Com governo acelerando gastos, BC vai reforçar freio da Selic, diz Anbima
Os principais economistas da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) revisaram para cima as projeções para a taxa básica de juros, inflação e crescimento. O grupo consultivo da principal entidade do mercado brasileiro de capitais diz que o Banco Central terá que segurar a Selic alta para conseguir segurar os preços em parte porque o governo tem pisado mais forte no acelerador dos gastos.
O que aconteceu
Em semana de Copom, Anbima passa a ver menos espaço para corte de juros no Brasil. O grupo consultivo macroeconômico da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais revisou de 13% para 14% ao ano a taxa básica de juros Selic ao fim deste ano.
Grupo dos 26 principais economistas da maior entidade do mercado de capitais atualiza projeções econômicas antes de cada decisão de juros pelo Banco Central. Para a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) deste mês, que começou hoje e será concluída amanhã, os especialistas da Anbima revisaram cenários para juros, inflação, crescimento, dólar e contas públicas.
Inflação oficial fica mais longe do teto da meta. Nas projeções atualizadas, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) fechado para 2026 foi revisado de 4,9% para 5,4%, ainda mais acima do teto da meta de inflação perseguida pelo Banco Central, que é de 4,5%.
Já a economia vai crescer mais que o esperado. Para o PIB (Produto Interno Bruto), a mediana das projeções dos 26 economistas da Anbima foi revisada de 1,8% para 2%.
Do lado das contas do governo, as estimativas pioraram em relação ao tamanho da economia. Para o resultado do setor público nominal, ou seja, a diferença entre receitas e despesas, incluindo pagamento de juros, o saldo negativo esperado para este ano aumentou, de 8,58% para 8,84% do PIB.
Inflação não cede
Juros precisam ficar elevados por mais tempo porque inflação voltou a acelerar. Segundo o economista da Anbima, Fernando Honorado, também economista-chefe do Bradesco, o ambiente de preços tem piorado de forma consistente nos últimos meses, citando o IPCA acumulado em 12 meses, que saiu de 3,8%, em abril, .
A inflação está piorando, e as projeções do nosso grupo consultivo de macroeconomia refletem isso. Em março, a gente previa uma inflação fechando 2026 em 3,9%; agora projeta a mediana aponta para um IPCA já de 5,4%, muito acima do teto da meta. Merece atenção ainda que as projeções também pioraram para 2027 e 2028, mostrando uma preocupação maior com os efeitos secundários dos choques deste ano. Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco
Petróleo mais caro explica parte da inflação mais resistente. A guerra no Oriente Médio elevou a cotação do barril do tipo Brent em cerca de 40%, contaminando aqui no país os preços dos combustíveis, o que, por sua vez, encareceu outros produtos da economia, por meio dos custos de transportes, por exemplo.
Mercado de trabalho também ajuda a sustentar nível de consumo. A . Assim, vendas que dependem mais da renda que do crédito, como serviços às famílias ou alimentação fora do domicílio, são menos afetadas pelos juros altos. Mesmo com Selic elevada, esses negócios seguem com clientela disposta a pagar mais.
Governo pisa no acelerador
Governo ajuda a sustentar consumo em áreas que são afetadas pelos juros elevados. Segundo o Ministério da Fazenda, como o , que reduz juros para compra de veículos motoristas de aplicativos, taxistas, motociclistas e . Há ainda as ações sociais, como o e a ampliação da Farmácia Popular, que também ajudam a manter a demanda aquecida, aponta a economista do grupo da Anbima, Ana Paula Vescovi, também diretora de macroeconomia do Santander Brasil.
Desenrola Brasil aquece economia ao adiar problema do endividamento das famílias. O de quem estava com parcelas em atraso e nome negativado. Segundo o governo, . Essas pessoas então passam a ter espaço no orçamento para voltar a comprar parcelado. Segundo a economista do grupo consultivo macroeconômico da Anbima Cassiana Fernandez, também chefe de pesquisa do JP Morgan para América Latina, esse tipo de medida reduz a eficácia do trabalho do Banco Central.
Um dos principais canais de transmissão dos juros altos para a economia é por meio do crédito. Com medidas como essa, a política do Banco Central perde potência. É como se o Banco Central tivesse que pisar no freio enquanto o governo está pisando no acelerador. Cassiana Fernandez, chefe de pesquisa do JP Morgan
Governo alega que medidas buscam reduzir impacto da guerra no bolso do brasileiro. Em entrevistas sobre o assunto, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem afirmado que as ações lançadas neste ano buscam minimizar os efeitos do petróleo caro nos preços dos combustíveis e amenizar o impacto dos juros elevados sobre o orçamento das famílias. Segundo ele, as ações têm duração definida e os limites de gastos públicos definidos pelas metas fiscais serão respeitadas.
Eu não vou usar o argumento de que teve uma guerra para dizer que eu tenho que fazer uma série de ajudas ao programa Soberano ou por meio de combustíveis, que eu vou mudar minha regra fiscal, que eu vou abrir uma exceção. Nós não vamos fazer isso. Sigo com minha regra fiscal e vou bater minha meta fiscal. Dario Durigan, Ministro da Fazenda, em
Próprio governo elevou previsão de déficit primário em 2026. Na estimativa apontada no , divulgado na última segunda-feira, as despesas — sem contar pagamento de juros — vão superar as receitas em R$ 59 bilhões, ante déficit de R$ 57,8 bilhões na projeção anterior.
Banco Central tem alertado para potencial impacto de gastos do governo. No último comunicado do Copom, após reunião que reduziu a Selic de 14,75% para 14,50% ao ano, a diretoria do Banco Central já avisou que "segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza".
Ajuste necessário em 2027
Economistas da Anbima consideram revisão de gastos públicos para 2027. Segundo Fernando Honorato, o grupo dos 26 economistas da Anbima não chegou a aprofundar um debate sobre quais ajustes serão necessários nas contas públicas em 2027, ano de primeiro mandato de novo governo, mas consideram esse cenário como condição para as estimativas atualmente feitas pata ano que vem.
Independentemente de quem vença as eleições, um ajuste [fiscal] terá que ser feito. Por isso, acredito que atualmente temos projeções econômicas do Brasil para 2027 melhores que as projeções para 2026. Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco
Para 2027, Anbima projeta cortes de juros, com Selic recuando a 11,25% ao ano. A mediana para o IPCA está em 4,3%, ante 5,4% em 2026, com PIB de 1,60% (ante 2% em 2026) e dólar a R$ R$ 5,30, para um resultado primário nominal do setor público (incluindo gastos com juros) negativo em 8,41% do PIB — ante -8,84% em 2026.