OpenAI quer o governo como sócio. Quem ganha com isso?

5 de Jul de 2026 - 16:15
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OpenAI quer o governo como sócio. Quem ganha com isso?

A notícia que chamou atenção do mundo da IA nesta semana é que a OpenAI teria proposto entregar ao governo dos Estados Unidos uma fatia de 5% da empresa, segundo o Financial Times. Como a startup foi avaliada em US$852 bilhões na última rodada, essa participação valeria cerca de US$42,6 bilhões.

Sam Altman, o CEO da empresa, defende que ela seria uma forma da população participar dos ganhos da IA, inspirada no fundo soberano do Alasca, que distribui aos cidadãos parte da riqueza do petróleo. E ele ainda deu a deixa que as outras empresas de tecnologia tenham que fazer o mesmo.

A proposta ainda não foi aprovada e o papo ainda é preliminar, mas tudo isso conta bastante sobre o poder da IA.

O que me chama atenção é justamente o momento. As mesmas empresas que passaram anos empurrando a IA para dentro de tudo e prometendo reorganizar o trabalho de milhões agora aparecem dispostas a dividir o bolo com a sociedade. Num primeiro momento pode até parecer generoso, mas eu tenho uma série de perguntas e desconfianças.

O fato é que ninguém abre mão de uma fatia tão relevante assim sem um bom motivo. E por que logo agora?

Uma parte da resposta está em como a sociedade americana está enxergando a tecnologia. Já escrevi aqui sobre como a confiança na IA vem caindo nos Estados Unidos. Uma pesquisa da Edelman mostrou que apenas 32% dos americanos confiam na tecnologia, contra 87% dos chineses e 67% dos brasileiros.

A proposta também pode ser lida como uma resposta a esse cenário de desgaste. Desgaste tão relevante que pode virar tema nas eleições de meio de mandato e pressionar a agenda de IA dos aliados de Donald Trump. Depois de muitas promessas de uma revolução da IA, que prometia quase um apocalipse de empregos, é hora de reorganizar a rota.

E o curioso é que essa proposta de Altman até dialoga com a do senador democrata Bernie Sanders, embora os valores sejam bem diferentes. Em junho, o político apresentou um projeto que quer transferir metade das ações das grandes empresas de IA para um fundo soberano, com mil dólares por ano a cada cidadão. Apesar das diferenças enormes, as duas propostas partem de um diagnóstico parecido: convencer a sociedade que ela também ganhará alguma coisa com a IA.

E acabei lembrando de um episódio do podcast do Ezra Klein para o NY Times em que ele entrevista Ben Buchanan, conselheiro de IA para a Casa Branca durante a administração Biden. Tem uma parte em que ele destaca que, pela primeira vez, a tecnologia mais poderosa da época não está sendo desenvolvida pelos Estados, mas por empresas guiadas pelo capital privado. É como se fosse um alerta de que os governos deveriam participar mais perto desse desenho de futuro.

E ainda que as propostas de Altman e Sanders pareçam interessantes para tentar compartilhar os ganhos com a sociedade, elas não aparecem sem contradições.

Nas últimas semanas, esse mesmo governo pediu à OpenAI que adiasse o GPT-5.6 e levou a Anthropic a suspender por semanas seus modelos mais avançados. Ou seja, o Estado já interfere, na prática, em quais modelos chegam ao público. Agora vamos imaginar que esse mesmo Estado acabe virando sócio dessas empresas. O regulador passaria a ter interesse financeiro no desempenho do ente regulado.

Essa simbiose entre Estado e empresas de tecnologia pode ser lida como uma tentativa dos Estados Unidos de preservar sua hegemonia em uma área que se tornou estratégica demais para ficar apenas nas mãos do mercado.

Ao transformar as big techs em parte da estratégia nacional, a Casa Branca ganha mais controle sobre capital, infraestrutura, lançamento de modelos e acesso internacional de uma infraestrutura cognitiva capaz de influenciar até como pensamos.

E o Brasil, onde fica nessa história?

De fora. Todo esse debate sobre repartir a riqueza da IA é uma conversa entre americanos. O brasileiro que usa o ChatGPT todo dia, alimenta esses modelos com seus dados e paga a assinatura em dólar não vai ver a cor de nenhum eventual futuro dividendo da IA. Por aqui, não teremos nem o cheque de consolo. A conta de termos aceitado depender de uma tecnologia que não controlamos pode sair bem cara.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.