Boring job: o emprego chato é o novo sonho profissional

6 de Ago de 2026 - 10:00
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Boring job: o emprego chato é o novo sonho profissional

Você conhece o Jason Derulo, mas sabe se onde vem sua maior fortuna? O cantor americano, que tocou recentemente nos festivais Rock in Rio e The Town, é autor de hits como "Talk Dirty" e "Want to Want Me", e que soma mais de 100 milhões de seguidores nas redes sociais, é dono de um lava-rápido.

É sério, e ele frequentemente afirma que essa foi a maior decisão financeira de sua vida. A Rocket Carwash é uma rede de lavagem de carros por assinatura disponível em sete estados americanos. Segundo o artista, ele fatura US$30 milhões por ano com a empresa, avaliada pelo mesmo em US$2 bilhões.

Quando perguntam qual é a inovação genial por trás do império, a resposta é quase decepcionante: é uma mensalidade. O modelo do Spotify aplicado a lavar carro, onde você paga uma taxa fixa e lava quando quiser. Nada de inteligência artificial, nada de tecnologia do futuro... Parece uma ideia simples e... chata. É justamente por isso que ela funciona.

Há um movimento acontecendo entre os jovens lá fora, e ele tem nome: investir em boring jobs, os 'empregos chatos'. A geração Z está redescobrindo, com entusiasmo quase suspeito, as profissões que os millennials torceram o nariz por serem sem graça demais: contabilidade, ofícios manuais, funções administrativas. O tipo de trabalho que ninguém coloca na bio do Instagram.

O caso mais simbólico é a contabilidade, literalmente uma das profissões mais estereotipadas como "chatas" que existem. Segundo a revista Fortune, cerca de 340 mil contadores deixaram a área nos Estados Unidos nos últimos cinco anos, e estima-se que 75% dos que restam vão se aposentar na próxima década. O resultado desse vácuo? Recém-formados fechando salários de seis dígitos, com taxas de empregabilidade que passam de 90%: as maiores de qualquer curso de negócios em várias universidades.

Uma busca rápida no TikTok pelo termo "boring jobs" revela, inclusive no Brasil, jovens investindo em lavanderias, por exemplo, em vez de abrir companhias de metaverso ou criptos. Por aqui, já se chama esse tipo de escolha de "refúgio profissional". E a escolha da palavra refúgio não é por acaso, pois ela pressupõe que há algo lá fora do qual se proteger.

Do quê? De duas coisas ao mesmo tempo. A primeira é a inteligência artificial. Uma pesquisa do Pew Research mostra que 52% dos trabalhadores estão preocupados com o impacto da IA no próprio emprego. E o cálculo da geração Z é frio: melhor apostar num trabalho que exija mãos, presença física ou um selo de responsabilidade legal (coisas que a máquina ainda não faz barato) do que num cargo de escritório que um modelo de linguagem replica antes do fim do trimestre.

A segunda é mais estrutural, e menos comentada. O mercado de colarinho branco simplesmente congelou. Como mostrou o analista Jack Kelly, da Forbes, a "Grande Renúncia" (aquela onda em que todo mundo pedia demissão em busca de propósito) acabou e virou o oposto exato: uma paralisia.

Os trabalhadores, com medo de perder o emprego, não saem mais: a taxa de demissão voluntária está no menor nível desde 2015. Os empregadores, espremidos por custos e incerteza, não contratam, e, quando precisam, preferem automatizar. As vagas para profissionais de alto salário caíram ao menor patamar desde 2014.

Ou seja: a IA nem precisa roubar o seu emprego. Basta ela fazer o seu chefe hesitar em contratar o próximo, e o mercado inteiro trava. Uma paralisia que, como resume o próprio Kelly, não interessa a nenhum dos dois lados.

Aqui está o que me parece o coração da coisa, e é quase filosófico. Uma geração inteira foi criada com um evangelho: "faça o que você ama e não trabalhará um dia sequer na vida". O trabalho deixou de ser meio e virou fim. Virou identidade, propósito, missão, a resposta para "quem é você" numa festa. A gente aprendeu a ficar doze horas num escritório com pufe e cerveja na geladeira, convencido de que estava mudando o mundo.

E aí veio o primeiro layoff (demissão em massa). Nada cura mais rápido a ilusão de "somos uma família" do que um e-mail de desligamento às sete da manhã, com o acesso ao crachá já bloqueado. A empresa que era missão virou, da noite para o dia, uma linha no currículo. E quem tinha misturado quem era com o que fazia descobriu, do jeito mais caro, que as duas coisas nunca foram as mesmas.

A geração Z assistiu a esse filme protagonizado pelos irmãos mais velhos. E tirou uma conclusão que soa quase revolucionária de tão antiga: e se o trabalho for só... trabalho? Um jeito de pagar o aluguel, sustentar um estilo de vida, financiar as coisas que realmente importam: que acontecem fora do expediente?

Num relatório de 2025, o site Glassdoor batizou o comportamento de "career minimalism", minimalismo de carreira: a ideia de escolher um emprego que você não necessariamente ama, usá-lo pela estabilidade que ele oferece, e guardar a paixão para os projetos paralelos, para a vida.

Antes de transformar isso em autoajuda, vale a honestidade de olhar o outro lado. Porque a tendência tem armadilhas. A primeira: refúgio que lota deixa de ser refúgio. Se todo jovem correr para o mesmo porto seguro porque viu um eletricista viralizar no TikTok ganhando bem, o porto entope. O "trabalho seguro" de hoje é o mercado saturado de amanhã.

A segunda, e essa é incômoda para nós, brasileiros: "chato" é privilégio de quem pode escolher. Descobrir o valor do trabalho braçal como tendência aspiracional é um luxo de classe média. Para boa parte do Brasil, o emprego chato, instável e mal pago nunca foi uma opção de carreira cuidadosamente ponderada entre paixão e estabilidade. Foi a única que havia.

O encanador brasileiro não virou encanador porque viu um vídeo sobre equilíbrio emocional? virou porque precisava trabalhar. Romantizar a simplicidade é fácil para quem tem a alternativa de complicar.

E a terceira, a mais irônica de todas: nem o refúgio é totalmente à prova de IA. A própria contabilidade, o suposto porto seguro, já convive com a sombra da automação. Os otimistas dizem que a IA vai só engolir a parte tediosa e liberar o humano para a análise estratégica. Talvez.

No fim, talvez o boring job não seja sobre contabilidade, encanamento ou lava-rápido. Seja sobre uma correção de expectativa. A geração que sonhou o futuro do trabalho como um lugar de propósito infinito está aterrissando numa verdade mais modesta e, no fundo, mais saudável: o trabalho serve para financiar a vida, não para substituí-la.

Jason Derulo entendeu isso antes da maioria. Ele ainda faz música, ainda sobe no palco, ainda cria seu hits e se vende o tempo todo nas redes sociais. Mas a tranquilidade dele mora num lugar bem menos glamouroso: numa fileira de máquinas lavando carros, cobrando uma mensalidade, girando escovas azuis sob o sol, sem depender de nenhum algoritmo achar que a próxima música vai viralizar.

O futuro do trabalho, ao que tudo indica, é chato. E talvez a gente descubra, com algum alívio, que sempre foi para ser.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.