O jogador brasileiro perdeu a origem do futebol de rua e campinho de terra
Está faltando o jogador brasileiro estourar a tampa do dedão e continuar jogando bola sem chorar e sem correr para casa para mostrar para a mãe.
Porque li o ótimo texto do PVC sobre a Argentina e o futebol de rua e me veio à cabeça que os nossos jogadores, quando eram formados inicialmente jogando bola na rua ou em campinhos de terra, tinham mais garra, espírito de luta e sabiam enfrentar as dificuldades sem se abater.
Muita gente que irá ler esse texto, quando era criança, jogou futebol na rua ou em campinhos de terra bem ruins, não se avariava e continuava jogando. Quando a gente estourava a tampa do dedão ou dava um carrinho, ralando a coxa toda e ficando em carne viva, levantava e voltava para o jogo. O dedão doía muito, muito, porque ficava com a tampa pendurada e a ponta exposta, mas a gente chutava e dividia sem chorar.
E a coxa ralada então? Ardia até a alma! A gente até pensava em sair do jogo, mas a vontade de continuar jogando bola e de vencer os outros meninos — que na maioria das vezes eram de outra rua, a rival — era muito maior.
À noite, a gente voltava para casa e aí sim começava o drama de passar Merthiolate ou Mercurocromo, que era de morrer, e a mãe falava assim: — Agora não chora! Na hora em que está jogando bola não dói nada, então não chora agora!
E a gente engolia a nossa criancice, jantava, assistia à TV com os pais e irmãos ou irmãs e depois ia dormir pensando em ir jogar de novo no outro dia.
Pois bem, a nossa seleção não joga mais futebol de rua e nem traz na alma o espírito do campinho de terra esburacado. Nossa seleção brasileira se esqueceu da infância pobre, difícil, mas divertida e de muita luta na hora de jogar futebol.
Quantas vezes a gente pulava o muro de algum lugar porque atrás dele tinha um espaço qualquer que daria para jogar futebol? Pouco importava o piso do lugar. Se tivesse um pouquinho de grama, a gente se imaginava no Morumbi, Maracanã, Mineirão, Fonte Nova... dependia de qual cidade e estado a gente estava. Mas se fosse de cimento, terra esburacada ou qualquer outra coisa, não importava, a gente ia para o pau.
Nós viramos um time de grama sintética, de escolinhas de condomínio, em que estourar a tampa do dedão faz pedir para sair e, se raspar a coxa, fica três semanas no departamento médico.
Muitos jogadores, hoje em dia, acham que sabem jogar futebol porque jogam bem no videogame. Eles acreditam que os craques ou os gênios são aqueles virtuais.
Não temos mais aquele monte de grandes jogadores, mas nossos atletas sabem jogar muito bem futebol; só que perdemos o espírito do futebol de várzea, de rua, dos campinhos de terra.
A Argentina está tendo problemas com todos os adversários, mas, de repente, eles começam a jogar futebol de rua e vão atrás dos resultados como se estivessem jogando contra os meninos da rua rival. Aí, pouco importa se raspa a coxa ou estoura a tampa do dedão: eles continuam jogando e depois vão pensar se arde ou se dói.
Opinião
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.