Quem foram deputados mais eficientes ao usar verbas de campanha
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09/10/2026 às 11:56
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A eleição para a Câmara dos Deputados em 2026 mostrou que alguns candidatos conseguiram transformar campanhas relativamente enxutas em votações expressivas. As prestações parciais de contas das eleições revelam também que, do lado oposto, alguns candidatos precisaram investir grandes montantes em suas campanhas e não receberam volume de votos tão expressivo.
O levantamento realizado pela Gazeta do Povo, com base nos dados disponíveis até o dia 7 de outubro no portal de Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), considera somente os candidatos eleitos pelo indicador de custo por voto, calculado pela divisão das despesas já declaradas pelo total de votos recebidos.
Esse indicador não significa que os candidatos tenham comprado votos, é uma relação entre gastos e desempenho. Como os dados são parciais, os números ainda podem sofrer alterações até a apresentação das prestações finais de contas, cujo prazo se estende até o dia 4 de novembro.
O caso mais extremo de "custo-benefício" é o do capixaba Lucas Polese (PL-ES). Ele foi eleito com 419.735 votos, a partir de uma campanha que declarou R$ 98,8 mil em despesas. Ele foi o candidato com o segundo menor gasto absoluto e também o menor custo por voto: R$ 0,24.
O segundo lugar ficou com Nikolas Ferreira (PL-MG), que registrou custo de R$ 0,40 por eleitor. A campanha do mineiro, mais votado do país em duas eleições consecutivas, gastou R$ 1,2 milhão e recebeu mais de 3,1 milhões de votos.
Custo por voto ficou abaixo de R$ 10 entre os 20 mais votados do país
Uma das tendências mais marcantes observadas nos dados das prestações parciais de contas é que a maior parte dos candidatos mais votados do país registrou custo por voto relativamente baixo. Diversos campeões de votos alcançaram desempenho expressivo com despesas que ficaram abaixo de R$ 10 por eleitor conquistado.
Os dados sugerem que gastar mais não significa receber mais votos. Em vários casos, candidatos que já possuíam elevada exposição pública, forte presença nas redes sociais ou mandato em exercício conseguiram transformar notoriedade em votação sem a necessidade de ampliar os gastos na mesma proporção.
A análise também indica uma espécie de "economia de escala eleitoral". Quando uma candidatura alcança centenas de milhares ou milhões de votos, os custos de comunicação acabam diluídos em um universo muito maior de eleitores. Assim, mesmo campanhas que movimentaram milhões de reais apresentaram custo unitário reduzido quando comparadas ao total de votos recebidos.
| Deputado(a) | Partido | UF | Votos | Total de despesas | Custo por voto |
| Nikolas Ferreira | PL | MG | 3.119.318 | R$ 1.237.095,31 | R$ 0,40 |
| Lucas Pavanato | PL | SP | 3.038.438 | R$ 2.702.190,92 | R$ 0,89 |
| Erika Hilton | PSOL | SP | 1.596.472 | R$ 1.629.329,98 | R$ 1,02 |
| André Fernandes | PL | CE | 684.372 | R$ 1.524.596,79 | R$ 2,23 |
| Sâmia Bomfim | PSOL | SP | 583.107 | R$ 1.975.821,40 | R$ 3,39 |
| Julia Zanatta | PL | SC | 560.223 | R$ 1.591.782,37 | R$ 2,84 |
| Ana Elisa | PT | MG | 524.219 | R$ 629.211,33 | R$ 1,20 |
| Kim Kataguiri | Missão | SP | 520.071 | R$ 469.244,42 | R$ 0,90 |
| Tabata Amaral | PSB | SP | 476.383 | R$ 2.681.115,34 | R$ 5,63 |
| Jeffrey Chiquini | Novo | PR | 425.388 | R$ 886.509,18 | R$ 2,08 |
| Lucas Polese | PL | ES | 419.735 | R$ 98.841,10 | R$ 0,24 |
| Delegado Caveira | PL | PA | 414.927 | R$ 922.225,15 | R$ 2,22 |
| Maurício Marcon | PL | RS | 379.834 | R$ 362.131,49 | R$ 0,95 |
| Renato Bolsonaro | PL | SP | 379.312 | R$ 2.455.912,95 | R$ 6,47 |
| Sargento Nantes | PP | SP | 333.401 | R$ 1.997.383,69 | R$ 5,99 |
| Jader Filho | MDB | PA | 326.617 | R$ 259.064,86 | R$ 0,79 |
| Delegado Palumbo | Podemos | SP | 303.271 | R$ 521.063,16 | R$ 1,72 |
| Fernanda Melchionna | PSOL | RS | 280.262 | R$ 1.956.095,07 | R$ 6,98 |
| Guilherme Cortez | PSOL | SP | 275.450 | R$ 1.829.623,28 | R$ 6,64 |
| Dra. Alessandra Haber | Podemos | PA | 272.856 | R$ 1.877.817,57 | R$ 6,88 |
Os mais caros
No extremo oposto, candidaturas em estados menores ou com votação mais limitada frequentemente registraram custos por voto muito superiores. Em alguns casos, especialmente em estados do Norte, o indicador ultrapassou R$ 50 por voto e chegou a superar R$ 100 por eleitor, mostrando que campanhas competitivas em eleitorados reduzidos nem sempre conseguem transformar investimentos elevados em grandes volumes de votos.
Zé Haroldo Cathedral (União-RR) apresentou custo de R$ 160,29 por voto, enquanto Defensor Stélio Dener (União-RR) registrou R$ 157,70 por eleitor. Também aparecem no topo da lista Dr. Fábio Rueda (União-AC), com R$ 83,39, e Delegada Ione (PL-MG), com R$ 78,99 por voto.
O analista político e diretor de operações do Ranking dos Políticos Luan Sperandio ressalta que o próprio modelo eleitoral brasileiro contribui para encarecer as campanhas. Como os candidatos a deputado federal disputam votos em todo o estado, eles precisam percorrer grandes distâncias, participar de eventos em diferentes municípios e manter equipes distribuídas pelo território.
“São deslocamentos constantes, eventos em dezenas ou centenas de cidades e a necessidade de manter uma equipe espalhada por todas as regiões fazendo campanha para você. Tudo isso tem alto custo”, afirma.
Na avaliação do analista, um eventual sistema de voto distrital reduziria parte dessa despesa porque cada candidato disputaria uma área territorial menor. “O candidato faria campanha num distrito, conheceria aquele eleitorado de perto, e não precisaria de uma estrutura em âmbito estadual para ser competitivo”, explica.
Voto de opinião reduz custo da campanha
Para o analista político Luan Sperandio, existem três caminhos principais para um candidato construir uma candidatura competitiva à Câmara: representar uma base regional, um segmento econômico ou entidade organizada, ou uma causa e um conjunto de ideias — o chamado voto de opinião.
A terceira modalidade tende a exigir menos recursos, segundo Sperandio. “Quando olhamos o custo por voto, os votos mais baratos costumam estar justamente nesse perfil de candidatura”, afirma. Ele cita como exemplos Nikolas Ferreira, Kim Kataguiri e Erika Hilton, que aparecem entre os eleitos com menor custo por voto no levantamento.
A explicação está, em parte, na capacidade de comunicação direta com o eleitor. Candidatos que conseguem representar uma causa ou uma agenda política podem depender menos de estruturas físicas de campanha e, em alguns casos, mobilizar voluntários para ampliar sua presença eleitoral. “Não é uma exclusividade da direita bolsonarista. É um fenômeno do tipo de candidatura”, diz o analista.
Dados ainda são provisórios
As prestações analisadas são parciais e ainda podem receber ajustes relacionados a despesas contraídas antes do encerramento da campanha.
Além disso, valores elevados não indicam, necessariamente, irregularidades. O advogado especialista em Direito Eleitoral, Peterson Vivan observa que honorários advocatícios e serviços contábeis entram na prestação de contas, mas não estão submetidos aos limites de gastos eleitorais.
Outro aspecto importante diz respeito às sobras de campanha. Recursos não utilizados do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) devem ser devolvidos à União por meio de Guia de Recolhimento da União (GRU). Já sobras provenientes de Fundo Partidário ou de doações privadas permanecem na estrutura partidária e não podem retornar ao candidato ou ao doador.
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