Ciência, ética e fé: papa Leão XIV escreveu um guia para o homem na era da IA

10 de Jul de 2026 - 07:00
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Ciência, ética e fé: papa Leão XIV escreveu um guia para o homem na era da IA

A encíclica Magnifica Humanitas (em português: Magnífica Humanidade), primeiro documento papal de Leão XIV, publicada em maio deste ano, deve ser lida não só por nós, católicos, mas por todos aqueles que realmente se interessam pela evolução do gênero humano.

O documento pontifício mostra, em primeiro lugar, que, para a Igreja, não há incompatibilidade entre a ciência e a religião. O texto do papa faz uma menção direta e profunda à encíclica Rerum Novarum ("Das Coisas Novas"), de Leão XIII, publicada em 1891, que debateu a grave situação dos trabalhadores gerada pela Revolução Industrial, propondo uma via que rejeitava tanto os excessos do capitalismo quanto as propostas do socialismo. Considero que o primeiro grande documento a apresentar soluções de convivência entre a liberdade econômica e a justiça social foi essa encíclica, e não os livros daqueles autores do século XIX que propugnavam a luta de classes.

As diversas encíclicas escritas a partir da Rerum Novarum revelam como a Igreja tem demonstrado compatibilidade e preocupação não apenas com o ser humano em sua relação com Deus, mas também com o papel de cada indivíduo na convivência com seus semelhantes.

Se, no século XIX, a máquina a vapor ameaçava subjugar a força física do operário, no alvorecer deste milênio os algoritmos e os sistemas autônomos colocam em xeque a própria singularidade do intelecto e do livre-arbítrio

G. K. Chesterton (1874–1936), escritor inglês e defensor da fé e da tradição católica, dizia que não vemos o plano de Deus porque estamos do lado de trás de uma tapeçaria, vendo apenas a cordoalha – o avesso da tapeçaria – que ali existe. Deus, porém, contempla o desenho que fez para cada um de nós: a beleza da tapeçaria que está à sua frente.

O que a encíclica Magnifica Humanitas procura mostrar sintetiza-se em três pontos: os desafios contemporâneos da sociedade; a plena compatibilidade entre a ciência e a religião; e, finalmente – sendo este o aspecto mais relevante –, os dilemas trazidos pela inteligência artificial.

O documento pondera tanto seus benefícios quanto os riscos de sua exploração negativa contra a humanidade, alertando especificamente para o perigo de a tecnologia anular o discernimento moral e desumanizar as relações de trabalho, assim como a Revolução Industrial ameaçou o operariado na época da Rerum Novarum. Mostra, enfim, que devemos aprender a utilizar essa poderosa ferramenta tecnológica para o bem comum, protegendo o gênero humano de seus efeitos nocivos.

Ao traçar esse paralelo histórico, o Sumo Pontífice nos recorda que o progresso técnico, isolado de uma sólida moldura ética, tende a converter o ser humano em mero insumo produtivo. Se, no século XIX, a máquina a vapor ameaçava subjugar a força física do operário, no alvorecer deste milênio os algoritmos e os sistemas autônomos colocam em xeque a própria singularidade do intelecto e do livre-arbítrio.

A mensagem de Leão XIV, portanto, não se reveste de um teor de oposição à tecnologia. Ao contrário, ela nos convoca a resgatar a primazia da pessoa humana sobre a técnica, assegurando que a inteligência artificial sirva como instrumento de emancipação e de justiça distributiva, e nunca como vetor de novas e mais profundas desigualdades sociais.

Desse modo, a leitura dessa encíclica transcende o debate estritamente teológico para firmar-se como um autêntico tratado de Direito Natural e de preservação da dignidade humana. Diante de uma realidade cada vez mais fragmentada pelo relativismo e pela velocidade das transformações digitais, o documento papal surge como um guia de lucidez e esperança.

Tenho a impressão de que essa é uma encíclica que todos devemos ler – crentes ou não, católicos ou adeptos de outras convicções –, pois ela apresenta os grandes problemas da atualidade, que dizem respeito a toda a humanidade, trazendo sugestões muito interessantes para uma convivência pacífica e harmoniosa, inclusive na busca de que o bem triunfe sobre o mal.

Vale, pois, a pena ler esse importante documento: a encíclica Magnifica Humanitas, do papa Leão XIV.

Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, professor honorário das universidades Austral (Argentina), San Martín de Porres (Peru) e Vasile Goldiș (Romênia), doutor honoris causa das universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs Paraná e Rio Grande do Sul, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da FecomercioSP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).