Millennial com ascendente em X e presbiopia aos 50

1 de Jul de 2026 - 11:15
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Millennial com ascendente em X e presbiopia aos 50

Pela lógica geracional em vigor, sou um millennial nascido no primeiro ano possível desse grupo, 1980. Antes de mim, veio a geração X, com a qual me identifico na maior parte das vezes (sabe como é, aquela coisa de querer parecer mais velho).

Para efeitos de identidade mercadológica, eu diria que sou millennial com ascendente em X, o que me coloca na posição adequada para alimentar conversas regadas dessa nostalgia anos 90 e destilar comentários críticos a essa moçada (nós, da geração X, falamos "moçada") da geração Z, ah esses moleques, alvo de tantas conversas em nosso meio.

Há quem conteste o uso desses rótulos como forma de identificar e cercar um perfil de comportamento tomando como base a data de nascimento de uma pessoa. Estou nesse grupo. Ao centrar o olhar em um recorte exclusivamente demográfico e ignorar elementos de contexto social, econômico e geográfico, por exemplo, corre-se o risco de deixar de lado fatores tão ou mais importantes para compreensão de interesse e comportamento das pessoas. Tem algo com a ideia de corte geracional que me parece um reducionismo conceitual. Fala-se nesses grupos como se estivessem lendo o mapa astral de uma população.

Sinto um pequeno arrepio de constrangimento subindo pela garganta quando escuto definições taxativas sobre "Geração Z" e seus insondáveis padrões de comportamento que precisam ser mapeados, compreendidos e respondidos. O arrepio tem maior intensidade quando alguém diz "os Gen Z" como se fossem um grupo de k-pop que preciso conhecer. "Precisamos de uma estratégia para os Gen Z" é a frase que tenho escutado de executivos de mídia ao longo dos últimos anos. Em geral, ela vem seguida de outra: "nosso público está envelhecendo".

Não é o seu público que está ficando velho, é o Brasil. Eu gostaria de virar o pescoço nessa outra direção hoje, se você me permite. Não para a geração Z, mas para a turma bem antes dessa e da minha, tão antes que talvez tenha seu rótulo desbotado. E desbotado está porque me parece que realmente há um apagamento de seus interesses e direitos. A fatia da população acima dos 60 anos é ignorada na maior parte dessas conversas.

Eu, que entrarei para esse clube em alguns anos, até diria que já enxergo isso no horizonte, mas flertando com uma presbiopia ali e um princípio de catarata aqui, talvez esteja equivocado.

O IBGE projeta que até 2050, 25% da população brasileira estará na faixa acima de 60 anos. Antes de 2030, eles já representarão o maior grupo demográfico no Brasil. Nosso país envelhece a taxas mais rápidas do que os principais países europeus que passaram pelo mesmo fenômeno nas últimas décadas (levaremos menos de 40 anos para passar pelo que a França, por exemplo, demorou 150 anos para fazer).

Ainda que enfrentemos a realidade de um país desigual e com altos índices de pobreza (o que vai agravar o quadro social e econômico nas próximas décadas), lidamos também com o aumento na expectativa de vida - graças a avanços na medicina - e, de certa forma, com melhoras na qualidade de vida. Isso contribui para que, além de majoritário, os idosos sejam um público de potencial consumidor subestimado.

Em especial nas indústrias de tecnologia e comunicação, tudo é projetado para atender os anseios - e moldar os desejos - de um futuro consumidor, um jovem, que é alvo e espelho dos produtos que são lançados. O design de novos celulares, a estética dos veículos de mídia, as publicações em destaque nas redes sociais, a linguagem dançante dos vídeos de visual e som estourado, tudo é pensado com um público jovem em mente e ignora pessoas que acabam excluídas do principal espaço de debate dos nossos dias.

Algo que talvez a internet tenha provocado foi esse achatamento de espaços que frequentamos. Até algumas décadas atrás, pessoas de grupos geracionais diferentes frequentavam espaços diferentes. Crianças comiam em mesas separadas, as festas eram outras e grupos sociais se reuniam em lugares de aparência, vocabulário e formato distintos.

A transformação digital mudou essa dinâmica. Grupos de família no WhatsApp, por exemplo, reúnem três ou quatro gerações no mesmo fórum. Em tese, consumimos coisas distintas, mas na prática estamos na mesma pracinha. Às vezes, não encontramos nossos avós nessa rua virtual, mas de repente nos damos conta de que estamos a um raio de distância em que torna-se inevitável o choque, porque habitamos uma rede regida pelo mesmo fluxo. A rede, porém, é construída com a estética, a velocidade e a dinâmica de apenas um desses grupos, ao passo que os outros correm para se ajustar.

Com a "plataformização", são os mesmos serviços, aplicativos e sites que estão sendo consumidos por crianças, jovens e velhos. A distinção é que, se por um lado, esses produtos são convidativos para um público nativamente digital, por outro são estranhos a quem ainda sofre para ser alfabetizado nessa nova linguagem. Quando se fala de pessoas velhas, é só para dizer que elas podem parecer jovens.

Há algumas semanas, a Revista Piauí fez uma publicação em suas redes sociais para anunciar o novo design do site e um ajuste no projeto visual da revista. Os comentários dos leitores eram massivamente de agradecimento pela fonte maior que, agora sim, permitia a leitura. Sim, o tamanho da fonte. O celular do meu pai tem um tamanho de fonte tão grande que mais parece aqueles letreiros de senhas de sala de espera de hospital. Eu acho que consigo ler seus e-mails do outro lado da sala. Ainda nesse campo, é graças à possibilidade de aumentar o tamanho da letra, que minha mãe carrega seu Kindle a tiracolo para ler compulsivamente seus livros em qualquer lugar. Uma correção: a tiracolo não, ela o leva numa bela bolsinha de crochê que ela mesma costurou.

São exemplos banais, mas simbólicos desse processo. Entra nessa conta uma soma de outros obstáculos: a obrigatoriedade do uso de apps para tudo, a biometria facial que não funciona, os QR Codes irritantes para serem usados em câmeras que a pessoa não consegue acessar, fraudes e golpes realizados com manipulação de imagem e mensagem por IA, as conversas infinitas com a família e amigos que agora se dão quase exclusivamente em espaços virtuais. Tudo é novo, toda hora, para quem está ficando velho.

Não priorizar os idosos não é só uma burrice porque ignora um consumidor potencial, é também uma atitude de exclusão que precisa ser corrigida. associados e questões de saúde mental são indicadores crescentes e preocupantes.

Estamos falando de experiência de consumo, usabilidade e linguagem. Enquanto o design feito para jovens serve apenas a um recorte de público, um visual pensado para contemplar o público mais velho é acessível a todos. E no ambiente digital e midiático da última década, encapsulamos a experiência de leitura e passamos a ter todas as faixas etárias frequentando o mesmo espaço.

O mesmo esforço empenhado em entender e servir às novas gerações precisa ser dedicado aos idosos. Tanto pelo aspecto da inclusão quanto, por que não, pela oportunidade de negócio. é um bom resumo desse mapa (ele é recheado de fontes para quem desejar se aprofundar e crava o termo "cyber seniors", que achei bem chique). Outro foco de estudo e inspiração poderia ser o que fizeram países como Japão e Coreia do Sul, que viveram essa realidade décadas atrás.

Esbarrei na Folha de S. Paulo onde ele retrata essa situação pela perspectiva de quem a enfrenta. Recomendo a leitura na íntegra, mas um trecho em que ele cita a legenda de um cartum é a provocação que gostaria de fazer a meus colegas de trabalho debruçados sobre estudos da geração Z: "Uma sociedade que obriga uma pessoa de 90 anos a usar um para acessar os seus próprios direitos não é moderna".

Ano passado, alugamos uma casa de campo em uma cidade do interior de São Paulo. No pacote de boas-vindas, me incluíram nos grupos de WhatsApp do condomínio, habitado majoritariamente por aposentados. Acomodado na varanda da sala enquanto contemplava o verde da mata à minha frente, abri o grupo de moradores para me atualizar. Várias mensagens não lidas. Peguei num ponto aleatório para me situar e notei que eram dois moradores, uma mulher e um homem, debatendo algo sobre a assembleia daquela semana. Ela começou atacando: "Essa ideia é uma bobagem. Quem fez isso, só pode estar agindo de má fé".

O português correto e bem pontuado dela me impressionou. Mas não menos do que a réplica do homem: "Ora, mas V.S.ª por certo não tem conhecimento da minha trajetória e ignora por certo minhas quase 80 primaveras. Sou advogado aposentado, mas isso não me impede de?"

Parei de ler porque me distraí pensando que 80 primaveras é primavera pra caramba. Fiquei procurando flores no meu quintal, mas me dei conta de que estávamos no comecinho do outono e naquela tarde e, diante de mim, na mesma tela em que assisto vídeos de futebol, clipes de música e troco memes, pessoas com o dobro da minha idade debatiam em português castiço, demorando cinco minutos para enviar réplicas e tréplicas, esforçando-se para debater usando uma ferramenta, a principal ferramenta de comunicação de nossos dias, que não é nada amigável para seu consumo.

Pensei em sair do grupo porque não sou lá de ficar assistindo barraco (bem, acho que nesse caso seria melhor barafunda, alvoroço, arruaça, bochincho, bulha, desordem, quiproquó!), mas não consegui. Fiquei por ali, diante de um conteúdo com cenas 81+ pensando em como é necessário - e imperdoavelmente ignorado - esse diálogo e esforço de comunicação.

Sem mais para o momento - diria meu novo amigo de zap - atenciosamente subscrevo-me.

[refs]

Essa semana, eu li Will Knight na WIRED comentando sobre sua e que eles estão tão preocupados com riscos de cibersegurança quanto os norte-americanos e que isso, bem, deveria mudar a forma como os dois lados se comportam a respeito. Li sobre , já que algumas pessoas me mandaram para lá. Tenho mantido nossos irmãos em meus pensamentos e orações.

Retomei os episódios de na Apple TV e gostei (o segundo, em especial) e tenho escutado - e recomendo - o podcast da Vox Media. Ainda em podcasts, será fonte para uma coluna aqui no futuro.

E para não falar que eu não falei de futebol, li sobre uso de apps incrementados com inteligência artificial por parte de treinadores para tentar mapear habilidades e conseguir no futebol brasileiro. Tá bom, vai, eu também li e fico feliz que alguém escreva sobre futebol desse jeito. E claro, assisti quase tudo da Copa que eu pude (os jogos e ).

Estou saindo de férias e isso deve comprometer um pouco a rotina de escrita nos próximos dias. Há filhas para acalentar, uma esposa para mimar, o desejo pelo sol e um tempo de ócio e contemplação me esperando. Seguimos nos falando.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.