Por que Palmeiras e Flamengo precisam ter atenção e cuidado nas finanças

25 de Jul de 2026 - 13:45
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Por que Palmeiras e Flamengo precisam ter atenção e cuidado nas finanças

por Bruno Chatack e Caio Marins*

Juntos, os dois somaram R$ 3,8 bilhões de receita em 2025. Porém, 2026 cobrará de ambos uma disciplina maior. No futebol brasileiro, saúde financeira é a exceção, não a regra. A maior parte dos clubes convive com dívidas que se arrastam há décadas e raramente encontram uma rota de saída. Palmeiras e Flamengo são o avesso desse retrato.

Nos últimos anos, se firmaram como os clubes mais bem administrados do país, cada um pelo seu caminho, e é o que fizeram de certo até aqui que ajuda a medir o risco que ambos assumem em 2026. Os dois são o maior exemplo de que um clube associativo brasileiro pode reestruturar dívidas históricas, mudar de patamar de receita e se sustentar, ano após ano, com uma gestão responsável.

O Flamengo transformou o tamanho da sua torcida em receita recorrente e rompeu a marca de R$ 1 bilhão em faturamento anual não ligado à venda de jogadores. Em 2025, essa receita recorrente chegou a R$ 1,57 bilhão. O Palmeiras construiu, na última década, a combinação mais eficiente do país entre sucesso esportivo e formação/venda de atletas a ponto de a negociação de jogadores ter respondido por R$602 milhões, ou 35% de toda a receita bruta do clube em 2025.

Em outras palavras: transformou em rotina uma receita que, para a maioria dos clubes, é imprevisível. No entanto, terminado o primeiro semestre de 2026, ambos mostram, cada um a seu modo, sinais de que esse equilíbrio está sendo posto à prova. Os números, tirados diretamente dos portais de transparência dos clubes, não configuram crise. Mas pedem atenção redobrada, principalmente em um país onde o dinheiro está caro há mais tempo do que a economia consegue absorver.

Uma ressalva metodológica antes de seguir: os dois clubes divulgam suas contas em periodicidades diferentes. O Flamengo publica um relatório de transparência trimestral (os dados a seguir são do primeiro trimestre de 2026, ainda não auditados). O Palmeiras divulga demonstrações anuais auditadas (a última fechada é a de 2025) e balancetes mensais não auditados, dos quais o mais recente é o de maio de 2026. A comparação direta entre um trimestre de um e o acumulado do outro, portanto, serve para ilustrar tendências, não para cravar um ranking mês a mês.

O Palmeiras encara a fatura da temporada em que o clube gastou como nunca, pois 2025 foi o ano mais caro da história do clube no mercado de transferências. Somando aquisições e luvas, investiu cerca de R$ 970 milhões em reforços, mais de cinco vezes o valor gasto em 2024. Entraram no elenco, entre outros, Vitor Roque, Paulinho, Facundo Torres e Ramón Sosa.

À época, era razoável defender que o clube podia se dar ao luxo de gastar dessa forma: o Palmeiras vinha de uma temporada de receita recorde e o resultado esportivo justificava o investimento. As demonstrações financeiras auditadas de 2025, aprovadas em março pelo Conselho Deliberativo, confirmam que a conta fechou bem no consolidado do ano: receita bruta de R$1,696 bilhão (alta de 33% sobre 2024), Ebitda ajustado de R$ 681 milhões (margem de 42%) e superávit do exercício de R$ 292,4 milhões, bem acima da meta orçamentária de R$ 12,4 milhões.

O detalhe é que boa parte da fatura de 2025 ficou para trás. O orçamento aprovado para 2026 já previa a virada de página: um ano de contenção, com meta de negociação de atletas orçada em cerca de R$ 400 milhões e sem a mesma disposição para grandes desembolsos. O balancete mais recente, referente a maio de 2026, mostra por que essa disciplina deixou de ser opcional.

O ativo circulante, tudo o que o Palmeiras tem a receber em até 12 meses, soma R$ 250,9 milhões. O passivo circulante, o que precisa pagar no mesmo período, chega a R$ 802,8 milhões. É um descasamento relevante, que o próprio fluxo de caixa operacional do segundo semestre, historicamente mais forte por conta de premiações e direitos de TV, ajuda a suavizar. Ainda assim, o calendário praticamente obriga o clube a vender.

Os cinco primeiros meses de 2026 também trouxeram um déficit acumulado de R$ 65,9 milhões no exercício, resultado natural de um ano de transição entre um ciclo de investimento pesado e a normalização das contas, mas que pressiona ainda mais o caixa em um cenário de juros elevados. Queimar caixa nesse momento colocaria a saúde financeira do clube em uma posição desnecessariamente desconfortável.

Foi nesse contexto que se arrastou, ao longo de julho, a novela em torno da contratação de Danilo, revelado pelo próprio Palmeiras, que chegou a oferecer cerca de 28 milhões de euros (R$ 161,8 milhões) pelo volante, mas o Botafogo recusou repassar o atleta a um concorrente direto do Brasileirão. Com jogador completando a 13ª partida da competição pelo clube carioca, pelo regulamento ele não pode disputar o torneio por outro time nesta temporada. Assim, a presidente Leila Pereira confirmou, em 23 de julho, o fim das conversas.

Ainda que a aquisição do Danilo não tenha sido concretizada, a meta da venda de jogadores segue ainda longe de ser alcançada. Tal fato colocará enfoque nos de maior destaque, casos de Flaco Lopéz e Allan, provocando a inevitável discussão sobre cumprir o planejado e perder poder esportivo ou não cumprir à risca a previsão orçamentária de 2026.

Do ponto de vista esportivo, é natural que a torcida lamente a saída de cena de um reforço tão desejado. Do ponto de vista financeiro, porém, dificilmente há uma notícia mais bem recebida pelos cofres alviverdes: gastar mais de R$ 160 milhões justamente no semestre em que o orçamento pedia disciplina teria sido rasgar o planejamento que o próprio clube aprovou.

O Flamengo também vem de um 2025 vitorioso dentro e fora de campo. A janela agressiva do fim de 2024 somou as chegadas de Michael, Plata e Carlos Alcaraz à compra do terreno do entorno do Gasômetro, onde o clube pretende erguer seu estádio, por R$ 194 milhões. O ano seguinte combinou conquistas em série (Libertadores, Brasileiro, Supercopa e Carioca) com prudência financeira, ancorada em R$ 421 milhões de premiações e na maior janela de vendas de sua história recente.

Foram R$ 519 milhões, puxados pelas saídas de Gerson (R$ 160 milhões) e Alcaraz (R$ 112 milhões), o que ajudou a bancar um investimento também recorde, de R$ 636 milhões em reforços, como Samuel Lino, contratado por R$ 195 milhões. No consolidado, o faturamento chegou a R$ 2,09 bilhões, alta de 49% e recorde histórico, com superávit de R$ 336 milhões e o maior patrimônio líquido do futebol brasileiro: R$ 954 milhões, números que o colocaram entre os 20 cliubes de maior receita do mundo.

O apogeu de 2025 ganhou um capítulo novo já na primeira janela de 2026: o Flamengo trouxe de volta Lucas Paquetá, formado no próprio clube e nome recorrente na seleção brasileira, junto ao West Ham, por cerca de R$ 315,7 milhões, aproximadamente 52 milhões de euros, já contabilizados impostos e comissões de intermediação. A contratação mais cara da história do futebol brasileiro. Somadas às chegadas de Vitão e Andrew, investiu R$ 469 milhões em direitos federativos só no primeiro trimestre, o maior valor já registrado pelo clube em um único trimestre.

Mesmo com o investimento recorde, as demonstrações financeiras do primeiro trimestre mostram um Flamengo em situação operacional muito sólida: a receita recorrente bruta, que exclui a venda de jogadores, somou R$ 336 milhões, crescimento de 42% sobre igual período de 2025, o maior valor já registrado para um primeiro trimestre. O Ebitda recorrente saltou 547%, para R$ 50,4 milhões, com margem de 16%, a primeira vez em cinco anos que o indicador atinge dois dígitos já nos três primeiros meses do ano.

O trimestre fechou, ainda assim, com déficit contábil de R$ 63,9 milhões no consolidado, reflexo sobretudo da amortização de R$ 92,3 milhões dos direitos econômicos dos atletas recém-contratados, um efeito contábil que não representa saída de caixa. O caixa livre, esse sim um indicador que merece atenção, recuou R$ 121 milhões frente a dezembro de 2025 e fechou março em R$70,5 milhões, dos quais R$ 43,1 milhões administrados diretamente pelo clube e o restante sob a Fla-Flu Serviços, empresa que opera o Maracanã.

Foi uma mobilização planejada de parte da posição construída ao longo de 2025 para bancar a contratação de Paquetá, sem recorrer a endividamento financeiro adicional, segundo o próprio clube. A leitura mais honesta desse quadro não está na dívida, e sim no fôlego de caixa. O Endividamento Operacional Líquido, indicador que o próprio Flamengo acompanha (obrigações com fornecedores, outros clubes, funcionários e governo, líquidas do caixa e dos valores a receber), saltou de apenas R$ 53 milhões no encerramento de 2025, a mínima histórica, para R$ 488,1 milhões em 31 de março.

É um patamar que reflete o ciclo de investimento da janela de janeiro e que tende a ser amortizado ao longo dos próximos exercícios, à medida que as receitas recorrentes cresçam. O ponto de atenção, portanto, é de fluxo, não de solvência: o clube tem compromissos parcelados relevantes pela frente e um caixa mais enxuto para honrá-los.

Foi sob essa lógica de contenção que entrou em julho sinalizando que não faria grandes investimentos na segunda janela do ano. A sinalização, porém, esbarrou no avanço das conversas por Thiago Almada. As negociações giram em torno de 27 milhões de euros (R$ 156 milhões) por metade dos direitos econômicos, valor que, somado aos cerca de 52 milhões de euros da operação Paquetá, elevaria a conta das contratações em 2026 para quase 80 milhões de euros (perto de R$ 490 milhões, com impostos e comissões), um patamar de gasto que a torcida não esperava depois dos primeiros sinais de contenção.

O momento pede cautela adicional porque o Flamengo ainda paga parcelas de contratações anteriores e porque 2026 não deve contar com a bolada do Mundial de Clubes que ajudou a turbinar o caixa em 2025. A isso se soma a eliminação precoce na Copa do Brasil, na quinta fase, para o Vitória, em maio, o que reduz uma fonte relevante de receita não recorrente para o segundo semestre. Vender atletas, portanto, vira praticamente uma obrigação orçamentária, a menos que o clube consiga, mais uma vez, surpreender no crescimento das receitas recorrentes de patrocínio, licenciamento e do próprio Maracanã.

Vistos em conjunto, os números de Palmeiras e Flamengo contam uma história muito distinta da vivida pela maior parte dos clubes brasileiros, mergulhados em dívidas que se acumulam há décadas e raramente encontram uma trajetória de saída. Os dois são, hoje, o retrato do que a boa gestão associativa é capaz de produzir: receitas recordes, dívidas sob controle e investimento esportivo relevante sem comprometer a operação.

Não há aqui, portanto, motivo para alarme, mas há razões de sobra para atenção. O Flamengo entra na parte mais delicada do calendário com um caixa mais apertado e uma fonte de receita a menos, sustentado por um crescimento operacional consistente e por uma gestão que tem sabido dosar ambição e prudência.

O Palmeiras precisará provar, nos próximos meses, que sabe recalibrar a rota depois do ano mais ousado de sua história. O desfecho da novela por Danilo, aliás, já ajudou nesse sentido. Os dois clubes com as histórias mais marcantes de recuperação financeira e de administração responsável do futebol brasileiro terão de renovar, na prática e não apenas no discurso, seus votos de prudência financeira.

* equipe do Sports Market Makers, a vertical de finanças e esportes do Market Makers

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL