Desenho Masha e o Urso é investigado por espalhar propaganda de regime autoritário para crianças

27 de Ago de 2026 - 12:45
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Desenho Masha e o Urso é investigado por espalhar propaganda de regime autoritário para crianças

Uma menina irritante de vestido rosa, um urso pacato que vive sozinho na floresta e histórias voltadas para crianças em idade pré-escolar. Esse é o aparentemente inofensivo ambiente do desenho Masha e o Urso, que vem atraindo milhões de seguidores em vídeos infantis no YouTube. Mas diplomatas estrangeiros no Brasil e analistas internacionais apontam que tudo é uma fachada para difundir propaganda subliminar da ditadura da Rússia.

O alerta está tendo grande repercussão no Reino Unido, na Estônia e na Ucrânia. Na semana passada a Ucrânia aplicou sanções aos produtores e baniu a série. Movimento semelhante está sendo articulado no parlamento britânico, que investiga os conteúdos apresentados no desenho.

No Brasil, um novo filme relacionado à franquia deve chegar aos cinemas em setembro e já está sendo alvo de críticas de diplomatas estrangeiros em Brasília.

"O regime de Moscou sempre utilizou a propaganda em todas as dimensões da vida pública: da imprensa ao esporte e à cultura. Um desenho infantil pode parecer inocente quando o espectador desconhece o contexto dos símbolos e das narrativas empregados", afirma declaração pública da embaixada ucraniana no Brasil.

O filme Masha e os Ursos é apresentado como baseado em um folclórico conto russo, em que uma menina russa se perde na floresta e encontra uma casinha aparentemente abandonada, mas que pertence a uma família de três ursos.

A Gazeta do Povo procurou a A2 Filmes, distribuidora do filme para comentar as acusações atribuídas à franquia de Masha e o Urso. A empresa não enviou resposta até o fechamento desta reportagem.

A acusação é rejeitada pela Animaccord, empresa responsável pela produção da série. Em declarações à imprensa internacional, a companhia nega que o desenho seja uma ferramenta de propaganda estatal e afirma não manter vínculos com o governo russo.

Masha canta canções de guerra soviéticas e aparece com chapéu associado à polícia secreta

A controvérsia em torno de Masha e o Urso ganhou repercussão no Reino Unido há cerca de dois meses, onde dezenas de parlamentares pediram ao governo que avaliasse a presença da série em plataformas de televisão e streaming. 

Os críticos apontam referências à cultura russa e soviética presentes em episódios da animação e questionam se o conteúdo poderia contribuir para normalizar símbolos e mensagens ligados ao país que invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022. 

Entre os elementos citados está o episódio "A fronteira está trancada" em que a personagem aparece com roupas, acessórios ou referências associadas ao universo militar e de repressão soviético.

Um deles é o quepe da Guarda de Fronteira usado por Masha enquanto ela patrulha e protege a horta do Urso contra um coelho que tenta roubar cenouras. Trata-se de um chapéu que é associado à NKVD, a polícia secreta soviética que executou milhares de dissidentes políticos na ditadura de Josef Stálin. 

Cena do episódio "A fronteira está trancada" no qual o desenho Masha e o Urso normaliza símbolos da repressão da polícia política soviética.

"Essa continuidade não é apenas histórica: ainda hoje, a guarda de fronteiras russa integra o FSB, herdeiro institucional da KGB, esta, por sua vez, precedida pela NKVD, e encarregado também de monitorar e perseguir opositores do regime", diz a declaração da embaixada.

Para os diplomatas o símbolo está historicamente ligado à contrainteligência, à vigilância interna e à repressão política.

"No espaço dominado por Moscou, a fronteira historicamente funcionou nos dois sentidos: dificultava tanto a entrada quanto a saída. Durante o período soviético, viajar ao exterior dependia de autorização estatal e de uma rigorosa avaliação político-ideológica, sob o controle da KGB", diz a representação ucraniana em comentário similar a críticas divulgadas por políticos do Reino Unido e da Estônia.

Além disso, Masha aparece cantando velhas canções de guerra soviéticas e exibindo a estrela vermelha da ditadura, segundo Clare Denning, analista de Rússia da BBC Monitoring, órgão compartilhado da TV pública e da inteligência britânica.

O ministro das Relações Exteriores da Estônia, Margus Tsahkna, criticou o desenho e disse que o mundo jamais toleraria conteúdos infantis que retratassem "símbolos nazistas de forma positiva".

"Os símbolos soviéticos merecem a mesma clareza moral. Para muitas nações, incluindo a Estônia, eles representam ocupação, assassinatos em massa, deportações e crimes contra a humanidade", completou o ministro da Estônia.

O país dele foi forçado por décadas a integrar a URSS. A Rússia de hoje é um regime político diferente da União Soviética, que se dissolveu em 1989 com a queda do muro de Berlim. Mas é frequentemente retratada como a herdeira da URSS por países que integraram o bloco.

Tsahkna manifestou a posição da Estônia no final de junho, após a decisão da Netflix de renovar licenças e adquirir novos episódios do desenho.

"A Rússia não trava guerras apenas com mísseis, mas também com narrativas. 'Masha e o Urso' é parte do 'soft power' do Kremlin, embutindo mensagens pró-Kremlin e militaristas no entretenimento infantil, ao mesmo tempo em que normaliza a agressão e as ambições imperiais da Rússia", escreveu Tsahkna no X.

“A Rússia utiliza a cultura e o conteúdo de entretenimento como instrumentos de influência. Até mesmo a animação infantil pode integrar essa estratégia quando promove uma imagem positiva do Estado agressor. Os recursos obtidos são utilizados para comprar armas”, disse a ministra da cultura da Ucrânia Tetiana Berezhna.

O governo britânico não determinou, até o momento, a proibição da animação. Ao responder a questionamentos no Parlamento, afirmou que leva a sério possíveis ameaças de interferência estrangeira, mas não realiza avaliações rotineiras sobre programas específicos.

Teorias comparam personagens de Masha e o Urso com Putin, o povo e o Estado russo 

As controvérsias relacionadas ao desenho alimentam comparações entre os personagens de Masha e o Urso e figuras reais ou políticas da Rússia em análises geopolíticas de especialistas. 

Em declarações reproduzidas pelo jornal britânico The Times, Anthony Glees, especialista em inteligência e segurança da Universidade de Buckingham (Reino Unido), sugeriu que Masha possui traços comportamentais muito semelhantes aos do ditador russo Vladimir Putin. 

Masha é retratada como "impetuosa, irritante, mas extremamente corajosa", enfrentando adversários e animais que superam em muito o seu tamanho e peso, e sempre saindo vitoriosa ou no controle da situação. Segundo o analista, essa postura reflete a forma como a diplomacia e a propaganda russa gostam de projetar a liderança de Putin no cenário internacional. 

Outras análises, especialmente de acadêmicos da Estônia, como Priit Hõbemägi, professor da Universidade de Tallinn, argumentam que o Urso no desenho representa o próprio Estado e a sociedade russa. 

Nesta visão, o Urso é mostrado como uma figura extremamente paciente, acolhedora, forte, inteligente e paternal, que perdoa todas as falhas de Masha e protege a floresta de ameaças externas. Para os analistas geopolíticos, a animação busca suavizar a imagem da Rússia na mente das crianças ocidentais, fazendo com que associem a potência e o território russo a um "protetor bonachão e inofensivo". 

Outra corrente de analistas culturais enxerga uma divisão de papéis dentro do próprio sistema sociopolítico da Rússia. Assim, Masha seria o povo russo, com atitudes impulsivas, indisciplinada, hiperativa e que frequentemente ignora regras ou limites formais.

Já o urso representaria a autoridade russa, por ser retratado como uma figura benigna, patriarcal e benevolente que precisa constantemente intervir para arrumar a bagunça gerada pela população (Masha), mantendo a ordem e cuidando da infraestrutura e segurança da "casa". 

Pais não aprovavam desenho porque menina era desobediente, mas não notavam propaganda

A ucraniana Oleksandra Zhylina, estudante de mestrado em propaganda e desinformação na Universidade Charles, da República Tcheca, afirmou à BBC que o desenho passava na TV ucraniana antes da invasão russa e que seus pais não gostavam que ela assistisse quando pequena, por causa do mau comportamento e da atitude da menina com os adultos. "Ela não é uma criança obediente", disse ao programa Media Show em julho.

Mas após o início da guerra, o desenho passou a ser encarado como propaganda política. "Há muitos exemplos da cultura russa nesse desenho, nas músicas e poesias simbólicas da Rússia. Tudo isso cria uma sensação leve e acolhedora da cultura da Rússia", disse Oleksandra.

Na quinta-feira (20), o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, impôs sanções aos criadores da franquia de Masha e o Urso. A medida foi antecipada em uma publicação oficial do chefe do Centro de Combate à Desinformação da Ucrânia (CCD), Andriy Kovalenko, em seu canal no Telegram.

Na publicação, Kovalenko defendeu que a imposição de sanções estatais contra a Animaccord serviria de mecanismo jurídico para que as autoridades ucranianas notificassem e exigissem o bloqueio do canal em idioma ucraniano no YouTube (que contava com mais de 18,4 milhões de inscritos), além de formalizar os pedidos de remoção do catálogo junto a serviços de streaming globais como a Netflix.

Brasil mantém aproximação com Moscou 

Apesar das discussões que envolvem a Rússia, o governo Lula não aderiu às sanções econômicas impostas por causa da guerra pelos Estados Unidos e por países europeus. Brasília manteve os canais diplomáticos com Moscou e tem defendido uma solução negociada para a guerra.

O presidente petista e seus ministros têm recebido russos com frequência e estreitado laços entre os países. Recentemente, Lula recebeu, fora da agenda oficial, um dos braços direitos de Putin, o presidente do Conselho Marítimo russo, Nikolai Patrushev. Ele também visitou o Museu Naval, o Arsenal de Marinha, o porto do Rio de Janeiro e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  

Lula e o ditador Vladimir Putin também discutem a ampliação das relações bilaterais e da cooperação no âmbito do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, Egito, Irã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Etiópia). 

As conversas entre os dois governos envolvem temas como comércio, energia, ciência, tecnologia e outros setores estratégicos. 

A guerra da Ucrânia, porém, alterou o contexto em que essa relação é conduzida. Enquanto parte da Europa passou a reduzir vínculos com instituições russas e a tratar a influência de Moscou como uma ameaça, o Brasil optou por preservar sua interlocução. 

A justificativa de Brasília é a defesa de uma política externa independente e multipolar, que permitiria ao país manter diálogo com diferentes polos de poder.