Vorcaro relata pagamentos por filme sobre Lula; PF diz não ter provas

9 de Out de 2026 - 14:45
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Vorcaro relata pagamentos por filme sobre Lula; PF diz não ter provas

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do liquidado Banco Master, relata em áudios e documentos revelados pela revista Veja que teria negociado com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto pagamentos visando acesso aos fundos de pensão de servidores federais.

A Polícia Federal (PF) informou que as informações da matéria não estão nos autos do caso master e comunicou que recebeu uma notícia-crime contra a Veja após a divulgação. Já o PT acusa o veículo de tentar "tumultuar o processo eleitoral" e afirma que há acordos em trâmite para tentar soltar Vorcaro (leia as notas na íntegra ao final).

Em documento obtido pela publicação, Vorcaro descreve um pagamento de aproximadamente R$ 30 milhões "por fora, ou seja, em espécie", para cobrir as despesas do documentário Lula, de 2024, produção internacional com direção de Oliver Stone.

Nos áudios revelados, Vorcaro fala a um interlocutor não identificado sobre dois repasses relacionados aos atuais postulantes ao Palácio do Planalto. O ex-banqueiro fala do filme Dark Horse, que contou com o auxílio de produção de Flávio Bolsonaro (PL) e do documentário sobre o presidente. Na conversa, ele compara a legalidade dos dois repasses.

"Tem o negócio do filme. O filme do Lula eu coloquei acho que até mais, eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, né? Do Lula foi errado. O do Flávio não foi porque pediu patrocínio", diz o ex-dono do Banco Master. A Gazeta do Povo comparou a voz do áudio com um depoimento de Vorcaro e identificou compatibilidade.

Fontes a par do caso ainda revelaram que o áudio não consta nos autos do caso Master, mas que há elementos sobre relações entre o ex-banqueiro e governistas.

O Dark Horse entrou na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) sob a suspeita de que emendas parlamentares seriam utilizadas em sua produção. O relator do caso é o ministro Flávio Dino. Em meio às revelações do caso Master, surgiu um áudio de Flávio Bolsonaro cobrando o patrocínio do ex-banqueiro. Em resposta, o senador afirmou que se tratou de um "financiamento privado a um filme igualmente privado" e negou qualquer irregularidade.

Documento detalha propina negociada com ex-tesoureiro do PT

Antes disso, o Banqueiro menciona três personagens: o Banco do Brasil, o Instituto Lula e um de seus diretores, Paulo Okamotto. Esta seria outra frente, e o banqueiro se comprometeu a apresentar provas assim que uma colaboração premiada fosse homologada.

O acordo seria pagar propina de 10% sobre a arrecadação do banco na operação pretendida: o acesso a recursos administrados por entidades ligadas a fundos de previdência.

Depois do credenciamento, Vorcaro afirma que a negociação com o grupo político previa o pagamento de 10% do que o banco arrecadasse nas operações. A Veja atribui a Vaccari a cobrança dessa parcela, mas não há comprovação nos autos.

A Previ, citada nas tratativas, é a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil. Por meio de nota, afirmou que não possui qualquer exposição ao Banco Master, que o banco nunca teve habilitação e que observa "rigorosos e reconhecidos critérios técnicos". Já a Caixa Asset é a gestora de fundos do conglomerado Caixa.

O esquema teria passado pelas mãos do empresário Augusto Lima, sócio de Vorcaro, em uma reunião com o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. A costura do encontro teria contado com a ajuda de "caciques do PT na Bahia". O documento, porém, cita que "houve um desarranjo" que frustrou o acordo.

O relato foi levado à Procuradoria-Geral da República (PGR) com o intuito de obter os benefícios da delação. O órgão, porém, não seguiu com o caso alegando falta de provas, mesmo com a indicação de Vorcaro de que poderia apresentar mensaegns, registros de acesso, lugares e rotas dos responsáveis pela entrega da propina.

O que dizem os citados

Augusto Lima

Augusto Lima enviou uma nota à Veja:

"A defesa de Augusto Lima rechaça e repudia veementemente as informações publicadas, baseadas em relatos mentirosos, falsos e delirantes, supostamente apresentados em uma proposta de delação recusada pelas autoridades

Tais informações, que deveriam ser sigilosas, não passam de uma narrativa falsa, fictícia e unilateral, sem valor probatório, utilizada apenas para lançar suspeitas sobre terceiros.

Causa indignação a divulgação de trechos de uma suposta proposta de delação, que não podem sequer serem levados em consideração uma vez que já foram rejeitados.

O vazamento de supostos trechos de uma colaboração reiteradamente recusada pelas autoridades constitui proceder criminoso, cuja conduta, pela sua gravidade, exige investigação rigorosa.

A defesa reafirma que não há fundamento para atribuir a Augusto Lima qualquer ato ilícito e confia que a investigação comprovará sua inocência."

PGR

A PGR também enviou nota:

"A Procuradoria-Geral da República (PGR) esclarece que as tratativas de colaboração premiada envolvendo o senhor Daniel Vorcaro foram sempre mediadas por advogados contratados pelo investigado, como devido. Todas as propostas formalizadas pela Defesa foram recebidas na forma como livremente elaboradas por ela, sem juízo nem recusas prévias. Não houve interlocução direta do senhor Vorcaro com qualquer representante da PGR.

Não houve depoimento oral do Sr. Vorcaro, justamente por conta da rejeição da proposta, cujos motivos foram expostos à defesa.

A Procuradoria-Geral da República respeita o sigilo que se impõe, por lei, ao procedimento de colaboração premiada havido."

Campanha de Lula

A campanha de Lula afirmou que não aceitará "que acusações sem provas e vazamentos seletivos sejam usados como arma eleitoral". Prometeu ainda tomar as "medidas judiciais cabíveis serão tomadas contra as calúnias e eventuais irregularidades na divulgação dessas informações".

"O suposto depoimento de Daniel Vorcaro foi construído sobre acusações sem comprovação, com o evidente propósito de tumultuar o processo eleitoral", completou.

Polícia Federal

A PF emitiu uma nota em que alegou ter recebido uma notícia-crime contra a revista Veja:

"A Polícia Federal esclarece, em relação à reportagem intitulada “Vorcaro conta que liberou dinheiro para filme sobre Lula por negócios no governo”, publicada pela revista Veja, nesta sexta-feira (9/10), que Daniel Vorcaro não prestou depoimento com o teor relatado na matéria, tampouco entregou à instituição anexos, documentos ou informações com o conteúdo ali descrito.

As propostas de colaboração premiada que foram apresentadas à PF pela defesa do investigado não foram acolhidas em razão do não atendimento aos requisitos legais, conforme decisão fundamentada de conhecimento da defesa.

Por fim, a Polícia Federal informa que recebeu, nesta sexta-feira (9/10), notícia-crime com pedido de providências urgentes para apuração de fatos relacionados à publicação mencionada. O expediente foi encaminhado à área técnica para adoção das providências de polícia judiciária."

PT

O PT divulgou uma nota em seu site:

"Flávio Bolsonaro cumpre a promessa de não abandonar o banqueiro-irmão e aciona a Revista Veja para tumultuar o processo eleitoral. O fato sinaliza que a eleição dele envolve acordos para a soltura do líder do esquema.

Em conluio com os interesses de Flávio Bolsonaro, a Revista Veja, mais uma vez, menospreza a verdade dos fatos. A única candidatura que teve relações financeiras – relação pessoal, participação em festas íntimas e troca de mensagens até mesmo depois do escândalo do Banco Master -, é a de Flávio Bolsonaro.

Ele é o único candidato à Presidência da República flagrado com provas e áudios pedindo R$ 164 milhões a Daniel Vorcaro. Querer confundir as pessoas, às vésperas do processo eleitoral, não é apenas um ataque à democracia. Trata-se de uma grande farsa para manter o esquema criminoso entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

Não há nenhum registro na Polícia Federal dos conteúdos publicados agora pela revista Veja, nem qualquer delação que tenha sido aceita pelo Ministério Público. Portanto, trata-se de uma farsa.

A verdade é que, durante o mandato do pai de Flávio Bolsonaro, Vorcaro virou banqueiro. No Governo Lula, virou prisioneiro."

A Gazeta do Povo entrou em contato com a defesa de Daniel Vorcaro, com o Instituto Lula, com o Planalto e com Paulo Okamotto, com a defesa de João Vaccari Neto, com a defesa de Augusto Lima, com o PT na Bahia e com o Banco do Brasil. O espaço segue aberto para manifestação.