Campanha do PT revida “Lulinha” com “carnificina” contra Flávio
A estratégia da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o horário eleitoral gratuito será concentrada na desconstrução do principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A campanha petista preparou um arsenal baseado no que chama de “currículo” do rival, apresentando sua trajetória em uma espécie de “ficha corrida” policial. A ofensiva começou nesta sexta-feira (28), com as primeiras inserções no rádio e na televisão, e ganha espaço nos programas em bloco a partir de sábado (29).
As primeiras peças exploram as conversas do senador com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro e o antigo caso das “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Também será explorada a homenagem proposta por Flávio ao ex-policial Adriano da Nóbrega. Suspeito de ligação com uma milícia, Nóbrega é chamado na campanha de Lula de "matador de aluguel". Além disso, a compra de imóveis em dinheiro vivo e um antigo negócio do candidato do PL com uma franquia de chocolates serão abordados.
Em uma das peças mais agressivas, como revelou a Folha de S. Paulo, o locutor afirma que “não dá para confiar nesse sujeito” e chama Flávio de “o pior dos Bolsonaros”. Um dos jingles também recorre ao ritmo de forró para listar as suspeitas contra o senador.
“Vai ser uma carnificina eleitoral”, diz Alexandre Manoel, da Global Analytics. “É o estilo do PT, que tem uma máquina de reeleição muito estruturada.” Embora os ataques devam ocorrer de ambos os lados, a avaliação é de que o PT tem mais experiência em campanhas, acumulada ao longo dos últimos 20 anos.
Roberto Reis, estrategista eleitoral, afirma que a televisão é um território em que os marqueteiros do PT possuem forte domínio, o que tende a dar ao partido uma vantagem inicial. “Eles são muito bons de horário eleitoral, são muito bons de TV”, diz.
“Vão fazer ótimos programas eleitorais, bem plásticos, gravação controlada, vão bater no Flávio dia sim, dia também”, complementa.
Fontes ouvidas pela reportagem também não descartam estratégias mais ousadas da campanha, mesmo com risco de problemas com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo um analista que preferiu não se identificar, o PT tem um modus operandi agressivo e sabe como destruir reputações. Marina Silva (Rede), por exemplo, já foi alvo de uma campanha de desmoralização do partido (veja adiante).
Campanha quer virar o jogo de pressão
A ideia da campanha petista é sair da defensiva depois de semanas de pressão com as novas revelações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal em poder da lobista Roberta Luchsinger reforçaram suspeitas de tráfico de influência do filho do presidente e possíveis relações com negócios e integrantes do governo. Lulinha é alvo de três investigações, mas a defesa nega quaisquer irregularidades nas relações com a lobista.
A estratégia em relação a Lulinha também se vale da comparação entre Lula e Jair Bolsonaro. O ex-presidente é retratado como tendo usado seu poder, à época, para proteger Flávio nas investigações sobre a “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Por outro lado, o PT tenta construir a imagem de que Lula adota uma atitude diferente diante das suspeitas envolvendo o próprio filho. O presidente tem afirmado que Lulinha deve ser investigado como qualquer cidadão e que, se tiver cometido algum erro, terá de responder.
Lula terá uma vantagem significativa de exposição para executar a estratégia. O presidente terá 5 minutos e 31 segundos em cada bloco, contra 4 minutos e 20 segundos de Flávio, além de 433 inserções ao longo do primeiro turno, contra 339 do candidato do PL. A diferença é resultado da coligação reunida pelo PT.
Radio e televisão podem decidir eleição
A estreia no horário eleitoral ocorre após a consolidação do empate técnico com Flávio nas pesquisas para o segundo turno. A última sondagem da BTG/Nexus, divulgada na segunda-feira (24), apontou Lula com 46% das intenções de voto contra 45% de Flávio na simulação de segundo turno, diferença de um ponto percentual dentro da margem de erro de dois pontos. O levantamento ouviu 2.006 eleitores de 21 e 23 de agosto, tem nível de confiança de 95%, e foi registrado no TSE sob o número BR-09028/2026.
Os analistas convergem que a campanha será decisiva. Apesar da ascensão das redes sociais, a televisão ainda é uma peça central na disputa. A mesma pesquisa BTG/Nexus mostra que 65% dos brasileiros pretendem usar a TV aberta para acompanhar a eleição presidencial. O índice chega a 72% entre os eleitores de renda de até dois salários mínimos, justamente um dos segmentos em que Lula é mais forte.
Estudos do Cesop/Unicamp também mostram que, embora as redes tenham avançado como fonte de informação política, a televisão permanecia como principal meio de informação sobre as eleições em 2022.
A diferença é que, hoje, a TV não disputa espaço isoladamente com as redes. O conteúdo exibido no horário eleitoral pode ser recortado, redistribuído e repercutir no ambiente digital, onde a direita tem vantagem, mas no qual o “PT está aprendendo a navegar”, afirma Reis.
Os ataques mais pesados, porém, não devem ocupar a maior parte dos programas principais. De acordo com aliados e estrategistas petistas, a campanha pretende concentrá-los nas inserções curtas, espalhadas ao longo da programação, para tentar elevar a rejeição a Flávio durante os 35 dias de horário gratuito do primeiro turno.
Nos programas em bloco, parte do tempo será usada para mostrar os feitos de Lula. Sob o slogan “O Brasil pronto pra mais”, a campanha apresentará o atual mandato como um período de reconstrução para “colocar o país em ordem” após o desmonte de políticas públicas herdado da gestão anterior.
A propaganda destacará medidas de apelo popular, como Pé-de-Meia, Gás do Povo, renovação automática da CNH, Desenrola e Move Brasil, além de ações de crédito e consumo. A estratégia também evita temas que possam colocar o governo na defensiva, como ajuste fiscal, teto de gastos e a onda de recuperações judiciais.
Para Reis, a estratégia faz todo sentido. Além de Lulinha, a economia vem sendo apontada como fator para o crescimento de Flávio Bolsonaro na classe C, onde os problemas reais do eleitorado aparecem de forma inevitável. "Não tem jeito de maquiar supermercado", diz.
Relembre as estratégias mais agressivas do PT
O receio de que a campanha de Lula parta para ataques "abaixo da cintura" tem precedente. O PT já foi acusado várias vezes de pesar a mão na propaganda eleitoral, principalmente quando a disputa se acirrou.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em 2014, quando Marina Silva, então no PSB, passou a ameaçar a liderança de Dilma Rousseff. Marina havia sido ministra do Meio Ambiente no governo Lula entre 2003 e 2008 e era uma antiga aliada do petista.
A campanha de Dilma reagiu com uma ofensiva de desconstrução da adversária, explorando principalmente sua proposta de dar autonomia ao Banco Central.
Uma das peças mostrava uma família durante uma refeição. À medida que o narrador explicava a proposta de Marina, a comida desaparecia da mesa. “Os bancos assumem um poder que é do presidente e do Congresso”, dizia a propaganda.
A peça foi criticada até por aliados. O então procurador-geral Eleitoral, Rodrigo Janot, pediu ao TSE a suspensão da peça por considerar que ela criava um cenário “tendencioso, apto a gerar estados emocionais desapegados da experiência real”.
A campanha de Dilma também explorou a ligação de Marina com Neca Setubal, herdeira do Itaú e uma das coordenadoras de sua campanha, para tentar associá-la aos interesses dos bancos. A estratégia foi apontada na época como uma tentativa de apresentar Marina como alguém que entregaria o país ao sistema financeiro.
Na mesma eleição, a artilharia petista se voltou contra Aécio Neves. Uma propaganda de Dilma acusava o tucano de perseguir jornalistas e censurar a imprensa quando era governador de Minas Gerais.
Em outubro daquele ano, o TSE suspendeu uma das peças e afirmou que o horário eleitoral deveria ser usado de forma propositiva, e não para “críticas destrutivas da imagem pessoal” do adversário.
Outro episódio ocorreu em 2006, na disputa pela reeleição de Lula contra Geraldo Alckmin. No mesmo dia em que o presidente dizia na propaganda que não queria “baixaria”, os sites do PT e da campanha publicaram o texto “O telhado de vidro de Alckmin”, com ataques à mulher e à filha do tucano.
O material questionava o trabalho da filha na Daslu e dizia que a mulher de Alckmin havia ganhado “400 vestidinhos chiques”. O texto foi retirado do ar e o então presidente do PT e coordenador da campanha, Marco Aurélio Garcia, pediu desculpas.