Altman e Trump arquitetam dividir riqueza da IA nos EUA --mas só por lá
Descobrir que a não deve ter tirado o sono de ninguém. Aprendemos a não perguntar como as salsichas são feitas no mundo da IA. Mas, caso se concretize, será o momento decisivo de uma era e, ao menos tempo, uma pedra para lá de cantada.
O movimento une as trajetórias de duas pessoas, com interesses distintos, mas convergentes. De um lado, o cofundador da dona do ChatGPT Sam Altman e sua fervorosa crença na necessidade de um plano público de renda básica para remediar a vida trabalhadores, devastada pela IA —okay, a motivação não é essa, mas conto mais a seguir. De outro, o presidente norte-americano e a visão de que fazer "a América grande de novo" passa por uma associação umbilical com empresas de tecnologia, seja investindo nelas, seja recebendo uma graninha delas.
Não seria a primeira vez que um país detém parte de uma empresa —os exemplos são tantos que vou poupá-los. Nem é como se . Só que nunca lidamos com algo como a IA. Talvez não baste dizer, mas, em pouco tempo, ela forçou empresas e trabalhadores, governos e cidadãos a repensarem traços cruciais e consolidados de nossas vidas. Então pense em como ela reorienta como você se conecta ao mundo. Topa que um governo possa meter o bedelho nisso? Mesmo? Então vamos lá.
Há algumas semanas, soubemos que . Do jeito como a história foi reportada por BBC e ABC, a ideia teria partido do entorno de . Só que:
- Nova reportagem, dessa vez do Financial Times, mostra que ;
- Muita gente correu para calcular que, da avaliação de US$ 852 bilhões da OpenAI, US$ 42,5 bilhões seriam dos EUA;
- Se o valor não surpreende quem se acostumou com os bilhões da IA, a participação de Altman talvez cause estranheza. Não deveria, porém;
- Altman só propõe o arranjo, pois acredita que, dada a inevitabilidade da IA, é preciso fazer algo para distribuir seus ganhos com a população norte-americana. Para ele, a tecnologia criará volumes incalculáveis de riqueza que não serão repartidos igualmente. Faz parte da visão, ainda que implicitamente, a certeza de que a IA vai tirar o sustento de muita gente. Solução para isso, pensa Altman, será uma renda básica fornecida pelo poder público;
- Se isso dá um nó na cabeça de liberais críticos a instrumentos de distribuição de renda como o Bolsa Família, saibam que Altman está apenas sendo coerente com as próprias ideias;
- Ok, houve uma evolução. Inicialmente, ele falava em transferências diretas de dinheiro, mas abandonou o conceito e passou, recentemente, a defender a ideia de "propriedade coletiva" com base na distribuição de dividendos da riqueza gerada pela IA. Altman, aliás, coloca dinheiro do próprio bolso nessa visão.
- Entre 2020 e 2024, ele colocou US$ 14 milhões --e descolou doadores para investir mais US$ 60 milhões-- na OpenResearch, o maior experimento de renda básica dos EUA: de 3 mil participantes, mil receberam R$ 1 mil por mês durante três anos; o restante ganhou quantia menor para servir como grupo de controle. Como resultado, notaram os pesquisadores, os beneficiários até reduziram suas jornadas de trabalho, mas não largaram seus empregos: usaram o dinheiro, sim, para viver melhor, suprindo necessidades básicas, como saúde bucal, morando em bairros melhores e passando mais tempo com os filhos;
- Em 2023, Altman e Alex Blania criaram o Tool for Humanity, empresa por trás da World (ex-Worldcoin).Futurista, o projeto prevê a criação de identidades digitais (World ID) para pessoas atestarem ser de carne e osso em um mundo prestes a ser infestado por agentes de IA; com essa prova de humanidade, cidadãos de todo mundo seriam remunerados em criptomoedas (WLD) pelo trabalho executado por esses robôs; antes, precisariam ter o ;
- Sim, esse é o . Tudo em troca de terem os olhos fotografados, pensavam os espertos em busca de dinheiro fácil. Para a ;
- Mas Altman mudou sutilmente de ideia: enviar cheques aos atingidos pela tecnologia deixou de bastar e tampouco serve reconhecer o valor da humanidade; agora, ele defende que as pessoas sejam remuneradas com poder computacional da IA. A partir daí, cada um decide o que fazer com isso, se usa para tocar projetos pessoas ou profissionais, para criar memes ou vender para empresas procurando tokens.
Essa, é bom dizer, não é apenas a visão de Altman, mas tem sido tratada como a proposta de política pública da própria OpenAI. Está lá na , que sugere um fundo público nos moldes dos fundos soberanos do Petróleo, como o da Noruega.
Se as ideias de Altman são a "fome", do outro lado da mesa vemos Trump, com a "vontade de comer". Desde 2001, a intervenção da Casa Branca em setores considerados estratégicos em nome da segurança nacional é tão comum que já virou política de estado. George Bush iniciou —e Barack Obama continuou— o . Aqui e ali, o democrata impedia fusões de empresas e barrava a importação de chips ao menor sinal de um interesse chinês contemplado.
Mas Trump fez da excepcionalidade uma política de governo. para salvar da bancarrota uma icônica fabricante de chips com problemas diante do avanço de rivais asiáticas. , , e, por fim, . , e . O último lance foi com a própria OpenAI, .
Depois de tudo isso, ver o próprio fundador da empresa propor uma intervenção dos EUA nela deve soar para Trump como um alívio, algo como, "demorou, mas eles finalmente entenderam".
Segundo a reportagem do FT, a proposta de Altman não se resume à OpenAI. Vale para as outras empresas de IA dos EUA. Não sei se elas concordam com a ideia ou não, mas estamos falando de Anthropic, Google, Microsoft, Amazon, Meta? A ideia é recompensar os cidadãos com um quinhão do PIB gerado pela IA. Mas quais cidadãos?
Como não se tem notícia de que a mesma oferta foi feita ao presidente Lula, certamente não estamos falando de nós —.
As mudanças intempestivas feitas por executivos em suas plataformas digitais são motivo suficiente para qualquer um achar que, uma vez sentado ao volante, os EUA também vão querer fazer das suas.
Altman, no entanto, não quer só agradar Trump e, finalmente, tirar do papel sua ideia de distribuição da riqueza da IA. Quer atingir o coração do americano médio, . E que melhor solução para isso do que torná-los sócios da empreitada e beneficiários dos dividendos? Isso, claro, enquanto sobra para o resto do mundo a incômoda tarefa de lidar com aquilo que os americanos empurraram para debaixo do tapete.
O deputado Aliel Machado (PV-PR) finalizou seu parecer com alterações ao . O objetivo é para acompanhar de perto a atuação das big techs e impedi-las de tomar decisões que afetem a concorrência antes dos danos acontecerem e não depois, como ocorre hoje.
O PL nº 4.675/2025 cria a figura dos "agentes econômicos de relevância sistêmica" para atingir empresas de tecnologia que, de tão grandes, diminuem o espaço de concorrentes em segmentos diversos ao criar novos produtos, fazer mudanças em funções de suas plataformas, adquirir outras companhias ou mesmo alterar regras em seus serviços.
A Thomson Reuters ouviu centenas de profissionais de escritórios de direito e auditorias de risco. Elaborou com as respostas o relatório Future of Professionals 2026, que, diferente de outros estudos, não detecta apenas o nível de adoção da inteligência artificial no ambiente de trabalho. Também capta os efeitos que falta de estratégia de operacionalização dessa tecnologia causa sobre o negócio das empresas.
A pedido do Radar Big Tech, a Reuters separou insights relevantes sobre o Brasil.
Considerando que as lições extraídas do uso de IA entre advogados e auditores vale para outros profissionais de escritório, é possível criar a partir dos dados um mapa dos três sinais para trabalhadores identificarem que atuam em uma companhia sem plano claro para IA:
- Você usa IA levada de casa para o trabalho
- Talentos fazendo as malas para partir
- Clientes prestes a deixar o navio
DEU TILT
Toda semana, e conversam sobre as tecnologias que movimentam os humanos por trás das máquinas. O programa é publicado às terças-feiras no e nas. Assista ao episódio da semana completo.
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