Bairro de Balneário Camboriú que quer usar IA e 300 câmeras para virar o mais seguro do país 

26 de Ago de 2026 - 13:00
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Bairro de Balneário Camboriú que quer usar IA e 300 câmeras para virar o mais seguro do país 

A região de praias mais preservada de Balneário Camboriú (SC) promete instalar até 300 câmeras com inteligência artificial e reconhecimento facial nos próximos dois anos, em um projeto de R$ 720 mil custeado integralmente por moradores e empresários. A primeira etapa, prevista para começar em setembro, tem uma meta declarada: transformar a Interpraias no “bairro mais seguro do Brasil” sem fechar um único acesso às praias públicas.

A rede deve cobrir as praias do Estaleiro, Estaleirinho, Taquaras, Taquarinhas, Laranjeiras e Pinho. "A Interpraias tem características territoriais que tornam esse projeto especialmente eficiente: poucos acessos principais, menor circulação de passagem e uma comunidade formada por moradores e empresários dispostos a participar da gestão da região", avaliou Maurício Girolamo, presidente da Agência Interpraias de Desenvolvimento Sustentável, responsável pela iniciativa.

"A meta de tornar a Interpraias o bairro mais seguro do Brasil é ambiciosa, mas está baseada em planejamento, tecnologia e conhecimento profundo do território", acrescenta ele. Girolamo explica que os R$ 720 mil correspondem ao investimento mínimo previsto para dois anos e serão destinados integralmente à implantação e à operação do sistema, incluindo instalação e manutenção das câmeras, monitoramento, armazenamento em nuvem e as ferramentas de inteligência artificial.

A manutenção da estrutura será feita por contribuições mensais, "de forma 100% privada", aponta ele, com participação de moradores, empresários, condomínios, proprietários de terrenos e comerciantes. O formato não nasce agora. Desde abril de 2021, a Praia do Estaleiro opera o projeto "Bairro Seguro", com dez câmeras — duas delas de leitura de placas — mantidas por uma mensalidade de R$ 37. As imagens já foram usadas pelas forças de segurança na elucidação de dois crimes no bairro: o furto de canos da rede de esgoto e o arrombamento de uma casa.

Quem poderá acessar as imagens da nova rede 

Além dos equipamentos novos, o sistema poderá utilizar câmeras que já existem em residências, condomínios e estabelecimentos comerciais da região. Para entrar na rede compartilhada, elas precisarão atender a requisitos técnicos mínimos, ter acesso à internet e autorização de acesso à empresa responsável pelo monitoramento.

Segundo Girolamo, o monitoramento 24 horas ficará a cargo da empresa de segurança contratada, com armazenamento em nuvem, e a ferramenta de busca vai além de rostos e placas: permite localizar registros por características específicas, como "boné roxo" ou "bicicleta amarela", além de veículos e animais — recurso que, segundo o presidente da agência, também deve ajudar a encontrar animais perdidos.

As imagens da rede privada de câmeras poderão ser acessadas pela Guarda Municipal e pela Polícia Militar; a Polícia Civil poderá requisitá-las para investigações.

A Secretaria de Segurança e Ordem Pública de Balneário Camboriú acompanha o projeto desde o início, conta o secretário, coronel Carlos Alberto de Araújo Gomes Júnior. O município terá acesso às imagens em tempo real e às gravações armazenadas, inclusive às ferramentas de busca, por acesso remoto a partir da central de monitoramento da secretaria. O secretário ressaltou ainda que as câmeras da Interpraias serão integradas ao "Smart BC Muralha Digital", sistema municipal de videomonitoramento.

O secretário explica que, mesmo que as câmeras sejam monitoradas por uma empresa particular, “os agentes privados não terão acesso a informações decorrentes do reconhecimento facial ou placas” e também não haverá "operação de segurança humana privada vinculada às câmeras". As imagens serão compartilhadas com a Guarda Municipal e a Polícia Militar, e poderão ser disponibilizadas à Polícia Civil quando solicitadas, inclusive como elemento de prova.

A secretaria afirma identificar pontos e tipos de crime na área que justificam a ampliação do monitoramento, e nega risco de que uma rede paga por moradores crie, na prática, uma lógica de condomínio fechado. A principal exigência, segundo o secretário, será a proteção de dados nos termos da LGPD, além das autorizações para uso do espaço público.

Monitoramento vira atributo do mercado imobiliário 

O coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da UniAvan, Carlos Vinicius Bortolato, acredita que o sistema não interfere na liberdade de circulação pública. "É um sistema de monitoramento que não vai impedir as pessoas de se locomoverem, e sim ter um monitoramento ali e a questão de identificação, caso aconteça algum crime", apontou. Ele lembra que grandes avenidas de Balneário Camboriú também já contam com esse tipo de monitoramento. 

O urbanista ponderou, porém, que a localização dos equipamentos é decisiva. "É primordial que sejam instaladas no acesso de entrada do bairro e na saída, e não propriamente próximo aos banhistas", avaliou, ao alertar que câmeras na faixa de areia podem, sim, produzir inibição.

Para ele, o projeto tem efeito inegável no mercado imobiliário da região, já que “a oferta de segurança transforma o valor do imóvel”. É justamente esse cálculo que move os moradores e comerciantes que vão investir na rede de monitoramento.

"Nos imóveis de alto padrão, a segurança ganhou peso semelhante ao de atributos como localização, vista e arquitetura", aponta Girolamo, que também é diretor-executivo da J. Maurício, imobiliária especializada na região. Para ele, o movimento não é um gatilho movido pela criminalidade, mas sim pela precaução. "Hoje não temos problema de segurança na região, e justamente por isso estamos agindo de forma preventiva".