Quando o futebol brasileiro se perdeu

20 de Jul de 2026 - 06:45
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Quando o futebol brasileiro se perdeu

Quando, em 1982, a Seleção Brasileira perdeu para a Itália no extinto estádio Sarriá, em Barcelona, decretou-se, arbitrariamente, que o futebol-arte havia morrido.

Um exagero que caía bem diante de como a derrota por 3 a 2 passou a ser chamada: a Tragédia de Sarriá.

Algo assim como o Maracanazo de 1950, a ponto de um jornal espanhol ter escrito, como manchete, que "Não se entende mais este mundo; Brasil eliminado".

O time de Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo e Leandro, comandado por Telê Santana, é lembrado até hoje com mais saudades que os dois que ganharam o tetra e o pentacampeonato.

E olhe que o time do penta tinha os Ronaldos e Rivaldo.

A culpa foi de quem, em nossa eterna procura de culpados?

Como com Barbosa, em 1950, 32 anos depois tentou-se culpar Toninho Cerezo, embora tenha sido Júnior quem cometeu o erro mais decisivo, no terceiro gol da Itália que, diga-se, tinha um timaço, longe de desafinar no quesito boniteza.

Onde e quando, então, perdemos a força do futebol brasileiro, finalista em três Copas seguidas depois de Sarriá?

Provavelmente quando a soberba do "quadrado mágico" de 2006 evidenciou que não mais seria possível vencer apenas com o talento.

Ser organizado, ser coletivo, ter política e profissionalismo passou a ser essencial.

O mundo havia mudado, a várzea deixava de ser celeiro vítima da especulação imobiliária, o futebol na praia passou a ter horários, a miscegenação chegou também à Europa, e o futebol, principal componente da indústria do entretenimento, passou a ser tratado como negócio.

Aos poucos, exportador de pé de obra, o futebol brasileiro abandonou sua essência, perdeu grande parte da magia, ao passo que outras escolas pelo mundo afora ou se sofisticaram ou mantiveram aquilo que as distinguia, como a da Argentina, embora tenha passado por seca inclemente e seja administrada por federação nacional tão corrupta e bagunçada como a CBF.

Trazer Carlo Ancelotti não ajudou, ao menos, na busca de recuperar a essência, o tempo e o orgulho perdidos.

É claro que ele sabe e pode formar seleção que ganhe o hexa em 2030, por mais que tenha se curvado aos péssimos usos e costumes da CBF.

Reimplantar nosso modo de ser é mais difícil para quem tem a filosofia de jogo dele.

Nesse aspecto Jorge Jesus teria sido melhor escolha, depois do que ele fez no Flamengo em 2019.

Mas ganhar o tetra em 1994 não devolveu os principais traços do nosso caráter futebolístico e 2002 soa hoje como último suspiro — antes da estocada final do 7 a 1.

O suco de Parreira e Filipão resultou na pior catástrofe esportiva de uma equipe tradicional como a Amarelinha, apelido que também caiu no ostracismo.

Cadê os Djalma Santos, Carlos Alberto Torres, Leandro e Cafu da lateral-direita?

Os Nilton Santos, Marinho Chagas, Roberto Carlos e Marcelo, da esquerda?

Cadê Didi, Gérson, Rivellino, Dirceu Lopes, Ademir da Guia?

Cadê Vavá, Tostão, Romário, Reinaldo, Careca?

Note que os citados de 1982 e 2002 nem foram mencionados, para poupar o leitor de redundâncias.

Nem Mané Garrincha nem o Rei Pelé, porque exceções das exceções, como Alfredo Di Stéfano, Diego Armando Maradona e Lionel Messi entre os hermanos.

No auto-engano brasileiro gostamos de dizer que somos ou fomos o país do futebol. Balela.

Fomos sim, entre meados dos anos 50 e o começo do século 21, o pais do jogo bonito, abençoado pelos deuses do estádios com gênios de geração espontânea.

Esperar da CBF que está aí — submissa às medíocres federações estaduais — é ingenuidade sem tamanho.

A solução possível terá de vir dos clubes — e enquanto a maior parte deles não tiver gerência moderna, enquanto não houver entendimento nem sequer para fundar a liga, seguiremos nesta inexorável marcha à ré cada vez mais veloz, capaz de superar os limites de velocidade em nona marcha.

Racionalmente, entre a derrota em 1982 e a vitória em 1994 é compreensível que haja quem escolha a primeira, embora, emocionalmente, o triunfo sempre prevaleça.

Sim, mas é que em 1982 perdeu-se à brasileira e, em 1994, ganhou-se à moda europeia de então.

Quem esquece o passado, sofre no presente e não tem futuro.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL