A saia justa da perda de poder da FIFA

10 de Ago de 2026 - 13:45
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A saia justa da perda de poder da FIFA


Após a carta aberta conjunta e sem precedentes divulgada hoje pela AFC, pela Concacaf e pela UEFA, gostaria de compartilhar uma breve reflexão sobre o que acredito que isso muda politicamente dentro da FIFA.

Nos últimos meses, tenho escrito e comentado regularmente sobre a FIFA sob a ótica da política multilateral, da governança e das relações internacionais.

Não tenho experiência específica no futebol em si. Minha experiência reside em crises internacionais, diplomacia multilateral, *lobby* e política, acumulada ao longo de quase duas décadas em cargos de chefia na área de comunicação dentro do sistema das Nações Unidas. E é exatamente para esse campo que a história da FIFA parece estar caminhando cada vez mais.

Espero, portanto, que a reflexão a seguir seja de seu interesse.

A FIFA ainda conta com 211 votos. Mas a política por trás deles acaba de mudar.

A carta conjunta de hoje, assinada pela AFC, pela Concacaf e pela UEFA, pode ter alterado o equilíbrio político interno da FIFA muito mais do que o seu teor sugere à primeira vista.

A FIFA continua sendo uma organização composta por 211 associações-membro, cada uma com direito a um voto. Esse princípio é de suma importância — e, até agora, foi uma das razões mais fortes para não se presumir que a oposição dos líderes das confederações se traduzisse automaticamente em oposição por parte de seus membros individuais.

Uma vez que uma confederação declara publicamente uma "quebra fundamental de confiança" em relação à liderança da FIFA, torna-se consideravelmente mais difícil para as associações individuais — especialmente as menores — simplesmente adotarem a posição oposta.

Elas ainda mantêm seu voto. Mas o custo político desse voto mudou.

É por isso que continuo acreditando que o que acontece na FIFA precisa ser compreendido, cada vez mais, tanto pela ótica da política multilateral quanto pela do futebol.

Passei grande parte da minha vida profissional observando organizações internacionais operarem exatamente em meio a essa tensão: membros formalmente iguais, blocos regionais, alianças, influência, pressão e, por fim, votos individuais.

A FIFA é diferente das Nações Unidas, é claro. Mas a dinâmica política está se tornando notavelmente familiar.

E isso nos leva a uma questão mais complexa.

Em certo momento de uma crise institucional, a discussão sobre quem tinha razão ou estava errado inicialmente torna-se secundária. O que importa é se ainda resta confiança suficiente para que a instituição funcione de maneira eficaz e em prol do interesse público mais amplo.

Após a intervenção de hoje por parte de três confederações, tenho cada vez mais dificuldade em visualizar como a posição do presidente da FIFA poderá permanecer politicamente sustentável a longo prazo. Não se trata de um julgamento sobre o mérito de cada acusação ou divergência. É uma avaliação da realidade institucional.

Um presidente pode até conseguir reunir votos individuais suficientes para sobreviver. Mas sobreviver a uma votação e manter a autoridade política para liderar não são a mesma coisa.

Se uma parte significativa da organização deixa de confiar em sua liderança, toda decisão importante corre o risco de se transformar em um novo confronto; cada votação, em um novo teste de lealdade; e cada iniciativa, em uma nova batalha entre blocos.

Isso não é sustentável — e, o que é mais importante, não atende aos interesses do futebol mundial.

Assim, a questão que se coloca para as 211 associações da FIFA pode, em breve, transcender o simples apoio ou oposição a Gianni Infantino.

Pode passar a ser a de saber se a manutenção do *status quo* ainda atende aos melhores interesses da instituição que elas, coletivamente, possuem.

*Hervé Verhoosel é um ex-alto funcionário e porta-voz das Nações Unidas, com quase duas décadas de experiência em comunicação internacional, diplomacia e gestão de crises.*

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL