Meta promete frear vício em redes nos EUA. E no Brasil?
A Meta aceitou implementar novas restrições para adolescentes nos EUA após fechar um acordo bilionário que buscava encerrar acusações de que suas plataformas poderiam estimular o uso compulsivo por crianças e jovens. Para especialistas ouvidos por Tilt, parte das medidas tem semelhança com mecanismos já previstos no ECA Digital brasileiro, embora o impacto financeiro do acordo seja limitado para a empresa.
O que aconteceu
Meta encerrou uma disputa judicial com dezenas de procuradores dos EUA. Num acordo histórico, a gigante das redes sociais se comprometeu a pagar US$ 17,1 bilhões e anunciou uma série de medidas para o Instagram e o Facebook para crianças e adolescentes entre 13 e 17 anos,
Recursos para usuários americanos não serão os mesmos para brasileiros. "No Brasil, tem as , só que por aqui tem questões de restrição de conteúdo e de notificações, mas não enfrenta os problemas que fazem as crianças permanecerem na plataforma. O acordo dos EUA inova neste aspecto", diz Maria Mello, gerente do eixo digital do Alana (organização que luta pela garantia de direitos para crianças e adolescentes).
A especialista pontua que medidas anunciadas pela Meta buscam reduzir dependência. Dentre as principais estão o limite diário de uso de redes sociais por duas horas, a desativação de notificações à noite e no período escolar e a possibilidade de desativar a reprodução automática.
Questionada se adotaria algo parecido no Brasil, a Meta diz que conta com soluções robustas para crianças e adolescentes do país. A empresa menciona que vai monitorar o funcionamento nos EUA e que manterá um diálogo produtivo com governos para apoiar experiências adequadas à faixa etária nas diferentes plataformas.
Decisão é vista como positiva, apesar do dano financeiro ser considerado baixo. Segundo Rafael Zanatta, diretor da Data Privacy Brasil, foi uma "vitória para o ativismo americano" e que a ação movida por dezenas de estados foi "impressionante". Mesmo assim, "saiu barato" para a Meta o acordo na casa dos US$ 17 bilhões e sem a necessidade de reconhecer a culpa ou o ato ilícito.
A ação inicial previa perdas na casa dos . No fim, a Meta conseguiu um acordo que equivale acerca um terço do lucro anual da empresa, e que pode ser pago em até dez anos. Não é algo que vai provocar uma perda sistêmica financeira para a Meta
Rafael Zanatta, diretor da Data Privacy Brasil
Medidas da Meta convergem com Eca Digital
Para ambos os especialistas, medidas sugeridas pela Meta são previstas pelo Eca Digital, que passou a vigorar neste ano. "A legislação brasileira fala que fornecedores de tecnologia precisam implementar mecanismos para evitar o uso excessivo, problemático ou compulsivo. Então, já existe uma convergência, só que quem faz a cobrança no Brasil é ANPD; e nos EUA, isso vai ficar a cargo do judiciário".
Uma única diferença é na discussão sobre aferição de idade entre os países. No Brasil, o Eca Digital prevê protocolos que não identifiquem a pessoa durante a verificação (sistemas só retornam se uma pessoa é maior ou menor; e a partir disso, a experiência dela na plataforma é alterada); nos EUA, a questão de estimativa de idade por meio da tecnologia é mais complexa.
Aqui, a legislação prevê protocolos abertos para credenciais verificáveis, permitindo que tanto governo como empresas participem. Nos EUA, a principal crítica é que as empresas usadas para esse processo são próximas as big techs. O risco é de criar um mercado de aferição de idade dominado por essas empresas
Rafael Zanatta, diretor da Data Privacy Brasil
Se o ECA Digital prevê tudo isso, por que ainda não há verificação etária nas redes sociais ou em sites adultos? Apesar de a lei estar em vigor desde 17 de março de 2026, a implementação das novas regras ocorre de forma gradual. A ANPD vem publicando orientações e definindo parâmetros técnicos para que empresas se adequem às exigências de aferição de idade, enquanto a fiscalização deve avançar em etapas.