Como era o esquema para inflar fama e músicas que entrou na mira da Justiça
A Justiça de São Paulo condenou um homem que tinha uma página que vendia engajamento artificial tanto em redes sociais como em serviços de streaming de música. A medida é considerada um marco por considerar que curtidas e plays falsos "enganam" o consumidor. Entenda como era o esquema.
O que aconteceu
Página em questão se chama Boom de Seguidores. Eram milhares de perfis falsos usados em redes sociais e para fake streaming de músicas. Ação cita que dono do site conseguia direcionar para perfis especificados pelos contratantes a ação de "fazendas de cliques". Trata-se de aparelhos (celulares ou computadores) controlados por robôs e programas de computador para realizar tarefas repetitivas, simulando o comportamento humano.
Fazenda de engajamento falso está localizada fora do país. Segundo fontes relacionadas à investigação, o réu atuava "alugando" a capacidade de fazendas de cliques em países estrangeiros para criar esse engajamento artificial.
Justiça pediu o bloqueio definitivo da página em território nacional. O processo, que tramita desde agosto de 2023, teve idas e vindas, e o site foi derrubado. Em março deste ano, juiz do caso condenou o dono do site, exigiu pagamento de indenização, no valor de R$ 21.600, e ainda o proibiu de vender serviços semelhantes. Réu ainda pode recorrer.
Acusação principal é a comercialização de engajamento artificial e fake streaming. A empresa vendia curtidas, visualizações, comentários e compartilhamentos em redes sociais (como Instagram e TikTok) e execução em plataformas de streaming, burlando "o funcionamento orgânico dos algoritmos", segundo a ação. A acusação foi feita inicialmente pela APDIF (Associação Protetora dos Direitos Intelectuais Fonográficos), e o autor da ação é o Cybergaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate aos Crimes Cibernéticos), do MP-SP (Ministério Público do Estado de São Paulo), no âmbito da Operação Authentica, que combate fraude digital redes sociais e plataformas de streaming.
Decisão é importante, pois considerou que qualquer atividade que usa meio artificial para melhorar a popularidade de um serviço ou de um produto é uma fraude contra o consumidor. Este é um precedente importante, pois nos ajuda em outras ações do tipo e a manter o mercado fonográfico fiel para que todos os participantes da cadeia usufruam dos benefícios.
Paulo Rosa, presidente da Pro-Música (entidade que representa as principais gravadoras e produtores fonográficos do Brasil)
Enquadramento que considera engajamento falso uma fraude contra o consumidor é importante para a indústria fonográfica. Como não existe uma legislação específica que pune o "impulsionamento inautêntico", o Código de Defesa do Consumidor acaba servindo para justificar a repressão a esse tipo de ação, na medida que o engajamento falso engana o público.
Streaming representa 87% do faturamento fonográfico no Brasil. Essas foram as cifras divulgadas em 2025 referentes a 2024, segundo relatório da Pro-Música. Por essa razão, argumenta Rosa, "queremos manter este ambiente o mais fiel possível para que todos os participantes da cadeia musical usufruam".
O que o réu alegou no processo
No processo, defesa do réu afirmou que ele usava perfis autênticos e reais. Eles diziam que usavam "serviços de marketing digital para aumentar a visibilidade de clientes" com "pessoas genuinamente interessadas nos conteúdos". Além disso, é informado que as próprias plataformas "removem perfis inautênticos automaticamente".
Defesa recorre e afirma discordar do juízo. Advogado do responsável pela página diz que tem tido uma "discussão técnica que vem sendo conduzida no âmbito processual" e que confia no "adequado reexame da controvérsia em segunda instância".
Não é o primeiro caso no Brasil
Reportagem de UOL Tab mostrou submundo do "sucesso falso" em plataformas de streaming. Uma operação do CyberGaeco, do Ministério Público de Goiás, encontrou , que conseguiam simular até 2.520 "fãs" dando play em um arquivo, por meio de virtualização simulando até 20 computadores dentro de cada máquina e rodando seis navegadores. Até então essa foi a primeira e única "fazenda" localizada em território brasileiro para gerar plays, segundo fontes do mercado.
Responsável foi a primeira pessoa a responder por fraude em streaming musical no país. Ronaldo Torres de Souza confessou que coordenava rede de perfis falsos para simular o play em músicas. Na ocasião, foram apreendidos R$ 2,3 milhões em carros, criptomoedas e outros bens.