De rebelde a líder: Como o polêmico capitão Xhaka fez a Suíça pensar grande
Basta ir ao treino da Suíça e conversar com alguns jornalistas para entender o que Granit Xhaka representa: "o maior" foi a expressão mais ouvida pela reportagem nos 15 minutos a que a imprensa tem acesso na atividade. O capitão tem essa moral não só pelo que faz em campo, mas pela transformação que representa para uma Suíça que busca um protagonismo.
Neste sábado, diante da Argentina, em Kansas, pelas quartas de final da Copa do Mundo, a Suíça tenta dar mais um passo nessa direção. Cansou de ser apenas competitiva e passou a acreditar que pode disputar espaço entre as grandes potências do futebol. E poucos representam melhor essa mudança de mentalidade do que o camisa 10.
Durante décadas, a Suíça ocupou um lugar no futebol internacional muito parecido com a imagem que projeta para o mundo como país: organizada, estável, eficiente e discreta. Não à toa abriga a sede da Fifa e ficou conhecida pelo "ferrolho suíço", esquema tático defensivo e retrancado criado na década de 1930.
Granit Xhaka chegou para balançar toda essa estrutura. Polêmico, explosivo, não guarda emoções ou mede palavras. Com esta personalidade, virou ídolo e referência. Disputa sua quarta Copa do Mundo e é o único de seu país a balançar as redes em três Mundiais ao lado de Xherdan Shaqiri.
Hoje o capitão está mais maduro, mas ainda apronta das duas. No último amistoso de preparação antes da Copa, no empate entre Suíça e Austrália, ele deu uma bronca pública no time. Após a estreia, no empate por 1 a 1 com o Qatar, nova chamada: "Estavam todos correndo sem rumo", disse.
Xhaka chegou a ser acusado de criar um ambiente tóxico na seleção. Na segunda rodada da Copa, na goleada sobre Bósnia, ele marcou um gol e respondeu os críticos comemorando fazendo um gesto com as mãos simbolizando "fala muito".
Apesar da polêmica, o estilo de Xhaka é bem visto na seleção. "Ele quer muito. Ele quer que o time se desenvolva. A Suíça antes se contentava em ser pequena na Copa, era grata pelo lugar que alcançava. Ele mostra coragem para buscar mais", conta o jornalista Michael Lebmann, do Keystone Sda.
A visão é parecida com a do jornalista Florian Gnaegi, do 20min. "Ele é o maior jogador da história. Tem um impacto grande nos jogadores mais jovens. Ele é líder, é ambicioso. Esta personalidade contagia o time e foi importante para atingirem as quartas de final", afirmou.
A história de Xhaka é turbulenta desde que ele nasceu. Filho de refugiados do Kosovo, tem uma história de vida marcada pelos conflitos geopolíticos. O pai Ragip Xhaka chegou a ser preso na antiga Iugoslávia por participar de manifestações em defesa dos direitos dos albaneses, foi espancado e expatriado.
No futebol, Xhaka acumulou polêmicas. Um dos episódios mais marcantes foi quando defendia o Arsenal, em 2019. Ao ser substituído sob vaias, perdeu a cabeça, xingou a torcida e ainda jogou a camisa fora. Perdeu a faixa de capitão.
Na seleção suíça, também já protagonizou outros momentos controversos. Durante a Copa do Mundo de 2018, ele comemorou um gol contra a Sérvia fazendo o gesto da águia de duas cabeças, símbolo da Albânia. Chegou a ser multado pela Fifa.
Hoje, Xhaka mantém sua personalidade, mas amadureceu. No Arsenal deu a volta por cima, se tornou um jogador importante e, ao longo de 7 temporadas, conquistou duas Copas da Inglaterra. No Bayer Leverkusen brilhou sob o comando de Xabi Alonso na conquista da Bundesliga.
Xhaka leva toda sua experiência e história de vida para dentro de campo para levar a Suíça, quem sabe, a uma semifinal da Copa do Mundo.
"Estamos bem preparados. Vamos fazer o nosso jogo, da mesma forma que fizemos nas partidas anteriores. Manter a nossa mentalidade, não importa o que aconteça. A Argentina tem muita qualidade. Poucas pessoas falam sobre as nossas qualidades, mas sabemos do nosso potencial. Amanhã vamos mostrar isso dentro de campo", disse na véspera da partida.