“Epidemia” de roubo de celulares é desafio para candidatos

11 de Mai de 2026 - 17:30
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“Epidemia” de roubo de celulares é desafio para candidatos

Um homem caminha na calçada próximo à portaria de um prédio, distraído com o celular na mão, quando uma moto passa por ele na rua e retorna. O motoqueiro estaciona na guia próximo ao pedestre e desce de capacete com um revólver em mãos. Aponta para o homem que caminhava, anuncia o assalto e exige o celular.

Assustado e surpreso, o homem parece não entender o que está acontecendo e hesita, enquanto fala algo para o ladrão e se mexe, de acordo com o que é possível ver pelas imagens de câmeras de segurança da rua. É o suficiente para ser baleado na cabeça pelo criminoso, que foge e deixa a vítima agonizando no chão — no  caso, um policial militar que estava à paisana e de folga.

A cena aconteceu na cidade de Osasco, na região metropolitana de São Paulo, na manhã do último 28 de abril, mas poderia ser em qualquer outro dia e outra cidade de porte médio ou grande do Brasil.

O Brasil registra uma média de 2,5 mil celulares roubados ou furtados por dia.

Como uma epidemia que tomou conta do país, o roubo (crime cometido com violência) e o furto (tipologia criminal para casos sem que a vítima perceba o contato ou sem intimidação) de celulares tornou-se um ponto central em discussões políticas e eleitorais — e certamente é um tema que será cobrado pelo eleitor dos candidatos a presidente e a governador.

A magnitude do problema transcende a perda material dos aparelhos em si e se consolida como uma crise de segurança pública sem precedentes. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, atualizado com dados consolidados de 2025, o Brasil registra uma média de 2,5 mil celulares roubados ou furtados por dia, o que equivale a quase 1 milhão de ocorrências anuais.

Furto e roubo de celulares é base de uma estrutura financeira altamente lucrativa

O que as autoridades e especialistas classificam hoje como "epidemia" não é um crime isolado, e sim a base de uma estrutura financeira complexa e altamente lucrativa. O celular deixou de ser um item de revenda simples para se tornar a porta de entrada para o ecossistema do cibercrime.

Estimativas do Banco Central e de federações bancárias indicam que o prejuízo indireto causado por invasões de aplicativos de bancos, após o roubo do aparelho físico, movimentou cerca de R$ 3,5 bilhões em transações fraudulentas apenas no último ano.

42% dos cidadãos em capitais admitem ter deixado de circular por medo de ter o celular subtraído; custo da apólice de seguro para smartphone sobe.

Criminosos agora investem em técnicos especializados em desbloqueio de hardware e engenheiros sociais que limpam contas em minutos, antes mesmo que a vítima consiga realizar o bloqueio do Imei (número de identificação único para cada celular) ou dos acessos bancários.

A sensação de insegurança reflete-se na mudança de hábitos do brasileiro. Uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) revelou que 42% dos cidadãos em capitais admitem ter deixado de circular em determinados horários ou locais por medo específico de ter o celular subtraído.

Além disso, o custo das apólices de seguro para smartphones subiu 22% entre 2025 e 2026, tornando o serviço inacessível para as classes C e D, justamente as mais vulneráveis à violência urbana no trajeto para o trabalho.

Desafio para todos os candidatos 

Este cenário impõe um desafio para os candidatos a cargos executivos. Em 2026, o debate eleitoral sobre o tema deve girar em torno de propostas concretas para o problema.

Em busca de uma bandeira na área de segurança pública, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma nova etapa do programa "Celular Seguro", de combate ao furto e roubo de celulares, lançada inicialmente em 2023 eque ainda não teve resultado. Desta vez, a ideia em discussão no Ministério da Justiça é focar na integração de dados de boletins de ocorrência, rastreamento e mirar na devolução de aparelhos.

Para isso, o governo trabalha para aprimorar a integração de um banco de dados nacional de celulares roubados com o cruzamento de Imei. A nova fase do programa era prevista ainda para o primeiro semestre, e é mais um movimento da gestão petista para tentar melhorar a popularidade de Lula às vésperas do período eleitoral.

Do lado da principal candidatura presidencial da oposição, o senador Flávio Bolsonaro (PL) também já se movimenta de olho no assunto. Em janeiro, ele voltou a propor um aumento de pena para o crime de furto de celular.

No ano passado, o senador havia apresentado projeto de lei sobre o tema. O PL 494/2025 propõe a tipificação qualificada para o crime de furto de aparelho celular, com pena dobrada.

A proposta, em tramitação no Senado, visa a combater o aumento desse tipo de infração, que já atingiu a marca de mais de 100 milhões de celulares furtados no Brasil, segundo levantamentos mencionados pelo próprio senador.  O projeto altera o artigo 155 do Código Penal, elevando a pena para reclusão de quatro a oito anos e multa, em contraste com a pena atual de um a quatro anos e multa para o furto comum.

Batalha também acontece nos estados 

Em São Paulo, epicentro da "epidemia" de roubos e furtos de celulares no país, levantamento do jornal O Globo publicado no final de abril mostra que enquanto regiões centrais, como a Avenida Paulista, registraram queda nos índices, os bairros de Capão Redondo, Jardim Herculano e Parque Santo Antônio, na periferia da zona sul, consolidaram-se como os locais que mais concentram roubos de celular na capital do estado.

São distritos localizados em um raio de apenas dois quilômetros — e que somaram 4.852 roubos e furtos de celular no último ano. Esse montante representa um crescimento de 14% nessas localidades, contrastando com a queda geral de 15,5% registrada no restante da cidade de São Paulo.

Pressionados pela sensação de insegurança da população e por números que não se refletem em segurança nas ruas — além de suspeitas no envolvimento de setores das polícias do estado com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) — o governador em busca de reeleição Tarcísio de Freitas (PL) e as forças de segurança tentam mostrar serviço.

Uma nova etapa do programa "SP Mobile" devolveu, em abril, 383 celulares com registros de furto ou roubo aos proprietários no estado de São Paulo — com direito a uma grande cerimônia de entrega dos aparelhos às vítimas. Criado em 2025 pelo governo do estado, o sistema cruza informações de boletins de ocorrência com dados fornecidos por operadoras de telefonia, identificando aparelhos com restrição criminal assim que voltam a ser ativados.

A partir disso, a Polícia Civil consegue localizar os dispositivos, notificar os atuais usuários e promover a recuperação. Desde a implantação, mais de 23,5 mil celulares foram recuperados em todo o estado. Desse total, cerca de 34% foram devolvidos às vítimas — resultado que reforça o impacto da iniciativa tanto no combate ao furto e roubo quanto na desarticulação do mercado ilegal de receptação.

Apesar da crise na segurança, Tarcísio segue amplamente favorito com chances de vencer a eleição no primeiro turno, de acordo com as pesquisas de intenção de voto recentes — a Quaest do dia 29 de abril aponta a liderança de Tarcísio nos dois cenários estimulados com pelo menos 12 pontos percentuais de vantagem.

No lado da esquerda, o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT),  também tem chances de vitória no primeiro turno com mais de 50% das intenções de votos nos dois cenários levantados pelo AtlasIntel, em pesquisa divulgada no dia 18 de março. No primeiro cenário, ele aparece com  57,7%; no segundo, ele tem 56%. Os bons resultados durante a gestão do petista no combate a furtos e roubos de celulares certamente é um dos motivos da aprovação aparente do eleitor à gestão.

Entre os meses de janeiro e setembro de 2022 e 2025, a taxa de ocorrências do tipo por 100 mil habitantes caiu 51%, de 322,16 para 156,15, segundo dados da Secretária da Segurança Pública local. Em números absolutos, os registros passaram de 10.532 em 2022 para 5.285 em 2025, uma diminuição de quase 50%. Quando comparado ao mesmo período de 2024, que apresentou 6.534 ocorrências, a queda foi de 19,21%.

Com iniciativas de grande investimento em tecnologias, como o CellGuard e o LupaBot, e integração entre as forças de segurança, o Piauí recuperou mais de 13 mil celulares desde 2023, tornando-se referência nacional no assunto.

Maior preocupação dos eleitores 

De acordo com pesquisa Genial/Quaest divulgada no dia 15 de abril, a violência é o principal problema do Brasil para 27% dos entrevistados. O levantamento foi realizado entre os dias 9 e 13 de abril e reflete a opinião de 2.004 eleitores com 16 anos ou mais.

A sondagem foi feita com questionários telefônicos e entrevistas presenciais, e tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A taxa de confiança do levantamento é de 95%.

Na série histórica da Genial/Quaest sobre o tema, a violência vem se mantendo no topo da lista das preocupações das pessoas desde o início de 2025 — o ápice ocorreu em novembro de 2025, quando os números chegaram a atingir quase 40%. Os números coincidem com a ascensão das facções criminosas e com o alastramento delas para todo o território nacional.

Metodologia das pesquisas citadas