem acontecendo no Qatar, no Irã, no Iraque, na Somália ou no Uzbequistão.
Nada como atrocidades cometidas por gente branca em países ricos do Ocidente.
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Opinião
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.