Julgamento de ex-policial com fortuna bilionária ameaça revelar conexões ocultas do narcotráfico
Segundo o delegado que comandou a operação Enterprise, o ex-major da Polícia Militar Sergio Roberto de Carvalho figura ao lado de Pablo Escobar e Joaquín "El Chapo" Guzmán entre os maiores narcotraficantes da história. O papel dele na rede do crime extrapola o papel de fornecedor.
Documentos apontam que Carvalho, que enfrenta julgamento na Bélgica, participava da distribuição e do lucro da cocaína dentro do mercado europeu, esquema que resultou na apreensão de mais de R$ 1 bilhão em bens só no Brasil, incluindo 36 aviões. O histórico criminal do ex-PM remonta à década de 1980, quando começou como contrabandista na fronteira com o Paraguai.
"Na minha opinião e na de todos os policiais que conversei aqui no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e na América do Sul ao longo dos anos nessa investigação conjunta, o (ex) major é sem dúvida um dos maiores narcotraficantes do mundo de todos os tempos", afirma o delegado Sérgio Stinglin, da Polícia Federal — ele comandou a operação Enterprise do início até o final de 2022.
A operação foi uma das maiores na história da PF contra o tráfico de drogas internacional e possui desdobramentos até hoje. "O (ex) PM figura tranquilamente ao lado do [colombiano] Pablo Escobar e do [mexicano] Joaquín 'El Chapo' Gúzman", afirma o delegado à reportagem da Gazeta do Povo.
O julgamento de Sergio Roberto de Carvalho tem previsão de ser retomado em 7 de setembro. A reportagem da Gazeta do Povo procurou advogados do ex-major no Brasil, mas não conseguiu contato. Na Bélgica, os defensores afirmam que ele é inocente.
Os bens apreendidos no Brasil incluem imóveis, joias e carros de luxo. "Ele era o dono de uma operação que pegava cocaína na fonte na Bolívia e no Peru e levava até a Europa, mas não só isso. Ele era um dos donos da própria operação de distribuição de cocaína dentro da Europa", diz Stinglin.
"Uma coisa é você fornecer a droga ou simplesmente transportar até lá. Outra coisa é você dividir o lucro da venda dentro do mercado europeu”, analisa o delegado.
Cadeias logísticas são as mesmas para diferentes quadrilhas
Para o delegado da PF, não é surpreendente a existência de um megatraficante internacional como o ex-PM de Mato Grosso sem relação com uma facção como o PCC (Primeiro Comando da Capital) ou o Comando Vermelho. "O tráfico internacional é setorizado. Tem um grupo que pega cocaína no produtor da Bolívia e passa para Dourados, no Mato Grosso do Sul, por exemplo. Aí tem outro grupo criminoso especializado em pegar cocaína em Dourados e levar para Paranaguá e depositar lá. Aí tem outro grupo que coloca essa cocaína dentro do contêiner lá em Paranaguá, e assim vai", afirma.
"Só que tem que ter alguém que comande essa cadeia inteira, né? Que encomende a cocaína do produtor, arrume quem vá buscar, que pague pela droga e por tudo isso, o transporte, o depósito, conseguir supervisionar tudo, se roubar vai mandar matar e ter quem faça isso, então, é um trabalho de gestor que o major fazia como poucos”, completa o delegado.
Na avaliação de cenário do delegado Sérgio Stinglin, as facções têm um domínio que é mais territorial e do varejo interno, mas eles não dominam esse tráfico internacional, apenas participam junto com outros atores independentes. "É claro que há membros das facções que participam dessa cadeia logística, que possuem a própria operação de envio de cocaína. As grandes facções usam as mesmas cadeias logísticas que o major e outras quadrilhas usam, não há monopólio.”
Narcotraficante comparado a Escobar, ex-major da PM teria lucrado mais de R$ 2 bilhões
A PF estima que o ex-major lucrou pelo menos 380 milhões de euros – o que supera os R$ 2 bilhões – com as 50 toneladas de cocaína investigadas na operação Enterprise, isso sem contar o lucro adicional da venda da droga dentro do mercado europeu, do qual ele participava.
Na Bélgica, estima-se que o major faturou, ao menos, 200 milhões de euros – mais de R$ 1,2 bilhão – com as 16 toneladas documentadas (e só 3,2 toneladas apreendidas) de cocaína que o levaram à prisão, também contando apenas o valor da droga na chegada ao continente.
Em Portugal, Rúben Oliveira, conhecido como Xuxas, apontado como sócio local do ex-major, é julgado pela apreensão de pouco menos de 400 quilos de cocaína. No EncroChat – o "aplicativo do crime", que oferecia um serviço de comunicação segura para criminosos – eles reclamaram sobre a apreensão dos 12 milhões de euros em uma van na garagem em Lisboa. Desse total, 5 milhões seriam do traficante português.
Contrabando de pneu, carga ilegal de uísque, desvio do inventário de juíza e mais
O ex-PM brasileiro começou no crime no início dos anos 1980, quando foi designado chefe do batalhão de Amambai, na fronteira com o Paraguai, onde se aproximou do contrabandista Fahd Jamil Georges, de acordo com perfil publicado na revista Piauí. Em 1987, Carvalho foi flagrado em um contrabando de pneus do país vizinho para o Brasil e chegou a ser denunciado, mas o caso acabou prescrevendo.
Em 1989, o PM foi flagrado em Ponta-Porã, então com uma carga ilegal de uísque, e não só escapou do caso como foi promovido a major no ano seguinte. Em 1997, a PF apreendeu 237 quilos de cocaína que Sergio Roberto de Carvalho trouxe da Bolívia, em uma fazenda dele, perto da fronteira.
Condenado a oito anos de cadeia, foi cumprir pena em um batalhão da PM em Campo Grande, onde foi flagrado dois anos depois com US$ 180 mil, R$ 27 mil, fax, celular e GPS. Saiu da cadeia em 2000 com progressões de pena, mas foi preso novamente em 2007 acusado de chefiar uma rede de máquinas caça-níquel em Campo Grande. Foi absolvido pouco depois.
Em 2010, foi acusado de desviar R$ 3,9 milhões de um inventário com uma juíza, posteriormente afastada da magistratura. Em 2016, sumiu de vez de Campo Grande. A PF suspeita que o esquema de tráfico internacional de cocaína já estava a todo vapor. Ele só foi expulso da PM e perdeu a aposentadoria em 2018.
Pelo menos outras nove grandes operações da PF derivadas da Enterprise prenderam dezenas de pessoas e apreenderam toneladas de drogas e milhões de reais de lá para cá. No final de 2021, uma equipe de investigadores da Bélgica foi à sede do Grupo de Investigações Sensíveis da Delegacia de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção, na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, para dar início à colaboração internacional no caso que dura até hoje.
Atualmente, a Polícia Federal colabora também com Portugal, Espanha, Holanda, Alemanha e Emirados Árabes Unidos no caso.