O que aconteceu com o Brasil que pariu Tom Jobim?

28 de Ago de 2026 - 10:45
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O que aconteceu com o Brasil que pariu Tom Jobim?

Passo a manhã ouvindo Tom Jobim. Em vários momentos e com vários parceiros diferentes. Inclusive Chico Buarque – por que não? Aqui e ali, suspiro. Sempre tomando o cuidado para não ser tragado pela nostalgia. Nosso tempo é aqui, digo para mim mesmo. É agora. Sei disso, mas me descuido por um instante e quando vejo estou arqueando as sobrancelhas para me perguntar o que aconteceu com o Brasil, que ontem tinha Tom Jobim e hoje tem essas coisas aí que vocês escutam.

Peguemos, por exemplo, a letra de Dindi. Que não foi composta por Tom Jobim, e sim por Aloysio de Oliveira. Mas você há de entender meu ponto. Ah, se há. A música começa assim: “Céu, tão grande é o céu/ E bandos de nuvens/ Que passam ligeiras/ Pra onde elas vão?/ Aí eu não sei, não sei/ E o vento que fala nas folhas/ Contando as histórias/ Que são de ninguém/ Mas que são minhas/ E de você também”. A contemplação da natureza, a melancolia suave, o tema eterno da passagem do tempo e da nossa desimportância. Que artista hoje em dia se debruça sobre essas coisas que não são palpáveis e no entanto todo mundo sente?

Pérolas

Agora ele faz um dueto com Miúcha. Talvez você se lembre da música “Pela Luz dos Olhos Teus” por causa de uma novela do Manoel Carlos. Não tem importância. É ou não é linda? Dá para ouvir o sorriso da Miúcha. Ouvir o sorriso. Dá vontade de sorrir também. De rodopiar e sair por aí dizendo a plenos pulmões que a vida é boa e vale a pena. Apesar dos pesares e sei que você está pensando neles. Nos pesares. Os pesares que nos cegam de medo e de raiva. E que plantam em nosso coração escurecido a dúvida: por que vivemos hoje, agora, nesta época pessimista e vulgar?

Como num desenho animado, chacoalho violentamente a cabeça. Porque lembro que as virtudes que permitiram ao país parir um Tom Jobim continuam por aí. Continuam dentro de nós. De mim e de você. Apesar dos pesares e que se danem os pesares! Basta que exijamos mais de nós mesmos, que encaremos com franqueza a dor que nos irmana e que nos dispamos do hedonismo e do materialismo que nos aprisionam. O Brasil só é medíocre porque nos contentamos com a mediocridade. Nos acostumamos a ela. Nós que preferimos nos fartar de lavagem a admirar as pérolas.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

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