De La Fuente vira contraponto dos ?malvadões? Trump e Infantino

21 de Jul de 2026 - 09:15
 0  1
De La Fuente vira contraponto dos ?malvadões? Trump e Infantino

Em uma Copa do Mundo marcada pelos desmandos de Donald Trump e a subordinação de Gianni Infantino, uma figura se destacou como contraponto aos dois todo-poderosos: Luís de la Fuente.

O técnico da Espanha, agora campeão do mundo, é um homem de perfil discreto - mas discurso poderoso. Um discurso que não divide nem acusa de forma irresponsável, como o de Trump - perguntem ao Claus. Um discurso que não roça o cinismo e a hipocrisia, como o de Infantino, que começou a Copa dizendo, por exemplo, que os ingressos não eram tão caros assim.

"O que não é bom para a colmeia, não é bom para a abelha".

A frase, repetida diversas vezes por De la Fuente, foi uma espécie de slogan do treinador durante a Copa. É uma frase tirada das "Meditações" do ex-imperador romano Marco Aurélio, obra que virou o livro de cabeceira do espanhol. Transformar táticas de guerra em retórica para futebolistas tampouco é uma grande novidade, mas esta frase específica é uma espécie de resumo da importância do coletivo acima dos indivíduos.

"Muita gente se surpreende que no futebol seja possível que, além de gente talentosa e brilhante, possa jogar também gente boa, solidária, com valores, princípios, que põem à frente de tudo o bem comum. Com esse tipo de gente se pode viajar, fazer a travessia sem medo", falou De la Fuente após a conquista do bicampeonato do mundo.

"Gosto de liderar apelando para a inteligência e a reflexão", explicou em outro momento.

As entrevistas de De la Fuente durante todo o Mundial foram verdadeiras aulas. Não é um treinador que expõe segredos táticos ou fica com devaneios. Foram aulas de bom senso, humanismo e comportamento esportivo. É um cara que chama o entrevistador pelo nome, que sorri, que gargalha, até, que se emociona, que dá respostas que fazem sentido em função da pergunta.

E o tempo inteiro ressaltando a importância do processo, da caminhada, do trabalho em equipe. De la Fuente transmita calma e controle sem esbarrar na petulância.

"Sou de carne e osso como todos. Cada um leva (o momento) de um jeito diferente. Sou muito tranquilo, muito seguro sobre o que controlo. Me dá tranquilidade o trabalho bem feito, tenho profissionais ao meu lado que me dão calma, tranquilidade e toda a informação necessária. Estou emocionado, claro. Mas dominar a situação te dá poder e segurança."

Católico praticante, De la Fuente chegou a contar durante o Mundial que reza todos os dias e agradece a Deus por ter a chance de viver mais um dia. Mas disse que nunca pede ajuda por resultados, pois "não seria justo com os rivais". Uma ética raramente vista no ambiente deste esporte.

Na festa da campeã Espanha em Madri, ontem, De la Fuente não soltou qualquer tipo de discurso inflamado. Apenas cantou uma música de Júlio Iglesias. Talvez seja o último romântico do futebol.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL