Fóssil de 400 milhões de anos no Paraná revela espécie anterior aos dinossauros

12 de Jul de 2026 - 09:30
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Fóssil de 400 milhões de anos no Paraná revela espécie anterior aos dinossauros

A análise de um fóssil de 400 milhões de anos revelou uma nova espécie animal em Ponta Grossa, na região dos Campos Gerais do Paraná. O ser vivo habitou a Terra muito antes dos dinossauros, que surgiram há cerca de 250 milhões de anos.

Trata-se de um molusco marinho do gênero Actinopteria, batizado de Actinopteria grahni. O nome homenageia o professor sueco Carl Yngve Grahn, que faleceu aos 80 anos em 2025, na Espanha. Grahn morou no Brasil, trabalhou por duas décadas com os cientistas locais e projetou o grupo no cenário internacional.

O professor Elvio Pinto Bosetti e o doutorando em Geografia Kevin William Richter, ambos da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), assinam a descoberta, publicada no periódico científico britânico Historical Biology.

"O Richter decidiu que faria um artigo com esses organismos. Ele planejou retornar ao campo de busca para procurar mais exemplares e localizou cerca de 20 conchas. Entre essas peças, surgiu uma forma inédita", lembra Bosetti.

Fóssil de Ponta Grossa preserva a concha de um molusco marinho de 400 milhões de anos.

Diferenças na estrutura da concha revelam espécie inédita e detalham hábito ecológico

Os cientistas localizaram o fóssil no sítio paleontológico Curva 2, um local rico em vestígios pré-históricos no Jardim Giana, conhecido desde a década de 1980. Inicialmente, Richter buscava coletar exemplares da Actinopteria langei, já catalogada na área.

As diferenças estruturais surgiram nos detalhes. Elementos como o contorno da concha, a morfologia da aurícula anterior, a expansão posterior e a ornamentação radial provaram que o exemplar era inédito.

O próprio artigo científico detalha que "a aurícula lobular bem desenvolvida, embora ocupe uma pequena área da margem anterior, distingue essa espécie de todas as outras formas brasileiras, particularmente da Actinopteria langei, na qual a aurícula é muito reduzida".

"A análise paleoecológica permitiu interpretar que essas espécies habitavam ambientes marinhos rasos e permaneciam parcialmente enterradas no substrato, com adaptações biológicas direcionadas a esses paleoambientes", comenta Richter.

Antigo mar do Paraná preservou fósseis em tempestades e indica potencial para gás natural

O professor Bosetti esclarece que, no passado, a região de Ponta Grossa foi fundo de mar e integrava a bacia do Paraná, uma extensão de 1,6 milhão de quilômetros quadrados que ia da Argentina até o Tocantins. As camadas sedimentares preservaram-se no município porque a maioria dos fósseis resulta de catástrofes naturais.

Durante o período Devoniano, entre 419 e 359 milhões de anos atrás, tempestades severas em um mar agitado soterraram e mataram a vida marinha, o que gerou o registro fóssil. Em breve, a peça integrará o acervo do Museu de Ciências Naturais (MCN) da UEPG.

O professor Bosetti ressalta que quanto maior o conhecimento sobre esses mares antigos, maior a probabilidade de localização de gás natural. "Esse estudo reduz o custo de produção, pois a presença de matéria orgânica indica os pontos propícios para a ocorrência de óleo ou gás".

Fóssil de Ponta Grossa vai integrar acervo do Museu de Ciências Naturais da UEPG.

Cientistas planejam novas buscas em campo e incentivam revisão de acervos em museus

A descoberta também atrai o interesse do setor produtivo, pois a matéria orgânica de restos de algas, plantas e animais antigos forma a base do gás natural — combustível essencial para residências, comércios, indústrias, veículos e termelétricas.

Os pesquisadores planejam agora o retorno ao sítio paleontológico para coletar mais conchas da Actinopteria grahni. O sucesso da pesquisa funciona como um forte incentivo para que museus e pesquisadores independentes revisem seus acervos.

"Retornaremos àquele local para coletar mais espécimes semelhantes. O nosso objetivo é que os museus e os profissionais da área reavaliem os materiais armazenados que antes consideravam como outra espécie. Afinal, a ciência funciona como uma constante reavaliação", projeta o professor.