Trump subestimou o Irã e perdeu o controle da guerra
Por Jorge Zaverucha
27/08/2026 às 05:00
- Dê de presente
O contencioso entre os EUA e o Irã remonta a 4 de novembro de 1979. Nesta data, a embaixada norte-americana em Teerã foi tomada por insurgentes iranianos. Cinquenta e dois norte-americanos foram mantidos em cativeiro durante 444 dias. Uma tropa de resgate foi enviada para salvar os que lá estavam. A tentativa de Jimmy Carter fracassou. Desde então, os dois países não possuem relações diplomáticas formais e a rivalidade persistiu. O Irã tentou assassinar altos funcionários, dentre eles John Bolton e Mike Pompeo.
O Irã possui ambições nucleares e reiterou seu desejo de varrer Israel do mapa. Chegou ao ponto de enriquecer seu urânio a 60%. Deste modo, a teocracia iraniana violou os termos do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), assinado em 2015 com o presidente Barack Obama. O Plano previu, dentre outros, a eliminação das reservas iranianas de urânio enriquecido. Na ocasião, Obama, ingenuamente, afirmou que “todos os caminhos em direção a uma arma nuclear estão cortados”.
O Irã driblou tanto Barack Obama como Joe Biden, porquanto o enriquecimento de urânio não parou de crescer. Um Irã plenamente nuclear desestabilizaria a região, pois haveria uma corrida nuclear dos países do Golfo Pérsico em busca de paridade. Além do mais, segundo Trump, os aiatolás estavam desenvolvendo mísseis balísticos capazes de atingir os EUA.
Segundo o embaixador Mike Huckabee, o Irã diminuiu sua produção de mísseis, no entanto, aumentou o alcance dos mesmos. Em um ano, a abrangência subiu de 2 mil para 4.100 km. Deste modo, cidades como Londres, Paris, Berlim e Roma estão sob o alcance do fogo iraniano. Não se sabe quando Nova Iorque ficará sob a mira adversária. Em suma, Trump tinha bons motivos para confrontar o Irã. Errou na execução.
No início da guerra contra o Irã, Trump anunciou seus quatro principais objetivos:
- Derrubar o regime teocrático dos aiatolás;
- Impedir que o Irã fabricasse armas nucleares;
- Cessar o apoio iraniano a grupos terroristas (Hezbolah, Hamas e Houtis);
- Anular a marinha iraniana. Decorridos seis meses de conflitos, os EUA conseguiram apenas anular, parcialmente, o último objetivo. Induzido pela facilidade com que capturou Nicolas Maduro, Trump acreditou que a guerra contra o Irã duraria alguns dias. Bastaria ativar sua poderosa máquina de guerra e esperar a queda do regime que estava, inclusive, desgastado pelas amplas manifestações de rua. O Irã, todavia, continua transferindo armas para tais grupos terroristas. O Hezbolah nega-se a se desarmar. Com isto, sabota o plano de paz entre o Líbano e Israel.
A ambição imperial de Trump foi tanta que ele nem sequer consultou o Congresso nem países amigos sobre o início das escaramuças. A história mostra que, para acontecer uma queda de regime — não confundir com a derrubada de governo —, é necessária a presença física de soldados em solo. Isto ocorreu na Alemanha, Japão, Iraque e Afeganistão. Contudo, há risco de múltiplas mortes. O comandante-em-chefe do Exército iraniano, general Amir Hatami, anunciou uma gratificação de US$ 30 mil para o iraniano que capture ou mate um militar americano. As mulheres ganhariam o dobro da gratificação.
O poder iraniano, em vez de submergir, apesar do desgaste sofrido, militarizou-se. Que o diga a recente nomeação de Moshen Rezai para secretário-geral do Conselho Supremo de Segurança Nacional. Rezai fora ex-comandante da Guarda Revolucionária e é considerado um linha-dura.
Mortes são um preço indesejado por Trump, especialmente por estar às vésperas de uma eleição presidencial. Seu aliado Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, também acreditou na queda rápida do regime islâmico. Tanto é que tentou recrutar o ex-presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, para ser o novo líder do país com a suposta queda do regime iraniano. De fato, uma campanha esperada para durar dias tornou-se um amplo conflito internacional cada vez mais complexo. Sem data para seu término. E a um custo financeiro estratosférico para os Estados Unidos.
O Irã é uma teocracia militarizada que conseguiu fundir um propósito divino com um destino nacional. Não obedece à lógica de negócios de Trump. Ele e o Ocidente foram surpreendidos pela “escalada horizontal” praticada pelo Irã. Os aiatolás, habilmente, expandiram o conflito para a arena econômica global. Ou seja, ao fechar o Estreito de Ormuz, elevaram o preço do barril de petróleo, afetando a economia internacional.
Afora isto, o Irã bombardeou as bases aéreas norte-americanas localizadas em vários países do Golfo Pérsico, inclusive uma na ilha de Diego Garcia, no Oceano Índico. Os EUA não mais conseguem garantir a segurança de seus protegidos.
Os Emirados Árabes Unidos aceitaram a presença de militares israelenses no treinamento das baterias Patriot usadas para interceptar mísseis iranianos. Ante o comportamento mercurial de Trump, Arábia Saudita, Paquistão e Turquia criaram um pacto trilateral de defesa (“Otan muçulmana”), pois começaram a duvidar da permanente presença dos EUA na região. Os EUA perderam o controle sobre as ações de guerra. Sinal de que um novo cenário geopolítico se avizinha.
Jorge Zaverucha é Doutor em Ciência Política pela Universidade de Chicago.
Encontrou algo errado na matéria?
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Principais Manchetes
Receba nossas notícias NO CELULAR