O Brasil de quem pode tudo e o Brasil de quem não pode nada

9 de Mai de 2026 - 15:00
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O Brasil de quem pode tudo e o Brasil de quem não pode nada

Adolescentes estupraram coletivamente duas crianças, de 7 e 10 anos; gravaram tudo e publicaram na internet. Só um deles é maior de idade; ele até foi preso, mas sabemos que não ficará muito tempo atrás das grades. Os outros irão para uma casa com assistentes sociais, e estarão nas ruas ainda antes do estuprador maior de idade. O Estado brasileiro não protege nossas crianças; temos uma taxa de homicídios maior que a de muitos países em guerra, e o número absoluto de homicídios é maior que o total da América do Norte e da Europa juntos.

Mas, em compensação, nosso Estado é muito eficaz para patrulhar e processar meio mundo por simples falas. , , Rafinha Bastos e outros humoristas são perseguidos, cancelados e processados. foi condenado a pagar R$ 40 mil por uma fala considerada “transfóbica”. Recentemente, a Polícia Federal insistiu para que um cidadão em que estava escrito apenas “ladrão”.

Nem todos são perseguidos por se manifestar, no entanto. Em 2022, jogaram uma pelada com uma réplica da cabeça de Jair Bolsonaro. Ministros do podem fazer comentários sobre homossexuais, e não serão investigados pela Procuradoria-Geral da República, que tudo. pode falar das “mulheres de grelo duro”, pode chamar Pelotas de “polo exportador de veados”, e que “essas coisas absurdas, que eles inventam todo dia, não têm critério (...) eles são capazes de dizer que você nasceu mulher e depois virou homem, eles são capazes de dizer que vaca voa, eles são capazes de dizer que cavalo tem chifre”.

O deputado e outros colegas por dois meses, por terem se sentado por cinco minutos na cadeira do presidente da Câmara. A turma que o suspendeu é a mesma que arquivou a CPMI do roubo dos velhinhos do INSS e que, em 2017, ocupou a mesa diretora do Senado impedindo a votação da reforma trabalhista.

Agora nos precisamos comunicar ao Leviatã todas as nossas estadias em hotéis, mas os dados da casta continuam sob sigilo de 100 anos.

Enquanto os juízes do estão brigando entre “azuis” e “vermelhos” e chegam a ganhar quase R$ 500 mil em quatro meses, nós, os comuns mortais, ficamos com um salário médio de R$ 3,7 mil, segundo dados do IBGE. Além disso, temos a Justiça comum para nós, enquanto eles têm o foro privilegiado.

A União bate recordes de arrecadação, mas os brasileiros batem recordes de endividamento e inadimplência. Um empresário é preso por ter feito um Pix de R$ 500; outros têm familiares contratados por dezenas de milhões de reais, e mesmo assim não veem conflito de interesse.

Cerca de , mas eles moram em uma capital construída no meio do nada, afastada do mundo real. Estatuto do Desarmamento para nós, carros blindados e escolta armada para eles.

Nós trafegamos por estradas e ruas de péssima qualidade, mas eles voam em jatinhos da FAB, às vezes até sozinhos. O mercado de aviação civil piorou, o número de voos e o de empresas aéreas diminuiu (alguém se lembra da Webjet e da Avianca?), o preço das passagens aumentou, mas eles andam em jatinhos de empresários do nosso capitalismo de compadrio.

Nós pagamos os carros mais caros do mundo, eles recebem . Nós nos viramos com o SUS, enquanto eles têm plano de saúde privado, para a família toda (e, no Senado, pode ser até vitalício). Uns têm dezenas de assessores que levam água e café, e afastam as cadeiras; têm auxílio isso, auxílio aquilo. Outros são espoliados para bancar tudo isso. Enquanto alguns comem paca, outros recebem fiscalização e tiros do Ibama.

Não estamos todos no mesmo barco. Alguns estão na terceira classe sem bote salva-vidas, e outros estão em iates de primeira classe. Não vivemos no mesmo país, vivemos em dois Brasis diferentes. Alguns vivem em um país no qual podem estuprar, matar, roubar impunemente, podem ser homofóbicos, racistas, podem destilar ódio e divulgar fake news. Outros vivem em um Brasil no qual não podem nem sequer criticar e opinar. Existe o Brasil do pode tudo, e o Brasil do não pode nada.

Antigamente, diziam que o Brasil era uma “Belíndia”, mas pelo jeito está mais para uma “Versaudita”: Versalhes dos privilégios para eles, Arábia Saudita das chibatadas para nós!

Conteúdo editado por:

Adriano Gianturco é professor, doutor em Ciência Política, coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC e autor dos livros “Mentiram para nós sobre o Brasil”, “A Ciência da Política” e “O empreendedorismo de Israel Kirzner”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

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