A região que combina exploração de lítio, produção de cachaça e é polo da fruticultura nacional

11 de Mai de 2026 - 13:30
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A região que combina exploração de lítio, produção de cachaça e é polo da fruticultura nacional

A região norte do estado de Minas Gerais produz 1,6 milhão de toneladas de alimentos por ano no maior perímetro irrigado em área contínua da América Latina. A Jaíba, localizada entre os rios São Francisco e Verde Grande, lidera a produção nacional de banana-prata, exporta manga e limão para 36 países da Europa e da Ásia e gera 45 mil empregos diretos e indiretos.

O fenômeno é mais amplo que a fruticultura consolidada: a região começou a plantar cacau em pleno semiárido — 580 hectares irrigados que desafiam o clima seco — enquanto Salinas produz 5 milhões de litros de cachaça por ano, com garrafas premium que chegam a R$ 1 mil. Mesmo com essa explosão produtiva, investidores de fora ainda desconhecem os incentivos fiscais.

A exploração de lítio trouxe holofotes recentemente, mas são a fruticultura irrigada e a cachaça artesanal que consolidam o potencial econômico da região há décadas. "Investidores chegam aqui interessados em lítio e acabam descobrindo um mercado muito maior", resume Reginaldo Ferreira, ex-diretor da Invest Minas — órgão vinculado ao governo mineiro — que atraiu investimento de R$ 300 milhões de empresários de Santa Catarina que forram atrás de ouro e ficaram pelo agro.

O paradoxo é impressionante: uma região semiárida que, com tecnologia de irrigação, virou o principal polo de fruticultura do Brasil — e agora mira cacau e cachaça premium no mercado internacional.

Com tecnologia de irrigação, região virou o principal polo de fruticultura do Brasil — e agora mira cacau e cachaça premium no mercado internacional.

Maior perímetro irrigado da América Latina produz 1,6 milhão de toneladas de alimentos e planta cacau no semiárido mineiro

Localizado entre os rios São Francisco e Verde Grande, a Jaíba é o maior perímetro irrigado em área contínua da América Latina. A região produz mais de 1,6 milhão de toneladas de alimentos por ano.

O polo contribuiu para a "marca" do norte de Minas como o principal polo da fruticultura brasileira e, atualmente, a maior produtora de banana-prata do país. Segundo informações da Associação Central dos Fruticultores do Norte de Minas (Abanorte), a cadeia gera mais de 45 mil empregos diretos e indiretos. Além da banana, a produção inclui manga, limão, uva, goiaba, melão e cana-de-açúcar.

Norte de Minas é a região maior produtora de banana-prata nacional.

A associação promove, anualmente, uma feira especializada para o setor, a Fruit Connections, que recebeu, na edição de 2026, representantes de 19 estados e quatro países. Os olhos do mercado se voltam para o desenvolvimento de uma nova espécie na região: o cacau.

Com forte demanda interna e externa, Minas tem apenas 580 hectares plantados e, segundo informações da Secretaria de Agricultura e Pecuária do estado, as condições climáticas do norte mineiro — com altas temperaturas, pouca umidade e tecnologia de irrigação muito desenvolvida — contribuem para favorecer o aumento da produção.

O município de Jaíba é campeão em produção, com uma área plantada de 256 hectares, o que corresponde a 53,3% do estado. Em seguida, estão as localidades de Janaúba (120 hectares), Bandeira (64 hectares) e Matias Cardoso (25 hectares), todos a região norte do estado. Minas ocupa o 10º lugar no ranking de maiores produtores do país, que é liderado pelos estados de Pará e Bahia.

Investidores catarinenses expandem negócios na região que é o maior perímetro irrigado da América Latina

O avanço da fruticultura em Jaíba está ligado ao uso de tecnologia no campo. Sistemas de microaspersão e gotejamento permitem o fornecimento controlado de água.

O governo de Minas anunciou recentemente R$ 23,1 milhões para obras de infraestrutura em Jaíba. Desse total, R$ 6,6 milhões serão destinados à recuperação do Canal CP3, usado para irrigar 8,2 mil hectares. A conclusão da obra está prevista para outubro de 2026.

Outros R$ 1,4 milhão estão sendo aplicados em obras de macrodrenagem, medida que busca recuperar 1,4 mil hectares comprometidos até o mês de agosto. Para Reginaldo Ferreira, empreendedor da região, investidores de outros lugares ainda não perceberam o amplo potencial produtivo que o norte de Minas tem, como juros mais baixos e incentivos tributários.

"O imposto de renda é reduzido a 75% e os índices restantes ainda podem ser reinvestidos, e os juros aqui são muito bons em comparação com os juros do restante do Brasil”, destaca ele. Ferreira, que trabalhou no governo do estado entre 2023 e março deste ano, passando pela agência de atração de investimentos (Invest Minas) e o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) conta que, durante esse período, conheceu investidores de Santa Catarina que buscaram a região interessados em uma mina de ouro e, após adquirirem mais informações, decidiram expandir os negócios.

“Eu os conheci e mostrei para eles algumas outras potencialidades. Eles não conheciam nada do mercado e nem dos benefícios. Eles aprofundaram pesquisas e hoje estão com investimento aqui de mais de R$ 300 milhões, com mais de 70 pessoas trabalhando”, afirma.

Ele ainda comenta que, durante a passagem na Invest Minas, conseguiram atrair um grande produtor de cacau para a região, que projeta plantar 500 hectares na região — e os negócios no agro vão ainda mais longe. “Já tem produção de cacau em operação na região da Jaíba. Mas já há dezenas de tipos de frutas que estão sendo produzidas e provando que o nosso clima é muito bom para produzir. Apesar de ser uma região semiárida, a irrigação tem favorecido muito”, complementa Ferreira.

Salinas aposta na cachaça de alto valor agregado para expandir mercado

A cerca de 200 quilômetros de Jaíba, a cidade de Salinas trabalha para fortalecer a cachaça como produto de maior valor agregado. Segundo o empresário e presidente da Associação dos Produtores Artesanais de Cachaça de Salinas (Apacs), Jean Oliveira, o foco é explorar o nicho de cachaças que não estão entre as mais caras do mercado e torná-las mais atraentes.

“A gente enxergou que as cachaças de Salinas têm um nome muito forte, mas entendemos que ou tinham as cachaças de valor agregado alto, com o preço um pouco mais elevado, ou as cachaças de entrada. Então escolhemos uma cachaça de um valor agregado com o preço justo e investimos em embalagem premium, num rótulo bonito”, comenta ele.

A aposta inclui garrafas com aparência semelhante à de uísque e rótulos especiais, colocando as cachaças também como uma opção de presente. A região produz mais de 5 milhões de litros de cachaça por ano. Desde 2012, a Indicação Geográfica protege o nome “Salinas” contra falsificações. O presidente da Apacs avalia que o selo garante a autenticidade do produto e aumenta seu valor de mercado.

Desde 2012, a Indicação Geográfica protege o nome “Salinas” contra falsificações na produção e venda da cachaça.

Algumas garrafas chegam a ser vendidas por valores acima de R$ 400. Uma das mais famosas, a Havana, criada na década de 1940 e produzida na fazenda de mesmo nome, pode chegar a R$ 1 mil em edições especiais.

Apesar do potencial e de uma produção que ultrapassa os 5 milhões de litros, com mais de 600 produtores no estado, a exportação ainda representa menos de 5% do setor. Missões internacionais para Barcelona e Paraguai buscam apresentar o “estilo Salinas” a novos mercados.

“No último ano estivemos na Espanha e tivemos oportunidade de ir à Embaixada Brasileira no Paraguai. Também participamos de feiras internas, em Gramado, Belo Horizonte, Fortaleza, João Pessoa, Brasília”, enumera o representante do setor.

Estradas ainda travam o setor

A logística é um dos principais gargalos apontados pelos produtores. Jean Oliveira cita a BR-251, conhecida como a “rodovia da morte”, como uma das principais dificuldades para o escoamento da produção.

Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal, até março deste ano havia registro de 67 acidentes na rodovia. Em abril, até o feriado de Tiradentes, foram contabilizados outros oito acidentes. Oliveira explica que isso aumenta o risco para cargas transportadas em garrafas de vidro.

Ele aponta que o manuseio inadequado e a falta de transportadores especializados também causa prejuízos. E compara o tratamento dado às caixas de cachaça ao descaso com malas em aeroportos e afirma que muitas vezes “jogam uma caixa de cachaça como se fosse um saco de arroz”.

O prejuízo pode ser alto. Uma única caixa de marca premium pode valer cerca de R$ 9,6 mil. Outro problema é a responsabilidade pelas avarias que, segundo Oliveira, produtores muitas vezes precisam assinar termos que isentam transportadoras de perdas ou danos.

“Imagina isentar em um prejuízo de quase R$ 10 mil? É muito pesado para o produtor”, comenta ele. A dependência do modal rodoviário agrava o quadro. A região não conta com malha ferroviária, e uma logística própria exigiria investimento milionário.

Governo estadual aposta em regularização e qualidade

Uma atualização na legislação estadual fundiária (decreto 48.883) removeu entraves que impediam a venda de lotes por dez anos. Com isso, produtores podem usar títulos de propriedade para acessar crédito. Uma das linhas é o "BDMG Verde Agro", com prazo de até 12 anos para investimentos em agricultura 4.0.

Na cachaça, o setor já usa bagaço da cana para energia e vinhaça para fertirrigação. O projeto "Alambique-Escola", da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), prevê investimento de R$ 900 mil para difundir práticas de economia circular e sustentável entre pequenos produtores. Em Salinas, o estado inaugurou um Centro de Referência em Qualidade da Cachaça, unidade voltada ao apoio técnico e à certificação.

A próxima etapa passa pela expansão do "Projeto Jaíba". A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) realiza consultas públicas para a concessão das etapas III e IV, com foco em atrair novos investimentos empresariais.