Carros elétricos podem ter imposto exclusivo? Crescimento da frota cria desafio fiscal

27 de Ago de 2026 - 12:00
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Carros elétricos podem ter imposto exclusivo? Crescimento da frota cria desafio fiscal
  • Por Fernando de Jesus, especial para a Gazeta do Povo

  • 27/08/2026 às 11:30

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O avanço dos carros elétricos no Brasil, com a , pode levar a um impasse fiscal. Com veículos cada vez maiores e mais pesados, o aumento da frota eletrificada cria um desafio: quem deve pagar pela infraestrutura viária à medida que os veículos ficam mais pesados e a arrecadação sobre combustíveis diminui?

Historicamente, parte dos recursos financeiros relacionados ao transporte e à infraestrutura viária está associada à tributação sobre combustíveis. Veículos elétricos, por não consumirem gasolina ou diesel, não estão sujeitos a essas mesmas cobranças sobre combustíveis. Isso cria um desafio fiscal de longo prazo para a manutenção das boas condições do pavimento urbano.

A questão, que pode ganhar espaço no Brasil, já aparece em outros países. Na China, por exemplo, o governo começa a estudar alternativas para financiar a restauração do pavimento. Segundo dados da Associação de Automóveis de Passeio da China, 60% dos veículos novos lançados no primeiro semestre deste ano possuem mais de cinco metros de extensão.

Em contrapartida, os modelos com menos de 4,5 metros representaram somente 2% dos lançamentos – um recuo expressivo quando comparado aos 13% registrados no mesmo período de 2025. Como parte dos recursos usados na conservação das vias chinesas vem dos tributos sobre combustíveis, a expansão dos veículos elétricos reduz essa fonte de receita.

No Reino Unido, da mesma forma, o governo trabalha com mudanças na tributação de veículos diante da redução gradual da arrecadação associada aos combustíveis fósseis.

Na Holanda, há estudos para substituir a cobrança fixa anual pela propriedade do veículo por um modelo baseado na quilometragem percorrida, com previsão para a próxima década. A Alemanha, por sua vez, já possui um sistema de cobrança para veículos pesados que considera características como eixos e emissões, mas não mira diretamente nos elétricos.

Peso e quilometragem podem definir nova cobrança

Para enfrentar o impasse nas vias brasileiras, entretanto, a criação de uma cobrança específica para carros elétricos não seria simples do ponto de vista jurídico e, segundo especialistas, pode não ser a forma mais adequada de enfrentar o problema.

Para o advogado tributarista Fabiano Bettega, uma eventual cobrança não deveria ser direcionada apenas aos carros elétricos, já que o desgaste provocado pelo tráfego está relacionado principalmente ao peso e à quilometragem percorrida, e não ao tipo de motorização.

“Restringir a cobrança aos carros elétricos representa uma opção simplificada, mas economicamente inadequada, dado que o desgaste asfáltico decorre da carga por eixo e não do tipo de propulsão”, afirma Bettega. Para ele, um eventual modelo deveria considerar peso e quilometragem de forma isonômica para toda a frota.

Há, porém, uma barreira jurídica: impostos não podem, em regra, ter sua arrecadação vinculada a uma finalidade específica. Por isso, criar um imposto exclusivo para carros elétricos e destinar sua receita diretamente à manutenção das estradas não seria uma solução simples.

Uma alternativa seria recalibrar o próprio IPVA. Atualmente alguns estados concedem isenções ou descontos para veículos elétricos como incentivo à eletrificação, mas esses benefícios podem ser revistos à medida que a frota cresce e a arrecadação sobre combustíveis diminui.

Peso dos elétricos pode pressionar o pavimento, mas desgaste depende de outros fatores

A maior massa de alguns veículos elétricos pode aumentar o desgaste do pavimento, mas o peso total não é suficiente para determinar esse efeito, explica Rodrigo Leandro, professor de Engenharia Civil da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e especialista em pavimentação asfáltica.

“Fatores como a carga por eixo, a pressão dos pneus, a área de contato com o asfalto, o número de rodas e a forma como o peso é distribuído também interferem nas tensões provocadas na estrutura da via”, aponta.

A diferença pode ser relevante na comparação entre veículos elétricos e modelos equivalentes a combustão, explica o especialista: um carro mais pesado pode distribuir sua carga de maneira diferente sobre os pneus e, com isso, não necessariamente gerar uma pressão maior sobre o pavimento em todas as situações.

Interesse por carros elétricos dispara no Brasil

O interesse por carros elétricos ganhou mais força recentemente entre brasileiros. Um feito a partir do Google Trends, que mede a popularidade relativa dos termos pesquisados no buscador, mostra que as buscas por “veículo elétrico” permaneceram em níveis baixos durante boa parte dos últimos cinco anos, mas dispararam no fim da série analisada.

A alta se acentua a partir de janeiro de 2025 e chega ao pico da escala, com 100 pontos de popularidade relativa. O movimento coincide com o avanço da oferta de veículos eletrificados no mercado brasileiro e ocorre justamente quando o país começa a discutir como financiar a infraestrutura das estradas diante do crescimento dos carros elétricos e da redução da arrecadação com combustíveis.

** Esta reportagem faz parte de uma parceria com o Google, que apoia projetos jornalísticos baseados em dados do Google Trends. A apuração é de responsabilidade exclusiva da Gazeta do Povo, sem qualquer interferência editorial do Google.

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