IA não está afetando apenas o número de empregos, mas como trabalhamos
Na abertura de um seminário na London School of Economics sobre inteligência artificial e o futuro do trabalho, os organizadores pediram que os participantes escrevessem uma palavra que resumisse a sua percepção sobre o tema. O resultado virou nuvem de palavras na tela. No centro, bem maior que todas as outras, estava "hype".
Não era uma plateia de céticos. Eram economistas, sociólogos, gente de governo e de sindicatos, reguladores europeus que ajudaram a escrever o AI Act. E ainda assim, ou justamente por isso, a sensação dominante era a de que o debate sobre IA e emprego está correndo à frente do que se sabe.
Os dois relatórios lançados no evento, sob o título "State of AI and Society", partem exatamente desse diagnóstico. E o que eles encontram é menos uma tempestade e mais uma neblina. Bem londrino.
O primeiro relatório, sobre impactos quantitativos, mapeou 138 publicações sobre IA e mercado de trabalho. Dessas, 74 se arriscam a dizer algo sobre a direção ou o tamanho do efeito em empregos e salários. Setenta por cento delas são o que os autores chamam de "evidência potencial": índices de exposição, simulações, projeções do que a IA poderia fazer. Só 30% medem o que a IA de fato fez.
E a faixa de estimativas é tão larga que cabe qualquer manchete que eu quisesse dar nessa coluna: impacto de −20% a +25% no emprego, de −34% a +40% nos salários. A conclusão dos autores é que escolher um número nesse intervalo diz mais sobre quem escolhe do que sobre a evidência em si.
Sobram dois achados com algum consenso, e ambos são modestos. O efeito agregado sobre emprego e produtividade, até aqui, é discreto. E a contratação na base da pirâmide desacelerou em algumas economias desenvolvidas. Nos Estados Unidos, trabalhadores de 22 a 25 anos nas ocupações mais expostas perderam terreno frente aos colegas mais velhos, em uma diferença que foi de 13% para 19% entre versões do mesmo estudo.
Mas nem isso é seguro atribuir à IA. O mercado de trabalho dos anos 2020 anda fraco por motivos que nada têm a ver com modelos de linguagem, como a pandemia e seus ainda sentidos impactos econômicos. Jovens sempre sofrem primeiro quando a economia esfria.
A neblina fica mais espessa quando se olha para fora do Atlântico Norte. Das 22 pesquisas com evidência real, apenas três incluem algum país em desenvolvimento, e nenhuma é dedicada a eles. O trabalho informal, que ocupa cerca de 60% dos trabalhadores do Sul Global, aparece em 9% das publicações. É aqui que a discussão europeia sobre "job quality" ganha um sotaque diferente.
Porque o segundo relatório, sobre a qualidade do trabalho, traz uma preocupação legítima e que é sentida em todos os lugares do mundo: trabalho não é só salário, é identidade, relação, senso de valor. Ele propõe quinze dimensões para medir o impacto da IA e encontra um padrão que se repete.
Segundo o estudo, benefícios e danos chegam pelo mesmo canal. O monitoramento que torna a fábrica mais segura é o mesmo que pode violar a privacidade. A automação que elimina a tarefa chata elimina também o respiro entre as tarefas difíceis. E quem gerencia a IA relata uma experiência melhor do que quem é gerenciado por ela.
Uma representante de governo europeu explicou por que essa agenda faz sentido para seu país: população envelhecida, sem recursos naturais, o país se preocupa menos em ficar sem trabalho e mais em ficar sem trabalhadores. Tornar o trabalho com IA mais agradável vira então política demográfica.
Fora do norte global os impactos parecem bem diferentes. Puxada pela tendência global de terceirização de serviços, as Filipinas, assim como a Índia, se transformaram em destinos atrativos para a instalação de empresas focadas em call centers e demais centrais de atendimento.
Esses empregos são alvos óbvios da automação. Será que a economia filipina está pronta para o impacto? E como essas empresas vão se preparar para retreinar os seus funcionários para operar com IA? Em países do sul global a economia formal é menor, e esses são justamente os "bons empregos". Se a IA tira o degrau de entrada, ela tira a juventude do jogo (ou os encaminha para a informalidade).
A discussão sobre "reskilling" ganha outro peso nesse contexto. Imagine o conselho de "requalifique-se" dirigido a quem nunca teve acesso à educação formal. Não fizemos nem o primeiro dever de casa e já estamos discutindo o segundo.
Havia, no seminário, um sentimento adjacente ao hype que merece nominar: FOMO (sigla do inglês "fear of missing out", ou "medo de estar ficando de fora"). A convicção generalizada de que outras empresas, outros colegas, estão usando IA melhor do que você. Um pesquisador de um laboratório corporativo resumiu a nova condição: agora todo mundo é gerente, porque precisa administrar agentes, e nem todo mundo tem as habilidades para isso.
O que talvez tenha sido a observação mais aguda do dia veio na forma de um ponto pouco explorado nos debates acadêmicos sobre IA e trabalho. A regulação olha para o que entra na organização (como as pessoas e suas habilidades), e para o que sai dela (como os produtos). O meio, como o trabalho é organizado, quem faz o quê, quem decide, segue invisível para o regulador.
E é ali que a IA está mexendo na maneira como trabalhamos. Treinar as pessoas é importante e entender como as empresas estão lançando produtos e serviços com IA também. Mas como a IA é usada no dia-a-dia - transformando a organização do trabalho, as dinâmicas de supervisão, gerando uma ilusão nos trabalhadores de que agora todos podem escrever código e falar sobre qualquer assunto - precisa de mais atenção.
Os relatórios da LSE terminam com um pedido de humildade: cada estimativa é uma fotografia de uma versão passada da tecnologia, tirada com instrumentos que não foram feitos para medi-la. Enquanto a apresentação da OCDE falou em uma transformação lenta na quantidade de empregos, uma marolinha ao invés de um tsunami, fica a impressão de que diferentes países vão sentir o impacto de diferentes maneiras.
E diferentes empregos também. Os trabalhos cognitivos são os mais desejados, e também são alguns dos mais expostos. Os trabalhos físicos parecem mais protegidos, e são os menos valorizados. Se isso é hype ou tendência, ainda não há evidência que diga. O que a nuvem de palavras registrou foi só o clima. E por enquanto tudo parece bastante nublado.
Opinião
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL