Quando o futebol brasileiro se perdeu
Quando, em 1982, a Seleção Brasileira perdeu para a Itália no extinto estádio Sarriá, em Barcelona, decretou-se, arbitrariamente, que o futebol-arte havia morrido.
Um exagero que caía bem diante de como a derrota por 3 a 2 passou a ser chamada: a Tragédia de Sarriá.
Algo assim como o Maracanazo de 1950, a ponto de um jornal espanhol ter escrito, como manchete, que "Não se entende mais este mundo; Brasil eliminado".
O time de Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo e Leandro, comandado por Telê Santana, é lembrado até hoje com mais saudades que os dois que ganharam o tetra e o pentacampeonato.
E olhe que o time do penta tinha os Ronaldos e Rivaldo.
A culpa foi de quem, em nossa eterna procura de culpados?
Como com Barbosa, em 1950, 32 anos depois tentou-se culpar Toninho Cerezo, embora tenha sido Júnior quem cometeu o erro mais decisivo, no terceiro gol da Itália que, diga-se, tinha um timaço, longe de desafinar no quesito boniteza.
Onde e quando, então, perdemos a força do futebol brasileiro, finalista em três Copas seguidas depois de Sarriá?
Provavelmente quando a soberba do "quadrado mágico" de 2006 evidenciou que não mais seria possível vencer apenas com o talento.
Ser organizado, ser coletivo, ter política e profissionalismo passou a ser essencial.
O mundo havia mudado, a várzea deixava de ser celeiro vítima da especulação imobiliária, o futebol na praia passou a ter horários, a miscegenação chegou também à Europa, e o futebol, principal componente da indústria do entretenimento, passou a ser tratado como negócio.
Aos poucos, exportador de pé de obra, o futebol brasileiro abandonou sua essência, perdeu grande parte da magia, ao passo que outras escolas pelo mundo afora ou se sofisticaram ou mantiveram aquilo que as distinguia, como a da Argentina, embora tenha passado por seca inclemente e seja administrada por federação nacional tão corrupta e bagunçada como a CBF.
Trazer Carlo Ancelotti não ajudou, ao menos, na busca de recuperar a essência, o tempo e o orgulho perdidos.
É claro que ele sabe e pode formar seleção que ganhe o hexa em 2030, por mais que tenha se curvado aos péssimos usos e costumes da CBF.
Reimplantar nosso modo de ser é mais difícil para quem tem a filosofia de jogo dele.
Nesse aspecto Jorge Jesus teria sido melhor escolha, depois do que ele fez no Flamengo em 2019.
Mas ganhar o tetra em 1994 não devolveu os principais traços do nosso caráter futebolístico e 2002 soa hoje como último suspiro — antes da estocada final do 7 a 1.
O suco de Parreira e Filipão resultou na pior catástrofe esportiva de uma equipe tradicional como a Amarelinha, apelido que também caiu no ostracismo.
Cadê os Djalma Santos, Carlos Alberto Torres, Leandro e Cafu da lateral-direita?
Os Nilton Santos, Marinho Chagas, Roberto Carlos e Marcelo, da esquerda?
Cadê Didi, Gérson, Rivellino, Dirceu Lopes, Ademir da Guia?
Cadê Vavá, Tostão, Romário, Reinaldo, Careca?
Note que os citados de 1982 e 2002 nem foram mencionados, para poupar o leitor de redundâncias.
Nem Mané Garrincha nem o Rei Pelé, porque exceções das exceções, como Alfredo Di Stéfano, Diego Armando Maradona e Lionel Messi entre os hermanos.
No auto-engano brasileiro gostamos de dizer que somos ou fomos o país do futebol. Balela.
Fomos sim, entre meados dos anos 50 e o começo do século 21, o pais do jogo bonito, abençoado pelos deuses do estádios com gênios de geração espontânea.
Esperar da CBF que está aí — submissa às medíocres federações estaduais — é ingenuidade sem tamanho.
A solução possível terá de vir dos clubes — e enquanto a maior parte deles não tiver gerência moderna, enquanto não houver entendimento nem sequer para fundar a liga, seguiremos nesta inexorável marcha à ré cada vez mais veloz, capaz de superar os limites de velocidade em nona marcha.
Racionalmente, entre a derrota em 1982 e a vitória em 1994 é compreensível que haja quem escolha a primeira, embora, emocionalmente, o triunfo sempre prevaleça.
Sim, mas é que em 1982 perdeu-se à brasileira e, em 1994, ganhou-se à moda europeia de então.
Quem esquece o passado, sofre no presente e não tem futuro.
Opinião
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