Formato não é linguagem (ou 'Aprendendo a rir direito')
Outro dia, minha filha estava me ensinando a rir direito.
"não ria com 'rsrs' pai por favor. pelo menos não em minha presença", ela me escreveu no WhatsApp, com essa ausência de vírgulas e maiúsculas que ainda sinto como um golpe de adaga no baço.
"Mas, Nina, eu não rio com rsrs, eu rio com hahahaha", me defendi. "hahahaha é pior. hahahaha é sarcasmo", ela disse. "Não, eu rio assim sonoramente. No kkkkk parece que a pessoa está engasgando".
O golpe de misericórdia veio na tréplica: "seu psicopata".
Ela insiste no kkkkk. E tem que ter cinco K's para ser uma risada honesta. Menos que isso é desrespeito, mais é exagero. Pode ser em letras maiúsculas se, tipo, for bem engraçado. O "tipo" também é por conta dela.
Tenho muitas ressalvas à ideia de rotular um recorte demográfico como se isso fosse suficiente para definir um perfil de indivíduos ou como se o ano de nascimento tivesse tanta influência sobre comportamentos, ignorando fatores como classe, raça, gênero e geografia. Refiro-me ao conceito de nomenclatura de gerações (X, Y, Alpha e por aí segue), mas pretendo formular essa rabugice em outro texto.
Mas Nina me faz lembrar que esse ambiente que frequento e onde trabalho há pouco mais de trinta anos como visitante é seu habitat e ela pertence ao grupo de nativos que moldam um tipo de comunicação que todos nós também consumimos. Mas nem sempre falamos.
Onze em cada dez dirigentes de empresas de comunicação com quem conversei nos últimos anos tinham entre suas prioridades estratégicas algo como "criar conteúdo para atrair os mais jovens". Pessoas que se preocupam de alguma forma em produzir informação, têm nesse público um alvo de intenção para construção e validação dos seus produtos.
Historicamente, a produção de informação sempre se apoiou na tríade mensagem, meio e formato. Esses três pilares, somados à escolha dos canais de distribuição, bastavam. Hoje, no entanto, o principal motivo de descompasso entre emissores e receptores está em outro elemento: a linguagem.
Enquanto se esforçam para fazer a mensagem "caber" em novos formatos, ignoram que o problema é que desconhecem a linguagem a ser falada. E a consequência disso é um anacronismo que prejudica o diálogo que se pretende estabelecer.
É compreensível que o façam dessa forma. Afinal, o formato é só o que enxergamos de distinção entre o que produzimos e o que se consome. Perfis populares nas redes sociais, vídeos curtos, fóruns de jogos e grupos de conversas parecem, para o olhar de fora, um remendo de mensagens curtas, recortadas e desconexas.
Sustenta essa premissa o fato de as primeiras ondas de transformação de qualquer mídia terem sido acerca de mudanças de formato. A plataforma, afinal, era o canal. E cada plataforma demandava um tipo de formato. Foi assim com meios tradicionais (rádio, tv, jornais e revistas) e foi assim, por muitos anos, com meios digitais também. A mudança de um site acessado pelo computador para um site acessado em dispositivo móvel era mais uma reconfiguração de dimensão. Assim foi a transição da rolagem com mouse para as telas sensíveis ao toque ou da construção de sites próprios para a distribuição através de canais em redes sociais e plataformas. O ajuste a ser assimilado era sempre uma edição do conteúdo originalmente produzido. Assumimos, portanto, que nesse estágio também seria assim.
Há boas pesquisas sendo feitas para apoiar a decisão dessas marcas. Nas últimas semanas, o divulgou dados atualizados do seu relatório sobre consumo de notícias por jovens dando conta de que, sim, priorizam plataformas sociais, vídeos e vozes autênticas em seu consumo de informação cotidiano. Isso é analisado também em relatórios de tendências, como o da FT Strategies com o Knight Lab e sobre consumo de notícias no TikTok.
No entanto, ao se debruçar sobre esse tema tendo em vista apenas a perspectiva geracional, ignoram tratar-se de um comportamento que extrapola uma faixa etária. A fragmentação da mensagem acabou criando uma nova linguagem. Adaptar o formato já não basta quando o conteúdo também mudou. Não resolve ter vídeo vertical, clipes curtos, edições com imagens sobrepostas estourando na tela e escalar uma pessoa mais jovem gritando em frente à câmera do outro lado. Soa como um cosplay geracional que além de não ser legítimo, é anacrônico.
Aprender uma nova linguagem passa pela construção nativa do discurso. Em especial porque não se trata exatamente de construir pontes com jovens consumidores, mas de todo universo que consome informação a partir de plataformas sociais (e ria usando kkkkk). Seja qual for o recorte demográfico dessa audiência, essa se tornou a linguagem nativa de usuários dessas redes. Não necessariamente na forma de se expressar mas no tipo de conteúdo que consome. Os jovens apenas são nativamente fluentes e, por essa razão, assimilaram e disseminaram isso intuitivamente.
Quando surgem fenômenos de mídia como , , e , há um fluxo de marcas que correm para emular esses modelos dentro de seus próprios ambientes. E não dá certo. Copiam e escorregam na casca de banana da mimetização. O equívoco desse movimento é não perceber que a virtude é a autenticidade e não o formato.
Não é possível falar uma língua que não se entende. E se o olhar para isso for de estranhamento, não vai funcionar.
Outro erro ao assumir que se trata exclusivamente de um público jovem é ignorar a diversidade (mesmo que fosse um público exclusivamente jovem, ignorar a diversidade intrínseca a esse grupo já é uma gafe). Só para puxar o exemplo para o outro lado desse espectro, no Brasil, , 69% das pessoas com mais de 60 anos acessa a internet regularmente e uma outra pesquisa do CNDL/SPC revelou que 72% dos idosos conectados são ativos em redes sociais. Ao tentar construir uma abordagem para dialogar apenas com jovens, as marcas deixam no vácuo outros consumidores que também transitam por ali.
A assimilação de uma nova linguagem é um passo importante para veículos de mídia que desejam ser legítimos em sua presença nesse ambiente. Ganhar fluência não é fácil porque passa por reconhecer que precisam de ajuda para dialogar. E, bem, diálogo pode ser um termo um tanto complexo para uma indústria acostumada a monólogos. Fala-se tanto em ter uma voz, mas talvez nos falte mais ouvidos nesse caso.
É nessa hora que um colega levanta a mão, pede a palavra, afasta os óculos de presbiopia da face e manda a pergunta: "mas, como ficam as longas reportagens, os ensaios, livros e leituras de fôlego que precisam de mais espaço?"
Gostaria de desafiar também a tese de uma coisa precisar, necessariamente, excluir outra. É papel de quem produz educar seu público sobre o valor de apurações complexas e talvez seja exatamente aí, no convite à leitura, que a linguagem importe mais. O conteúdo não deveria ser diferente, mas o modo de chamar para ele, sim.
Adquirir fluência em uma nova língua pode ser difícil. Eu sigo tentando. Quando gravo vídeos em selfie ou escrevo kkkkk nas minhas risadas, me sinto como aquela tia de 65 anos que veste as roupas da filha para ir ao shopping. É um processo longo conseguir soar legítimo sem perder a identidade. Ou, no limite, assimilar as diferenças, assumi-las e talvez por isso conseguir dialogar. Por hora, minha crença é a de que ser fluente em Nina me bastará.
A última edição da newsletter do Rafael Sbarai () ecoa um sentimento que partilho: há uma ansiedade intrínseca por não saber, não acompanhar, não entender, não dominar, não fazer a menor ideia de como funciona inteligência artificial como deveríamos. Também gostei do que escreveu Ben Thompson sobre e queria muito que todos pudessem ler sobre vida, trabalho e a busca pelo que faz sentido. No mais, já começo a me preocupar com minha capacidade de me manter produtivo à medida que a .
Enquanto minha coluna de livros não entra no ar, fica o registro de que além do instigante "" (da Paulliny Tort), ainda não concluído, também ando às voltas com o sensível "", do Karl Ove Knausgård, que comecei por esses dias. Também comecei a ler "", do Valter Hugo Mãe, que é um dos meus autores favoritos, mas depois de ler um trecho lindíssimo do primeiro capítulo para minha esposa, ela o pegou de mim para ler. As danças dessa adorável dinâmica doméstica se bastam, amigos. Assistimos a "O Morro dos Ventos Uivantes" e não ando assistindo jogos do por motivos de preservação da minha sanidade mental. Preciso muito assistir "Devoradores de Estrelas" e "O Diabo Veste Prada 2" no cinema e espero que dê tempo. Andei lendo que a e estou considerando se não é hora de trocar o meu antigo antes do impacto por aqui - poder jogar com a Cecília em gráficos novos seria ótimo.
Opinião
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