FAB ativa novo Museu Aeroespacial Paulista; veja como será o complexo

11 de Jul de 2026 - 20:00
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FAB ativa novo Museu Aeroespacial Paulista; veja como será o complexo

Museu Aeroespacial Paulista: estão prontos para ver a história ganhando asas? Nosso voo já vai decolar.

Foi com essa chamada, reproduzida nos alto-falantes do antigo Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (Pama-SP), no Campo de Marte, que a Força Aérea Brasileira deu início à cerimônia de ativação do Museu Aeroespacial Paulista (Mapa), o maior projeto cultural da história da Aeronáutica.

Quem entrou nos hangares no dia 3 viu apenas uma pequena amostra do que deverá surgir nos próximos anos. Segundo o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno, o espaço apresentado representa cerca de 2% do complexo planejado. Ainda assim, o ambiente já reúne dezenas de aeronaves históricas, exposições imersivas e uma prévia da estrutura que pretende transformar o local em um dos cinco maiores museus aeroespaciais do mundo em área útil.

O museu ainda não está aberto ao público, pois não está totalmente concluído. A cerimônia marcou apenas a ativação da organização militar responsável por administrá-lo, etapa necessária para que o projeto avance. A previsão da FAB é concluir a implantação gradualmente ao longo dos próximos anos.

O complexo ocupará cerca de 100 mil metros quadrados e pretende contar a história da aviação brasileira muito além da própria Aeronáutica, reunindo também a aviação civil, a indústria aeroespacial e até a exploração espacial.

É para o Brasil, é para São Paulo, é para a sociedade brasileira
Brigadeiro Damasceno em conversa com o UOL

Segundo ele, a ideia começou há mais de uma década e ganhou força após a parceria com o Museu Asas de um Sonho, responsável por ceder parte importante do acervo. Agora, a expectativa é transformar o espaço em um projeto construído por militares, empresas e apaixonados por aviação.

"Sociedade civil e militar somos uma sociedade só. Tem gente querendo trazer um macacão de voo, uma maquete, um quadro. Acho que vou lembrar desse projeto com muito carinho. O mais bonito é a jornada", afirmou.

O acervo

Embora apenas uma pequena parte do museu tenha sido exibida durante a cerimônia, o acervo já impressiona. São aproximadamente 100 aeronaves, entre exemplares civis e militares, brasileiros e estrangeiros, resultado da união entre a coleção da FAB e o patrimônio do antigo Museu Asas de um Sonho, que havia sido fechado em 2016.

Em 2024, ele foi reaberto em Itu (SP), no Centro Cultural Fábrica São Pedro, com algumas das aeronaves transferidas de suas antigas instalações. Hoje, é possível encontrar por lá, entre outras, um caça supersônico Mirage III com a pintura personalizada em homenagem a Ayrton Senna, que voou em outra unidade do modelo na década de 1989.

Encontrar um destino definitivo para essas aeronaves era uma preocupação antiga do empresário Marcos Amaro, presidente do Museu Asas de um Sonho e da Associação dos Amigos do Museu Aeroespacial Paulista (Amapa). Segundo ele, o projeto finalmente permite que esse patrimônio permaneça acessível ao público.

Encontrar um destino importante para esse acervo tão relevante que nós temos no país, na cidade de São Paulo, no Campo de Marte, em um projeto de 100 mil metros quadrados e cerca de cem aeronaves, evidentemente me deixa muito feliz
Marcos Amaro

Quem acompanhou a transferência das aeronaves desde São Carlos sabe que o trabalho vai muito além de colocar aviões em exposição. Muitas delas precisaram ser desmontadas, transportadas por rodovias em operações especiais e montadas novamente dentro dos hangares do Campo de Marte.

Durante entrevista ao UOL, o diretor do museu, brigadeiro Rodrigo Fernandes Santos, revelou que novas aeronaves já começaram a ser prometidas por outros países.

Nós temos uma parceria muito forte com a Suécia por causa do Gripen. O comandante Damasceno conversou com a Força Aérea Sueca e eles já nos prometeram dois aviões do museu deles: um Draken e um Viggen.
Brigadeiro Rodrigo

Segundo o brigadeiro, outras negociações estão em andamento. "Não vou dar spoiler, mas outros países também já se comprometeram. Quando estiver tudo acertado, vamos colocando na parede: 'Tal aeronave está chegando'. Assim vamos ampliando o acervo", conclui.

Aeronaves expostas

Entre as aeronaves que já estão no museu, se destacam:

  • Messerschmitt Bf 109
  • F4U Corsair
  • Supermarine Spitfire
  • AH-2 Sabre (Mil Mi-35)
  • UH-1 Huey (Sapão)
  • A-1A
  • F-5 (o mesmo que foi pilotado por Ayrton Senna em 1987)
  • RQ-450 Hermes (Drone)
  • T-6 Texan
  • Vultee BT-13ª
  • Lockheed Constellation da extinta Panair
  • Réplica do 14-bis, de Santos Dumont
  • Réplica do Demoiselle, de Santos Dumont

Mais que aviões

Damasceno explicou que colecionadores e entusiastas já começaram a oferecer objetos pessoais ligados à história da aviação. A ideia é que o museu reúna desde grandes aeronaves até pequenas peças carregadas de significado.

Um dos primeiros a aderir foi o senador e astronauta Marcos Pontes (PL-SP), que também foi piloto na FAB. "Eu estava procurando um lugar para deixar essas peças. Vou trazer alguns dos itens originais que levei para a Estação Espacial Internacional. Tem a bandeira do Brasil, meu capacete, vários objetos da missão", afirma.

Pontes também revelou que negocia com o governo russo a obtenção de uma cápsula Soyuz semelhante à utilizada em seu voo espacial. "Não será exatamente aquela em que eu voei, mas uma idêntica. A ideia é restaurá-la e deixá-la aqui para que as pessoas possam ver de perto", diz. A assessoria do político também afirma que já destinou R$ 3 milhões em emendas parlamentares ao projeto do museu.

Os espaços

Em vez de um museu formado apenas por hangares cheios de aviões, o complexo foi planejado para oferecer diferentes experiências ao visitante.

Entre os principais espaços previstos estão:

  • Hangar 1: recepção, linha do tempo da aviação, homenagens históricas e exposições permanentes;
  • Hangar 2: restaurante, praça de convivência e estrutura de apoio;
  • Hangar 3: loja institucional e um espaço preparado para receber pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA);
  • Hangar 4: oficina de restauração aberta ao público, permitindo acompanhar o trabalho de recuperação das aeronaves;
  • Hangar 5: exposição cronológica mostrando a evolução da aviação;
  • Hangar 6: controle do espaço aéreo, busca e salvamento;
  • Hangar 7: defesa aérea, com ambientes imersivos;
  • Hangar 8: mirante voltado para o Campo de Marte;
  • Hangar 9: setor espacial, reunindo foguetes, satélites e missões brasileiras;
  • Hangar 10: atividades educativas voltadas principalmente para escolas.

Também está prevista uma área externa apelidada de Safári, onde aeronaves de grande porte ficarão expostas ao ar livre.

O brigadeiro Rodrigo destaca que a intenção nunca foi criar apenas um museu tradicional. "O projeto foi pensado para preservar a memória da aviação, mas também para inspirar as novas gerações. Queremos espaços imersivos, simuladores, áreas para pesquisa. Não estamos falando apenas de formar pilotos. Estamos falando de mostrar todas as profissões ligadas ao setor aeroespacial: engenheiros, controladores de tráfego aéreo, mecânicos, pesquisadores", diz.

Por que São Paulo?

Quando perguntei ao brigadeiro Rodrigo por que a Aeronáutica decidiu construir justamente em São Paulo um museu desse porte, ele preferiu responder com outra pergunta. "Me explica como é que uma cidade como São Paulo não tem um museu de aviação", questionou.

O Campo de Marte faz parte da história da aviação brasileira, abriga uma das mais tradicionais infraestruturas aeronáuticas do país e fica a poucos minutos do centro da maior cidade brasileira. Com a redução gradual das atividades do Pama-SP (Parque de Material Aeronáutico de São Paulo), surgiu a oportunidade de reaproveitar a área preservando sua vocação original.

"São Paulo concentra uma diversidade enorme de atrações. Não fazia sentido uma cidade desse tamanho não ter um museu dedicado à aviação. A cidade merece um museu à altura da sua grandiosidade", diz o brigadeiro Rodrigo.

O comandante da FAB acrescenta outro argumento, que é o da força da indústria aeronáutica nacional. Segundo ele, o museu pretende mostrar que a aviação vai muito além dos aviões militares.

"Queremos falar de Santos Dumont, da Embraer, da indústria brasileira, dos empregos, da ciência, da tecnologia. Às vezes o menino sonha em ser piloto e descobre aqui que pode ser engenheiro, controlador de voo, mecânico ou trabalhar em tantas outras áreas", diz Damasceno

A expectativa é que o museu também fortaleça o turismo na capital paulista e passe a integrar o circuito cultural da cidade.

Não só para SP, para o Brasil

Embora esteja sendo construído na capital paulista, os entrevistados fizeram questão de repetir que o projeto pretende representar todo o país. Para Damasceno, o museu nasce como um espaço da sociedade brasileira, e não da Aeronáutica em si.

"O conceito não é fazer um museu da FAB. É um museu aeroespacial, da aviação do mundo. A aviação conecta pessoas", diz o militar.

A ideia também resgata um projeto antigo do ex-comandante da Aeronáutica Juniti Saito. "Quando eu era garoto, ia para Congonhas só para ver avião. São Paulo, com quase 20 milhões de habitantes [na região], merecia um museu desse porte", diz Saito.

Marcos Pontes acredita que o espaço pode despertar novas vocações. "O brasileiro vai para a Europa ou para os Estados Unidos e fica encantado com os museus. A gente tem que ter isso aqui também. A garotada olha um avião e começa a imaginar. Isso também é educação", afirma.

O diretor-presidente da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), Tiago Faierstein, afirmou que o museu também deverá ganhar relevância internacional. "É um espaço muito bonito para contar a história da nossa aviação. Já estamos conversando sobre trazer para cá eventos internacionais ligados à aviação civil", afirma.

Mural de Santos Dumont

Antes mesmo de entrar no Hangar 5, o visitante encontra uma enorme pintura que se tornou um dos cartões-postais do novo museu. Assinado pelo artista plástico e muralista Gabriel Menezes, o Mena, o painel ocupa cerca de 65 metros de comprimento e apresenta uma interpretação da evolução da aviação brasileira.

Em vez de retratar dezenas de aeronaves, ele preferiu construir uma narrativa. "Quis mostrar o passado, o presente e o futuro de uma forma simples, leve e divertida, principalmente para as crianças", afirma. Para isso, o mural representa o 14-Bis, o caça P-47, o Embraer E2, um eVTOL, o caça Gripen, o foguete VLM e um satélite, todos convergindo para a figura central de Alberto Santos Dumont de braços abertos, que foi com quem tudo começou.

Mena contou que trabalhou de forma voluntária e espera voltar para pintar novos espaços do complexo. "Esse museu já é um sucesso porque não é exclusivo da Força Aérea. Ele é da cultura do nosso país", diz.

Financiamento

A expansão do museu dependerá de uma combinação entre recursos públicos e privados. Para isso foi criada a Associação dos Amigos do Museu Aeroespacial Paulista (Amapa), presidida por Marcos Amaro.

"A associação serve justamente para apoiar a Força Aérea Brasileira na realização desse museu, seja por meio da busca de patrocínios, seja na comunicação do projeto", diz o empresário.

De fato, apesar da grandiosidade do empreendimento, a Aeronáutica admite que não conseguirá bancar sozinha a expansão do museu. Segundo o brigadeiro Rodrigo, o orçamento militar será suficiente para manter a organização recém-criada, mas a implantação do complexo dependerá de diferentes fontes de recursos.

Entre elas está em análise o uso da Lei Rouanet, incentivos estaduais e municipais à cultura e a atuação da própria Amapa. "As empresas não poderão doar diretamente para a organização militar, mas poderão apoiar o projeto por meio da associação. É assim que imaginamos construir os próximos 98% do museu", diz.

O prazo estimado para concluir o complexo varia entre dois anos e meio e três anos. Até lá, a ideia é que novos parceiros, novas aeronaves e novas histórias continuem chegando ao Campo de Marte, ampliando um projeto que ainda está apenas começando.

"Nós não poderíamos contar com ninguém melhor do que a própria Força Aérea para realizar esse museu", conclui Amaro.

Reportagem

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