'Paixão maior que a perda': a ginasta que teve perna amputada pela guerra
A ucraniana Oleksandra Paskal dá giros e faz pivôs acompanhada de uma bola. A leveza na execução esconde que os movimentos de ginástica rítmica estão sendo realizados em meio às irregularidades da grama do Aterro do Flamengo, aquele que outrora foi cantado por Gilberto Gil — desta vez, não sob o sol, mas debaixo de uma fina garoa.
Todo obstáculo ali, porém, é ínfimo diante do que Sasha, como é carinhosamente chamada, já passou. As pessoas que faziam suas caminhadas e pedaladas matinais nem sequer sabiam, mas, a apresentação aos pés do Pão de Açúcar era feita por uma jovem sobrevivente de guerra.
Sasha tem 10 anos e um olhar pueril. O collant deixa expostas algumas cicatrizes e a prótese usada na perna esquerda, mas, principalmente, algo que não está visível: a coragem de quem teve de recomeçar.
A paixão pela ginástica é maior do que a perda. Quando isso aconteceu, eu queria voltar porque tinha amigos que faziam ginástica, queria estar de novo com eles. Não ficar sentada em casa, sozinha e sofrendo. Queria voltar à sociedade, reunir meus amigos, estar com eles, e isso ajudou na reabilitação.
Sasha
"Quando eu voltei para os treinamentos, pude estar com meus amigos, e isso teve um peso positivo em minha recuperação", completou.
Sasha tinha apenas seis anos quando Odesa, cidade a noroeste da Península da Crimeia, foi atingida por mísseis russos. Uma parte do prédio onde morava desabou sobre ela, que ficou presa sob os escombros. Foi resgatada e ficou 15 dias em coma, sob risco de morte. Sobreviveu, mas teve de amputar a perna esquerda.
Ela havia começado na ginástica dois anos antes, após ver a irmã mais velha praticar a modalidade — e deixar o balé de lado.
Posso servir de inspiração a outras pessoas. Se você tiver um sonho, não há nada que possa te impedir. Essa é uma mensagem que gostaria de passar às pessoas.
Sasha
A jovem não fala português — e até brinca que, antes de chegar aqui, imaginava que falávamos "brasileiro" em uma associação normal para a idade —, mas, mesmo sem entender, abriu um largo sorriso quando um grito de "maravilhosa", em um tom bem carioquês, ecoou ao fim da apresentação.
Tour pelos continentes
A passagem Oleksandra pelo Rio de Janeiro faz parte da programação do Dance of Freedom World Tour (Dança pela Libertadores Tour Mundial, em tradução), que tem o apoio da Fundação Rinat Akhmetov e do Shakhtar Donetsk, clube ucraniano que já recebeu e conta com diversos jogadores brasileiros.
O projeto desembarcou no Brasil após apresentações em Paris, na França, e Nova York, nos Estados Unidos. Agora, partirá para Nairóbi, no Quênia, e encerra em Tóquio, no Japão, no dia 31 de julho.
Quero dizer ao mundo que eu vim da Ucrânia e há uma guerra no país, onde muitas crianças estão sofrendo. Já são mais de 700 crianças mortas e quase 3 mil feridas, assim como eu. Queremos que essa guerra acabe, o mundo precisa parar essa guerra.
Sasha
Segundo dados do site (filhos da guerra, em tradução livre), são 719 crianças mortas, 2.705 feridas e 2.367 que não se sabe o paradeiro, não incluindo as que foram sequestradas pelo exército russo, em dados de ontem (24). A página alerta que os números exatos não podem ser estabelecidos por causa da conjuntura atual do conflito e a ocupação de parte do território ucraniano.
O Shakhtar Donetsk também mantém um time de futebol voltado para amputados.
Sonho olímpico
Sasha realizou uma visita ao CT de Ginástica do Time Brasil, na Barra da Tijuca, e pôde fazer uma apresentação sob os olhares de ninguém menos que Rebeca Andrade, Jade Barbosa, Flávia Saraiva e Lorrane Oliveira, integrantes da equipe de ginástica artística que conquistou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Paris-2024.
A ucraniana, inclusive, esteve na capital francesa à época e, da arquibancada do ginásio, viu as apresentações das brasileiras que levaram ao inédito pódio. Agora, sonha com a inclusão da ginástica rítmica nos Jogos Paralímpicos para, quem sabe em Brisbane-2032, possa ser ela a ver a bandeira de seus país tremular.
Fiquei muito impressionada por estar em Paris. Tive a oportunidade de ver as competições e isso me inspirou ainda mais a continuar. Um dos meus sonhos é participar das Paralimpíadas no futuro.
Sasha
Quando estávamos em Nova York há alguns dias [durante o Dance of Freedom World Tour], conheci Oleksandr Usyk, ucraniano que é campeão mundial e olímpico de boxe. Ele me convidou a levar um pedaço de papel e escrever 'Oleksandra Paskal é uma campeã olímpica'. É como fazer seu sonho estar escrito, e isso vai me ajudar a alcançá-lo. Em seis anos, quero estar na Austrália.
Sasha