Quando “brincar de Deus” é bom e até desejável

9 de Mai de 2026 - 13:45
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Quando “brincar de Deus” é bom e até desejável

“Sereis como deuses”, quem já leu o Gênesis sabe, foi a primeira tentação, com a qual o demônio conseguiu levar Adão e Eva ao pecado original. É óbvio, portanto, que a ambição de ser como Deus não é coisa nada boa. Mas... e se de alguma forma fosse não só possível, mas até desejável, que o ser humano pudesse “brincar de Deus” em alguns aspectos? É essa provocação nada trivial que Mário Antônio Sanches faz no seu livro Brincando de Deus – Bioética e as marcas sociais da . O subtítulo entrega tudo: a genética e o enorme conhecimento que adquirimos sobre o genoma humano são as ferramentas usadas nesse processo, e logo na introdução Sanches já diz que “o ‘brincar de Deus’ pode ser visto como a grande missão humana, desde que seja feita na perspectiva dos propósitos divinos” – o destaque é meu, e ele faz toda a diferença.

Brincando de Deus é de 2007, ou seja, está para completar 20 anos. Pode estar desatualizado em seus aspectos mais factuais do ponto de vista científico – por exemplo, o uso do CRISPR como ferramenta de engenharia genética é posterior ao lançamento do livro –, mas continua fresco nas reflexões bioéticas e teológicas que propõe. Sanches é professor na PUCPR e, arrisco dizer, é o grande nome da Bioética no Paraná (e um dos principais no Brasil); quando eu era repórter e fazia matérias sobre o assunto na Gazeta, fazia questão de consultá-lo, e por pouco não acabei entrando no mestrado em Bioética que ele montou na universidade.

Sanches narra o desenvolvimento da genética, desde as ervilhas de Mendel até o Projeto Genoma Humano, com todas as expectativas que ele gerou – algumas se realizaram, outras não, como a ambição de descobrir “o gene que controla isso ou aquilo”, que John Cleese até satirizou em um . O autor mostra como esse conhecimento ajudou a moldar o que sabemos sobre a evolução humana, e lembra como dois erros filosóficos grandes e comuns também se aproveitaram da genética para se espalhar: o reducionismo (“não somos mais do que os nossos genes”) e o determinismo (“somos única e exclusivamente produto do que está em nosso código genético”). Sanches defende, com muita razão, que é preciso não apenas rebater esses dois erros – ele chama o reducionismo de “cárcere para aprisionamento da humanidade” (p. 118) –, mas também deixar claro que eles não são ciência, mas uma posição ética ou filosófica que parte de um determinado conhecimento científico. Mais ou menos como usar a Teoria da Evolução para dizer que não existe propósito na natureza, ou que Deus não existe.

E há motivos de sobra para combater o reducionismo e o determinismo – especialmente este último está na origem daquele que talvez tenha sido o uso mais perverso do conhecimento sobre a genética: a eugenia. Sanches dedica o maior capítulo do livro à história da eugenia, relatando seus primórdios na Inglaterra, sua expansão nos Estados Unidos, sua aplicação mais cruel na Alemanha nazista, e a difusão das ideias eugenistas também no Brasil – o leitor da Gazeta também encontraria muita informação em colunas como as de e . Sanches ainda merece muito crédito por denunciar que a eugenia continua firme e forte na atualidade, especialmente por meio da seleção (e consequente descarte) de embriões humanos e, principalmente, pelo eugênico – dez anos depois da publicação de Brincando de Deus, ficaríamos sabendo que a Islândia tinha : não porque seus médicos tivessem achado alguma cura, mas porque quase todas as crianças diagnosticadas ainda no ventre das mães haviam sido assassinadas.

É no fim do capítulo sobre eugenia que começa a provocação boa. Quando falamos em terapias gênicas ou preditiva, não estamos também fazendo eugenia? Sanches argumenta que não, e pede que “o esforço de identificar doenças e promover tratamento não seja confundido com as propostas eugênicas condenáveis, e nem tampouco as posturas eugênicas indefensáveis possam se esconder atrás da louvável promoção de saúde humana” (p. 98). A eugenia, diz ele, pressupõe ideias sobre superioridade, que o uso terapêutico da genética não endossa. Pelo contrário: quando tomamos consciência do que significa ser humano – e isso não será possível sem a ética, a filosofia e a teologia – e do nosso pool genético, haveremos de concluir que nosso objetivo não é estimular a diferenciação individualista, mas a solidariedade dentro da nossa espécie.

Essa solidariedade justifica que possamos “brincar de Deus”, no sentido de “interferir na criação e moldá-la segundo seus [dos cientistas] propósitos”. A chave, claro, está nos propósitos. É certo que, ao nos fazer à Sua imagem e semelhança, Deus partilhou seu poder conosco. Deu-nos inteligência para entender e transformar o mundo; em resumo, Ele nos fez cocriadores. Com os avanços tecnológicos, “Deus está passando cada vez mais a responsabilidade para os humanos, no sentido de envolvê-los cada vez mais em seu plano” (p. 146), diz Sanches. Quando usamos a genética para reduzir o sofrimento e proporcionar saúde a toda a humanidade, estamos cumprindo os “propósitos divinos” citados na introdução do livro.

Sanches propõe, portanto, uma abordagem positiva em relação à ciência e a esse “brincar de Deus” no sentido de “trabalhar a natureza”, mas não é ingênuo. Somos seres decaídos, e por isso as tentações são muitas. A primeira delas é repetir o pecado original: primeiro, achar que conquistamos o papel de cocriadores, em vez de ter a humildade de reconhecer que ele nos foi dado; depois, esquecer o prefixo “co” e tirar Deus do jogo – “o problema não é quando os cientistas ‘brincam de Deus’, o problema é quando eles ‘brincam’ sem Deus”, diz o autor (p. 144). Isso leva à mentalidade segundo a qual tudo o que é tecnicamente possível é também moralmente permissível (ou até obrigatório), e disso vem todo tipo de barbaridade que viola a inviabilidade da vida humana, um dos limites intransponíveis para quem deseja “brincar de Deus” do jeito certo. Em um nível ainda mais prático, Sanches cita desafios que, quase duas décadas depois, ainda não foram resolvidos, como o da medicina preditiva e seu efeito sobre o mercado de trabalho e de saúde: um empregador pode recusar a contratação de alguém cujos testes genéticos apontem risco maior de desenvolver certas doenças? Um plano de saúde poderia cobrar mais dessas pessoas? Em resumo, como conseguir informação sem discriminação?

Os testes genéticos, aliás, são o pano de fundo do único trecho do livro que eu achei extremamente problemático, no fim do capítulo sobre eugenia. Sanches afirma que “reproduzir é reconhecidamente um direito de todos os humanos. Esse direito corresponde ao dever de reproduzir da melhor maneira possível. Uma conjugalidade sadia e responsável procurará gerar filhos saudáveis. Se um casal tem conhecimento, por meio da genética, ou outro meio, que há uma grande possibilidade de gerar filhos doentes, esse casal tem a obrigação ética de evitar concebê-los” (p. 109-110, destaque meu). Isso é muito complicado (para ser bondoso). Primeiro, porque “grande possibilidade” não é certeza. Segundo, porque, embora de fato certas condições de origem genética tragam enorme sofrimento a seus portadores, o texto me trouxe à mente o conceito extremamente perturbador de . E terceiro, porque joga uma carga muito cruel sobre os pais de crianças portadoras de alguma condição de origem genética, que teriam sido irresponsáveis ou coisa do tipo. Não sei se nesses quase 20 anos desde o lançamento do livro Sanches retificou essa posição; espero que sim.

Minha ressalva não invalida o fato de que a premissa central do livro é boa. “Brincar de Deus”, no sentido de interferir na natureza e nos processos biológicos, é participar da missão divina desde que não percamos de vista que Deus é Deus que cria, Deus que cura e Deus que toma o lado do pobre. Ou, como define Sanches na frase final do livro, “‘brincar de Deus’, na reta perspectiva cristã, é cuidar da criação, com a intenção de aliviar a dor de cada um dos seres vivos, privilegiando os mais pobres e vulneráveis”. Sejamos vigilantes, sim, quanto aos potenciais usos nocivos da genética, mas não percamos de vista que a ciência bem feita, como já afirmaram vários papas, agrada a Deus e serve à humanidade.

Marcio Antonio Campos é editor de Opinião da Gazeta do Povo. Autor de "A razão diante do enigma da existência" e coautor de "Bíblia e natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé", mantém a coluna quinzenal Tubo de Ensaio, sobre a relação entre ciência e religião, e uma coluna semanal sobre temas relacionados à Igreja Católica. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

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