Carne vai ficar mais barata no Brasil com veto da UE ao produto nacional?
A decisão da União Europeia de se soma à aproximação do limite das exportações para a China. O cenário pressiona o setor exportador e pode reduzir o volume vendido pelo Brasil nos próximos meses. Ainda assim, o aumento da oferta no mercado interno não deve se traduzir em queda nos preços nos açougues brasileiros.
O que aconteceu
Pecuária brasileira vai sofrer com ameaças internacionais. A UE . O embargo é justificado pela falta de garantias suficientes sobre o controle dos antimicrobianos, substâncias utilizadas para combater bactérias, vírus, fungos e parasitas no campo. "A Europa exige muito e não entrega nada", avalia Paulo Leonel, pecuarista representante do grupo Adir.
Europa tem baixa participação na balança nacional. Os 27 países da UE compraram 128,9 mil toneladas da carne bovina brasileira em 2025, de acordo com a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes). Ainda assim, o total coloca o bloco como o quarto maior consumidor da carne brasileira, mas representa apenas 3,7% das exportações do produto para o mundo.
China deixará de comprar 540 mil toneladas da carne brasileira. A estimativa considera o . Depois que a marca for atingida, Pequim prevê cobrar uma sobretaxa de 55% sobre a tarifa de importação vigente. Leonel classifica os embargos como uma "narrativa de terrorismo" para prejudicar os produtores.
Exportações para a China se aproximam do limite. "A cota da China preocupa mais", avalia a Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos). O receio se deve ao fato de a China ser o maior comprador da carne vermelha do Brasil. Somente no ano passado, 48% do volume total exportado de carne bovina (1,68 milhão de toneladas) foram destinados à China. O volume exportado movimentou US$ 8,9 bilhões.
Apesar da preocupação, há quem descarte a possibilidade de uma retração significativa da demanda chinesa. "De onde a China vai comprar carne? É tudo papo furado para desestabilizar os produtores", afirma Leonel.
Retomada das vendas dos EUA para a China é outro ponto de atenção. Em visita a Pequim, o presidente norte-americano, Donald Trump, fechou um acordo para . "Apesar de o Brasil manter-se como o maior produtor mundial de carne, a entrada dos Estados Unidos nesse mercado poderia, indiretamente, aumentar a oferta interna brasileira", diz Adenauer Rockenmeyer, conselheiro do Corecon-SP (Conselho Regional de Economia de São Paulo).
Preços
Ameaças abrem espaço para alterar o preço da carne no Brasil. A análise indica que o produto tende a ser disponibilizado no mercado interno para evitar prejuízos. "A diminuição da demanda internacional, em conjunto com o aumento da oferta nacional, poderia resultar em preços mais acessíveis para o consumidor brasileiro, beneficiando o padrão de vida e o consumo de carne vermelha", afirma Rockenmeyer.
O cenário nos açougues depende da restrição efetiva da oferta para que a maior disponibilidade resulte na redução dos preços. "O brasileiro pode sentir o preço da carne um pouco mais favorável em alguns momentos [com o aumento da oferta], mas eu acredito que é algo muito mais sazonal do que o impacto internacional", avalia Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada).
Podemos ter um cenário de uma oferta um pouco maior de carne, se a União Europeia parar de comprar em setembro, mas por outro lado a gente tem a própria volta da China para o mercado no ano que vem.
Thiago Bernardino de Carvalho
Novos mercados auxiliariam na distribuição da oferta extra. A identificação de novos compradores para as carnes que deixarão de ser enviadas para a China e a UE é um entrave para a redução de preço. "A carne mais barata do mundo está aqui", diz Leonel.
Países vizinhos podem ampliar a compra da carne nacional. Uruguai e Argentina são exemplos de parceiros que vão importar mais carne brasileira neste ano e podem impedir o escoamento da produção no mercado interno. "Com o fechamento dos mercados, podemos ter o escoamento para outros países, o que ajuda a equilibrar a oferta e a demanda", analisa Carvalho.
Preço das carnes subiu em todos os últimos sete meses. A possível queda dos preços tende a barrar a . Dados do apontam que o preço da carne subiu 7,7% desde a deflação de 0,12% registrada em setembro do ano passado.
Cotação da arroba do boi gordo recuou em maio. Depois de escalar até o maior valor da história em abril (US$ 73,58), o valor da arroba de 15 kg da proteína recuou 5,6%, para US$ 69,43, segundo o indicador do Cepea coletado desde 1997. No acumulado deste ano, a cotação ainda mantém alta expressiva, de 18,9%.
Queda da arroba é explicada pela sazonalidade. A recente queda de preço da commodity na cadeia produtiva é vista como recorrente e justificada pelo fim da safra do boi, que resulta na perda da qualidade do pasto devido ao clima mais frio e provocou o aumento dos abates de animais. "Nos últimos 30 anos, o preço [da arroba do boi gordo] caiu em 26 no mês de maio", afirma Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador da área de pecuária do Cepea.
Tradicionalmente, os meses de maio são marcados por uma oferta sazonal maior, com o descarte de animais e o sistema produtivo de desmame, porque o bezerro nasce, em média, em agosto e setembro e fica no pé da vaca por cerca de oito meses.
Thiago Bernardino de Carvalho