Surpresa baixista de junho não altera inflação acima do teto em 2026

10 de Jul de 2026 - 17:30
 0  0
Surpresa baixista de junho não altera inflação acima do teto em 2026

A inflação em junho, medida pela variação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), surpreendeu com uma alta muito menor do que a prevista. Mas não foi surpresa a redução do ritmo de alta, também forte, em relação aos números do IPCA-15.

Com elevação de 0,16% no mês passado, na comparação com maio, o IPCA continuou subindo acima do teto do intervalo de tolerância do sistema de metas de inflação, que é de 4,5%, fechando junho com alta de 4,6%, depois de alcançar 4,7% em maio, conforme divulgação do IBGE nesta sexta-feira (10).

Abaixo da "prévia"

Em junho, como antecipado aqui, a "prévia" da inflação medida pelo IPCA, o IPCA-15, não foi uma boa prévia. A inflação cheia do mês recuou quase a um terço da variação obtida com a coleta de preços de meados de maio a meados de junho, que levou o IPCA-15 a uma alta de 0,41%.

Números benignos da inflação de junho — a inflação em serviços recuou e a média dos núcleos de inflação, por exemplo, recuou de 0,45% em maio para 0,21% em junho — indicam o início da dissipação de pressões oriundas da guerra no Oriente Médio. Mas incertezas em relação à trégua na região e esperados efeitos negativos na oferta de alimentos por questões climáticas não permitem supor alterações significativas na trajetória da inflação.

O recuo dos preços entre o IPCA-15 e o IPCA cheio de junho foi bastante concentrado no grupo Alimentos — tanto no domicílio quanto fora dele. A inflação de alimentos registrou deflação de 0,4% em junho, depois de subir 0,9% no IPCA-15, enquanto fora do domicílio avançou apenas 0,15% depois de alta de 0,4% no IPCA-15.

Gangorra na inflação mensal

No subgrupo alimentos em domicílio, as projeções são de novo recuo, e ainda mais forte, para julho. A deflação prevista é de 0,5%. Os preços de alimentos voltariam a subir, mas pouco, em setembro e outubro.

Já no último trimestre do ano, sob a provável influência do esperado super El Niño de 2026 e 2027, as variações de preços de alimentos dariam um salto, chegando a subir 1% em dezembro e terminando 2026 com expressiva alta acumulada de 7%.

No geral do IPCA, as projeções para julho apontam um repique da inflação, que subiria para 0,3% na comparação com junho. No restante do ano, a inflação mensal, de acordo com as projeções mais confiáveis, experimentaria uma trajetória de gangorra.

Depois dos resultados de junho, o economista Fábio Romão, responsável pelo acompanhamento de preços na consultoria 4intelligence, atualizou suas previsões mensais para alta de 0,3% em julho, estabilidade em agosto, alta de 0,5% em setembro, recuo para elevação de 0,3%, nova queda para 0,15% em novembro e fechamento do ano em mais uma alta de 0,6%.

Acima do teto

Se essas projeções se confirmarem, a marcha da inflação no segundo semestre de 2026 permanecerá acima do teto do intervalo de tolerância mês a mês, subindo gradualmente até fechar o ano com alta ligeiramente abaixo de 5,5%.

"Nossas projeções para a inflação do ano estão com pequeno viés de baixa, principalmente por previsões de altas mais moderadas em alimentos no domicílio, contrabalançadas por pressões derivadas dos efeitos esperados negativos do fenômeno El Niño, assim como pelo recrudescimento das incertezas ligadas ao conflito EUA-Irã." — Fábio Romão, economista da consultoria 4intelligence

Com a inflação se mantendo acima do teto da meta, mesmo depois da surpresa baixista da inflação de junho, analistas de mercado avaliam que o Copom (Comitê de Política Monetária) continua com pouco espaço para insistir no ciclo de cortes da taxa básica de juros (taxa Selic) iniciado em março.

Cortes nos juros e "carta aberta"

Mas agora começa a se disseminar a expectativa de que os cortes não se restrinjam a apenas mais uma única redução de 0,25 ponto percentual na taxa atualmente em 14,25% nominais ao ano, embora esta ainda seja a posição de uma ampla maioria.

Essa perspectiva se apoia na convicção do Copom de que, depois de um ciclo muito longo de taxa Selic nas alturas, a demanda começa a ceder, embora ainda exiba resistências sob os fortes estímulos fiscais e de crédito promovidos pelo governo.

Se, como previsto, a inflação ficar acima do teto até o fim do ano, em outubro serão completados seis meses consecutivos de estouro da meta.

Em consequência, de acordo com os protocolos do sistema de metas de inflação, em novembro o Banco Central terá de divulgar uma "carta aberta" ao ministro da Fazenda, explicando as razões do estouro do teto da meta por seis meses consecutivos e informando as medidas que pretende tomar para fazer a inflação convergir para o centro da meta. Seria a décima carta aberta em 27 anos, desde a adoção do sistema em 1999.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.