O que precisa mudar no debate sobre a formação de psicanalistas no país
Como antropólogo amador, me interesso por entender os confrontos recentes entre diferentes linhas discursivas, em espaços jurídicos e institucionais parapsicanalíticos.
Quero entender como eles se comportam diante da crítica direta e como se justificam perante seus alunos ou participantes. Minha intenção é reconstruir os argumentos de legitimidade e verificar a origem, qualidade e procedência de seus ensinantes e dirigentes.
Entender como as grandes teses da psicanálise são reinterpretadas em outros contextos é decisivo para organizar uma resposta firme aos debates que virão. Sem isso, não adianta muito invocar a ética da psicanálise contra a mercantilização.
Fica claro que a busca por uma representação legítima, ética e consistente da psicanálise no espaço público passa tanto por recusar a regulamentação do estado quanto por criticar quem aproveita essa brecha para promover a pseudoformação.
Há um detalhe que nem sempre fica claro: o termo formação (Bildung), na psicanálise, remete à habilitação para a prática clínica. Ele não deve ser confundido com cursos, imersões, pós-graduações, treinamentos ou especializações.
Vale lembrar que a pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) forma pesquisadores, não psicanalistas.
Mesmo quando o objeto de estudo envolve procedimentos clínicos, estudos de caso ou autores da psicanálise, isso não habilita ninguém a atender pacientes e dirigir tratamentos, sejam eles psicanalíticos ou psicoterapêuticos.
A pesquisa acadêmica entra de forma suplementar, e não complementar, na formação dos analistas.
Por isso, também não é necessário ter título de mestre ou doutor para clinicar. Ainda assim, a maioria das escolas de psicanálise exige curso superior completo para o ingresso de candidatos.
É preciso distinguir a regulamentação do estado da regulação social feita pelas próprias escolas ou sociedades.
Essas instituições exercem uma regulação legítima sobre a prática e a formação, mas isso levanta uma pergunta: o que define uma escola ou sociedade de psicanálise? Como elas se diferenciam de associações que apenas vendem cursos?
Distribuição de carteirinhas de "psicanalista", obediência cega ao chamado "tripé" (análise, supervisão e estudo), falta de leitura, cursos online com mais de 500 alunos sem contato presencial, mercantilização da clínica e misturas com discursos religiosos e comerciais. Tudo isso precisa ser encarado diretamente.
Quem quer pensar uma psicanálise decolonial precisa entender como a pseudoformação acontece no interior do Brasil.
Sempre há o risco de acirrar a disputa entre pastores pela exclusividade de representar a "fé psicanalítica", criando pirotecnias digitais piores do que qualquer imersão.
Muitas dessas iniciativas servem apenas para acobertar assédio, interesses financeiros e mentiras em congressos organizados por eles mesmos, com ou sem a presença do filósofo Slavoj Zizek.
Hoje, as redes sociais estão cheias de cursos, "formações" e até escolas de psicanálise sem nomes de responsáveis, sem proposta clara e, às vezes, totalmente online.
O clássico tripé — análise pessoal, supervisão e estudo teórico — não pode ser tratado como um mero checklist.
Nada disso funciona sem uma comunidade que regule a prática e evite desvios e danos aos pacientes.
A alta na busca por saúde mental gerou um mercado em cima do sofrimento, como a "indústria do autismo", com diagnósticos rápidos e tratamentos intensivos.
A ideia de extrair "superpoderes" de quem tem transtornos de atenção lembra os estudos dos anos 1990 sobre o quanto de bipolaridade se esperava de um gerente de vendas, ou o nível de psicopatia ideal para um advogado de grande escritório.
A chamada medicina de "enhancement" (melhoria do potencial humano) começou com as plásticas, mas logo evoluiu para o uso de remédios off-label para acelerar o cérebro e melhorar o desempenho.
São estimulantes para esticar o trabalho, soníferos para apagar, alucinógenos para curtir, além de álcool para desinibir e nicotina para acalmar.
As redes sociais embaçaram de vez a fronteira entre a compensação e o doping social. Produz-se ódio para focar, medo para travar e amor programado para acalmar.
Depois, vieram os programas de inteligência artificial e terapia virtual. A descoberta de que os remédios clássicos estão perdendo eficácia — o que coincide com o fim de suas patentes — fez a indústria da saúde mental buscar novos mercados, como a infância e o sofrimento leve.
A psicanálise artesanal, com seus métodos lentos, formação longa e conceitos difíceis de colocar em um manual, virou uma pedra no sapato desse mercado.
Ela é cobiçada por quem busca uma nova profissão, mas também atacada por campanhas que tentam descredibilizar sua ciência, ética e eficácia.
A grande promessa das neurociências se confirmou: mapear o funcionamento do cérebro. Mas a esperança de que isso traria fórmulas mágicas para mudar o comportamento, a linguagem e o bem-estar se mostrou vaga.
Teóricos do cognitivismo migraram para a psicologia positiva ou para a psicoeducação. Nada de errado nisso, mas essas abordagens não trazem nenhuma grande novidade.
Com isso, o debate se afunilou na crítica às elites da psicanálise, acusadas de não querer "largar o osso" e popularizar a prática.
Isso ocorre apesar da suposta crise da área, anunciada nos anos 2000 com o "Livro Negro da Psicanálise". A fronteira entre formação e pseudoformação não é jurídica, científica ou de marketing, o que gera uma anomalia no mercado da saúde mental.
É preciso ouvir as pessoas sem homogeneizar.
Ignorar os desinformados que entram, com sonhos e dedicação, em ciladas de pseudoformação só reforça a exclusão histórica da nossa sociedade.
Devemos escutar sem infantilizar ou desqualificar saberes não hegemônicos, mas isso não significa que psicanalistas surjam por geração espontânea.
A opressão não forma, deforma, e as deformações fazem parte do processo.
Reconhecer o saber de quem sofre na pele a vulnerabilidade social pode mudar a psicanálise. Mas achar que a formação dispensa leitura, rigor e comunidade presencial só reforça a exclusão que interessa aos coronéis locais.
Nem tudo na política e na história brasileira será transformado pela psicanálise. Ela não é panacéia política, nem revolucionária por si mesma.
O problema das graduações em psicanálise se cruza com o das pseudoformações. Feitas às pressas e à distância, iludindo pessoas com um diploma fácil, elas mostram apenas uma face conservadora.
Repudiamos o abuso feito por lideranças inflamados que impessoalizam a transmissão e o ensino de baixa qualidade. Mas repudiamos também a prática da mera indiferença e da denúncia interesseira, como se apontamentos de impostura tornasse alguém, imediatamente, psicanalista marginal, independente ou alternativo.
Elevar o nível crítico envolve perceber quem denuncia preventivamente com medo de ser denunciado, usando a acusação para tentar se legitimar.
Criar uma resposta que inclua instituições e pessoas com o rigor de uma verdadeira formação é o nosso papel. Não é fácil construir um formato que gere emancipação e compromisso de longo prazo, real e ético, com a psicanálise, mas é indispensável.
Falar em democratização, decolonialidade ou diversidade racial e de classe na psicanálise exige compreensão crítica da parasitagem universitária.
Os mais conservadores criticam a presença de psicanalistas na mídia e nas redes, dizendo que isso serve apenas ao entretenimento e empreendedorismo neoliberal da imagem.
O Brasil tem uma longa tradição de analistas no debate público, de Gastão Silva aos programas de rádio de Virgínia Bicudo e às colunas de Contardo Calligaris.
Mas a novidade é que quem pede abertura e democraztização condena participações "incompatíveis", segundo a lógica do pensamento "decorativo", onde a combinação de pessoas, palavras e ideias deve seguir um certo padrão de harmonia e conformidade.
As críticas contra a elitização miram justamente quem tenta ampliar o acesso à clínica pública. É como se a elite fosse sempre o outro.
Para quem acha que aparecer nesses eventos legitima o projeto, observo que é justamente esse tipo de raciocínio, de alto impacto nas redes sociais, que costuma se beneficiar de práticas retóricas e apelos narcísicos estranhos à psicanálise.
Quando supomos que a sanção de uma prática, pessoa ou instituição se dá apenas pela metonímia "instagramável", isso mostra aderência imaginária ao pensamento digital de massa.
Na internet há anos, conheço bem os usos deletérios e falsificadores. Por isso, prefiro entrar na zonas de conflito e ter contato regrado com a diferença no lugar da indiferença, distância e fechamento.
Isso gera efeitos positivos, discussões e força as pessoas a se posicionarem. O ruim é quando a desconfiança vem da própria comunidade psicanalítica.
É possível que a política de indiferença e silêncio diante das pseudoformações seja suficiente para que o tempo, com seus dissabores e desilusões, faça sua parte, levando tais iniciativas à autodestruição.
Mas parece justo e razoável que outras estratégias sejam igualmente experimentadas, sem que o terrorismo significante predomine.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.