Ex-comunista pode ajudar a direita alemã a conquistar um governo estadual pela primeira vez
O Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), partido de direita nacionalista do país europeu, está muito próximo de governar um estado pela primeira vez. Para isso, poderá ter a ajuda de um partido de esquerda, comandado por uma ex-comunista.
A eleição para o Parlamento da Saxônia-Anhalt será realizada em 6 de setembro. Depois de definido o novo Legislativo, este será o responsável pela eleição do governador local.
O AfD lidera as pesquisas para a eleição, mas, com intenções de voto na faixa dos 40%, não teria sozinho cadeiras para vencer a disputa para governador.
Apesar do crescimento da legenda nas eleições alemãs nos últimos anos, outros partidos se negam a apoiar e formar coalizões com o AfD devido à regra apelidada de “cordão sanitário”, que isola legendas de direita nacionalista na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial.
É aí que entra a Aliança Sahra Wagenknecht – Razão e Justiça (BSW), pequeno partido de esquerda. Como o nome indica, ele é liderado por Sahra Wagenknecht, que, antes da queda do Muro de Berlim, em 1989, foi integrante do Partido da Unidade Socialista da Alemanha (SED), legenda da ditadura comunista da Alemanha Oriental.
Em entrevista ao jornal Bild, Wagenknecht disse que o objetivo eleitoral do BSW “é tirar do cargo o atual governador” – Sven Schulze, do União Democrata Cristã (CDU), partido do atual chanceler alemão, Friedrich Merz.
“Queremos substituí-lo [Schulze] por um governador suprapartidário, que governe com um gabinete técnico e maiorias variáveis, também com o AfD”, afirmou a líder de esquerda.
A ajuda do BSW ao AfD poderia ser feita de duas formas: referendando um nome “suprapartidário” também apoiado pelo partido direitista na eleição no Parlamento da Saxônia-Anhalt; ou, se a primeira estratégia falhasse, se abstendo de votar, o que mudaria o cálculo de votos necessários e abriria caminho para o AfD eleger um governador mesmo sem apoio de outras legendas.
O problema é que o BSW precisaria superar a cláusula de barreira – na Alemanha, 5% dos votos na eleição parlamentar – para ter representantes no Legislativo local. Nas pesquisas, têm oscilado entre 4% e 6%.
“O BSW enfrenta o desafio de superar a cláusula de barreira de 5% nas próximas eleições estaduais”, disse Daniel Tapp, porta-voz da copresidente nacional do AfD, Alice Weidel, ao site Politico. “Se obtiver êxito, o AfD estará, naturalmente, pronto para dialogar.”
Em entrevista ao mesmo site, o copresidente do BSW, Fabio De Masi, reiterou o entendimento do seu partido, manifestado numa carta enviada à legenda direitista em junho, de que o “cordão sanitário” contra o AfD é “antidemocrático e não resolve problema algum”.
“Se os partidos tradicionais continuarem nesse caminho — em resumo, unindo forças apenas com base no mínimo denominador comum para barrar o AfD —, isso acabará levando o AfD a obter maiorias absolutas; nesse momento, o partido poderá governar sem qualquer contrapeso”, disse De Masi.
“É por isso que tentamos encontrar uma terceira via: uma que demonstre aos cidadãos que estamos resolvendo problemas e que, dado que o AfD conta com 40% das intenções de voto [nas pesquisas na Saxônia-Anhalt], também devemos incluí-lo em certas decisões políticas”, acrescentou.
Para especialista, “cordão sanitário” vem perdendo sentido
Em entrevista à Gazeta do Povo, Adriana Melo, analista de geopolítica, destacou o argumento do BSW de que “é antidemocrático excluir permanentemente um partido votado por 40% do eleitorado” e lembrou que o “cordão sanitário” na Alemanha já havia sofrido uma “rachadura importante” anteriormente, quando Merz, então candidato a chanceler pelo CDU, levou ao Parlamento alemão (Bundestag) um plano de restrição migratória – uma das principais bandeiras do AfD – que só foi aprovado em janeiro do ano passado porque a legenda de direita nacionalista forneceu os votos que faltavam.
Apesar de protestos até dentro do seu partido pela ajuda da direita nacionalista ao projeto (como da ex-chanceler Angela Merkel), Merz venceu a eleição federal do mês seguinte e virou chanceler em maio.
“O comportamento recente do sistema, o episódio Merz e agora o BSW, está mostrando que romper a barreira [o ‘cordão sanitário’] tem custo administrável, não custo fatal. E isso é um incentivo que as pessoas acabam usando de novo”, afirmou Melo, que disse acreditar que atitudes como a do BSW podem abrir caminho para que siglas maiores superem sua rejeição ao AfD.
A especialista citou o caso do Reagrupamento Nacional, da França, outro partido de direita nacionalista que vem crescendo em eleições e que lidera as pesquisas para o pleito presidencial de 2027, como outro exemplo da disseminação mundial dessa vertente política.
“Isso não é exclusividade alemã, é o mesmo cálculo por trás do tarifaço americano, da resistência francesa ao [acordo da União Europeia com o] Mercosul e do próprio eurocetismo do AfD, que defende abertamente a saída da Alemanha da União Europeia. Quando o mesmo incentivo aparece repetido em vários países ao mesmo tempo, não é coincidência, é tendência estrutural, e essa tendência tem se traduzido em imprevisibilidade para quem exporta, como é o caso do Brasil”, disse Melo.
“No fim das contas, a pergunta que interessa nem é se o ‘cordão sanitário’ é moralmente aceitável, e sim se ele ainda é capaz de produzir o resultado para o qual foi desenhado. Os dados recentes sugerem que não, pelo menos não como antigamente”, afirmou a analista.