O segredo da cidade que reduziu o Bolsa Família em 40%

9 de Mai de 2026 - 19:45
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O segredo da cidade que reduziu o Bolsa Família em 40%

Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, reduziu o número de beneficiários do Bolsa Família em 40% em quase um ano e meio. O resultado questiona o modelo de expansão indefinida de assistência que caracteriza a atual gestão federal.

O município adotou uma estratégia simples que contrasta com a política do governo Lula, que busca ampliar benefícios assistenciais. A cidade conectou pessoas que recebem o Bolsa Família às empresas locais que precisam de mão de obra, transformando transferência de renda em acesso ao emprego.

Os números comprovam o êxito. Em novembro de 2024, Bento Gonçalves tinha 2.115 famílias no Bolsa Família. Em abril de 2026, esse número caiu para 1.266 — redução de 40%. Somente em 2025, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, foram criados 1.104 empregos com carteira assinada na cidade, 2,5% acima do registrado em 2024.

Estratégias simples, resultados complexos

Bento Gonçalves implementou uma abordagem que reduziu a dependência de benefícios. De acordo com o ex-prefeito Diogo Siqueira (PL), que deixou o cargo em abril para concorrer nas eleições, a prefeitura vai até a residência dos cadastrados no programa e verifica a situação real de cada um. O alvo principal: homens e mulheres sem cônjuge ou filhos e que têm condições de trabalhar.

Após a triagem — que afasta beneficiários que realmente precisam do auxílio, como mães solteiras com múltiplos dependentes —, os agentes da prefeitura ajudam as pessoas a preparar currículos. O próximo passo: encontram um trabalho próximo à residência, reduzindo custos de transporte e facilitando o acesso ao emprego.

A cidade aloca mão de obra em diversos setores: indústria do vinho, agricultura familiar da uva, móveis, turismo e metalmecânica. Com 128 mil habitantes, Bento Gonçalves possui uma base econômica diversificada — exatamente o que permite a reintegração ao mercado de trabalho. "A melhor assistência social é o trabalho", afirma Siqueira.

Com a redução da folha de benefícios e o crescimento de trabalhadores formais, Bento Gonçalves aumentou a arrecadação de impostos — ICMS e ISS. Não é apenas ganho orçamentário: é sinal de que a economia local se ativou, gerando receita tributária a partir da criatividade e do trabalho, não da dependência estatal. Essa visão é resumida pelo secretário de Esportes e Desenvolvimento Social, Eduardo Virissimo: "Quanto antes a família voltar a ter sua autonomia financeira, maior será o sucesso da própria política pública".

O diagnóstico que falta ao debate público

Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), realizado pelo pesquisador Daniel Duque e divulgado em agosto de 2025, revela um padrão preocupante: para cada duas famílias que recebem o Bolsa Família, uma sai da força de trabalho. Desde a pandemia, o programa cresceu expressivamente. O valor médio mais que triplicou, e o número de famílias atendidas aumentou fortemente.

O desequilíbrio é ainda mais grave em nível estadual. Nove estados possuem mais beneficiários do Bolsa Família do que pessoas empregadas formalmente (CLT). Em fevereiro de 2026, havia 38,6 beneficiários para cada 100 pessoas com carteira assinada — um indicador que revela a profundidade do problema: em muitas regiões, a dependência de transferências de renda supera a capacidade de geração de empregos formais.

A dependência é o que Claudio Shikida, professor de economia do Ibmec, chama de "esmolas institucionalizadas". Segundo ele, o programa não foi concebido para ser uma transferência de renda perpétua para sucessivas gerações de uma mesma família.

"É claro que os interesses dos políticos que ganham votos com a dependência de alguns eleitores em relação ao Bolsa Família são uma variável que não pode ser ignorada", avalia Shikida. Essa dinâmica — expansão de benefícios gera apoio político imediato — é um obstáculo estrutural à emancipação econômica.

O Estado que compete com as empresas

Ricardo Gomes, CEO do Instituto Millenium, um think tank liberal, aponta a questão-chave: "A questão não é falta de capacidade técnica, mas de vontade política". O risco de perder apoio imediato costuma ser maior que o ganho político de longo prazo obtido com incentivos à emancipação. "Isso acaba criando um certo imobilismo político, em que se preserva o modelo atual mesmo com suas distorções", explica.

Esses benefícios fazem o Estado concorrer com as empresas no mercado de trabalho. Especialmente em regiões pobres, o valor combinado dos benefícios pode se aproximar da renda que obteriam em empregos formais de baixa qualificação. "Isso altera os incentivos e dificulta a formalização do trabalho", comenta Gomes.

As famílias que desejam aumentar renda acabam buscando trabalhos informais enquanto mantêm os benefícios. Um levantamento coletado em abril de 2026 pelo DataBrasil ilustra o cenário: cerca de 895 mil famílias encerraram 2025 recebendo mais de um salário mínimo apenas com assistências sociais. Nesses casos, os programas assistenciais desestimulam a transição para o mercado formal. Gera-se uma situação em que é mais fácil encontrar trabalhadores para atividades pontuais que para vínculos formais contínuos.

Caminhos alternativos, mesma direção

Shikida aponta outras estratégias complementares para a emancipação. A oferta obrigatória de cursos técnicos para beneficiários do Bolsa Família, por exemplo, seria um caminho concreto. Segundo o economista, a melhora no ambiente de negócios é mais eficaz para as famílias que a expansão indefinida de benefícios. Para isso, porém, é necessário reverter a cultura da dependência que se consolidou nas últimas décadas.

"Romper esse ciclo passa não só por liderança, mas por uma mudança inteligente nas regras do jogo", conclui.