Planeta de lava com sinais de atmosfera pode revelar passado da Terra
Astrônomos identificaram evidências de atmosfera em um planeta de lava a 154 anos-luz da Terra.
O que aconteceu
Chamado HD 3167 b, o planeta rochoso fica na constelação de Peixes e completa uma volta ao redor de sua estrela em aproximadamente um dia terrestre. Segundo a Universidade de Chicago, ele é o mundo de lava mais frio encontrado até então com evidências de atmosfera, embora continue quente demais para abrigar vida.
O trabalho, liderado pelo pesquisador Brandon Park Coy, foi publicado na revista científica The Astrophysical Journal Letters. Os resultados foram apresentados em um comunicado da universidade divulgado no fim de agosto.
A proximidade de um planeta com sua estrela representa um obstáculo à manutenção de uma atmosfera. Nessas condições, ele recebe intensa radiação e fica exposto ao vento estelar, fatores que dificultam a permanência dos gases ao seu redor. Ainda assim, pesquisadores têm encontrado sinais de atmosfera em mundos de lava, planetas rochosos cuja face iluminada pela estrela pode ser quente o suficiente para manter rochas derretidas.
O que é tão surpreendente é que, quanto mais perto um planeta rochoso orbita sua estrela, mais difícil deveria ser para ele ter uma atmosfera, porque é bombardeado pelo vento estelar e recebe mais fótons de alta energia da estrela. Mas parece que muitos desses mundos de lava têm Edwin Kite, professor da Universidade de Chicago e coautor do estudo, em comunicado
HD 3167 b amplia essa investigação por apresentar condições relativamente menos quentes do que as dos outros mundos de lava com evidências de atmosfera citados pela universidade. A descoberta pode ajudar a esclarecer como a temperatura influencia a presença dessas camadas gasosas.
James Webb achou pistas na temperatura
Para investigar o planeta, a equipe utilizou observações no infravermelho médio feitas pelo Telescópio Espacial James Webb. Os cientistas mediram a redução da luz recebida quando HD 3167 b passou atrás de sua estrela, fenômeno conhecido como eclipse secundário.
Essa diferença permite estimar quanto da radiação vinha do próprio planeta e, a partir disso, avaliar sua temperatura.
O lado iluminado de HD 3167 b mostrou-se menos quente do que o máximo esperado para uma superfície rochosa sem atmosfera. Segundo os pesquisadores, essa diferença fornece fortes evidências de uma camada gasosa ao redor do planeta.
Uma atmosfera poderia transportar calor da face iluminada para o lado noturno. Nuvens também poderiam refletir parte da luz da estrela, reduzindo o aquecimento. As observações, porém, ainda não permitem determinar a composição dessa possível atmosfera.
Um cenário que lembra a Terra primitiva
O interesse pelo planeta vai além de entender um ambiente distante. Mundos de lava podem ajudar os cientistas a investigar uma etapa inicial da história da Terra, quando sua superfície passou por uma fase de oceano de magma.
Na formação dos planetas rochosos, as colisões entre os corpos que deram origem a eles liberaram grandes quantidades de energia. Esse aquecimento produziu condições muito diferentes das observadas hoje na Terra. "Esse resultado nos dá uma janela para estudar como podem ter sido as condições nos primeiros milhões de anos da Terra", explicou Coy, no comunicado da universidade.
A comparação, portanto, envolve o passado do nosso planeta. HD 3167 b permanece um ambiente inóspito, apesar dos indícios de atmosfera.
O estudo é o primeiro resultado de um programa que examina dez mundos de lava, liderado por Megan Weiner Mansfield, atualmente na Universidade de Maryland. A equipe busca descobrir se existe uma temperatura decisiva para a presença de atmosferas nesses planetas.
Coy também analisa dados do satélite TESS, que observa luz visível. Essas informações podem ajudar a avaliar quanto da luz estelar é refletida pelo planeta e oferecer novas pistas sobre possíveis nuvens.
Por enquanto, a composição da atmosfera de HD 3167 b continua em aberto. Novas observações serão necessárias para investigar quais gases podem envolvê-lo e como essa camada interage com sua superfície.