CBF intervém em compra do Vasco mas não vai impedir aportes ou contratações
A Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf) - órgão vinculado à CBF e responsável pela aplicação do Fair Play financeiro - anunciou hoje que investigará a aquisição do Vasco pelo empresário Marcos Lamacchia, por possível conflito de propriedade.
O motivo é público: Lamacchia é enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras e da Crefisa. Por isso, a agência proibiu, de forma cautelar, que o Vasco pegue empréstimos e financiamentos com empresas do grupo da Crefisa e faça negócios diretamente com o alviverde paulista.
O caso será alvo de uma apuração mais profunda e uma eventual decisão sobre a existência de conflito.
Enquanto isso, a coluna apurou, a agência não analisará pontos discutidos na recuperação judicial do Vasco, contratações ou outros aportes financeiros externos discutidos e negociados pelo clube - inclusive eventuais empréstimos de empresas do próprio Lamacchia que não tenham vínculo direto com Leila, Palmeiras ou Crefisa.
A tomada de empréstimos pelo Vasco, inclusive com previsão de uso em contratações, durante a vigência do processo de recuperação judicial foi alvo de uma reclamação enviada pelo Flamengo à Anresf.
A coluna ouviu que, em relação à situação financeira e decisões de gestão do Vasco, a agência nesse momento vai se ater à fiscalização dos pilares do Fair Play financeiro: pagamento em dia a atletas, a outros clube, colaboradores e impostos, equilíbrio entre receitas e despesas e um endividamento futuro de 12 meses dentro do limite da capacidade de gerar receitas.
Há no regulamento a previsão de restrições a serem aplicadas a clubes em recuperação judicial: uma delas condiciona a compra de jogadores à venda de jogadores pelo mesmo valor; outra restringe a folha de pagamento mensal para que não seja superior à média dos seis meses anteriores.
Ambas afetariam diretamente a atuação do Vasco no mercado da bola, mas a recuperação judicial do clube é anterior à entrada em vigor do regulamento, por isso elas não foram aplicadas.
O Vasco pode, nesse momento, tomar empréstimos bancários ou de outra natureza, contanto que não tenham relação com o grupo Crefisa e, claro, sejam aprovados no âmbito da recuperação judicial. A Justiça travou um aporte de R$ 150 milhões e aguarda maior detalhamento e esclarecimentos sobre a destinação. Tudo passará por um exame técnico.
O caso do potencial conflito de propriedade envolvendo Vasco e Palmeiras é visto pela CBF e pela Anresf como um potencial marco em um futebol brasileiro em transformação. Será o primeiro caso do tipo analisado pela recém criada agência, e envolve dois clubes tradicionais da Série A do Brasileiro.
O regulamento proíbe que "qualquer pessoa, física ou jurídica, detenha, direta ou indiretamente, controle ou influência significativa sobre mais de um clube". A abertura do processo foi decidida de ofício - pela própria agência - e não é resposta a pedido de nenhum clube.
A decisão de hoje é uma precaução e não envolve qualquer julgamento, análise ou decisão de mérito sobre a existência do conflito. É uma precaução: visa evitar que as conversas e relações avancem de modo que o cenário seja irreversível quando houver uma decisão de fato.
Reportagem
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