Usar IA de ponta virou uma espécie de jogo do tigrinho
Na sexta-feira passada, duas telas contavam a mesma história. Na primeira, os painéis das bolsas asiáticas afundavam no vermelho. O cenário na Nasdaq não era muito diferente e analistas logo ressuscitaram o fantasma de janeiro de 2025, quando a chinesa DeepSeek evaporou 589 bilhões de dólares do valor da Nvidia em um único pregão.
Na segunda tela, Xi Jinping subia ao palco da Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC), em Xangai, pela primeira vez em pessoa, para dizer que a IA "não deve ser uma apresentação solo de uma única nação, mas uma sinfonia".
O gatilho da queda nas bolsas foi o Kimi K3, modelo da chinesa Moonshot AI lançado dois dias antes: 2,8 trilhões de parâmetros e um desempenho que parece competir com os modelos de ponta dos Estados Unidos. A comparação com o momento DeepSeek foi imediata, mas há uma diferença que não deveria passar despercebida: dessa vez, o susto do mercado veio plugado a um projeto político. Enquanto as ações caíam, Xi anunciava a criação da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), com sede em Xangai e acordo constitutivo assinado por 29 países fundadores.
Se em janeiro de 2025 o noticiário cobriu uma inesperada revolução tecnológica chinesa, em julho de 2026 tecnologia, comércio e política andaram juntos nas manchetes.
Os modelos de fronteira deixaram de ser apenas produtos e viraram objeto de uma disputa que se trava em várias frentes. Os modelos chineses possuem, na largada, uma diferença por serem de código aberto, o que tornaria mais facilitada a sua adoção. Para além do terremoto causado pelo Kimi K3, a Alibaba já anunciou a nova versão do seu modelo Qwen 3.8, com uma modesta alegação de que ele perde apenas para o Fable 5. Se a estratégia americana é vender acesso expresso ao topo da montanha, a chinesa é distribuir mapas sobre como chegar lá.
Isso não significa que precisaremos de modelos de fronteira para tudo. Para a imensa maioria dos usos, como responder perguntas, resumir documentos, redigir e-mails, os modelos mais simples caminham para virar commodity, baratos e intercambiáveis como energia elétrica.
Mas na fronteira, onde se decidem programação avançada, pesquisa científica e agentes autônomos, a disputa está escancarada. E o fato de a China ter chegado perto mais uma vez começa a desenhar um roteiro que se repete: os americanos abrem vantagem, cobram caro por ela, e meses depois um modelo chinês aberto aparece entregando quase o mesmo por muito menos. Como se chegou nesse resultado são outros quinhentos.
O "cobram caro", por sua vez, merece uma notinha. Na segunda-feira entrou em vigor o novo modelo de uso do Fable 5, do Claude, o sistema mais avançado da Anthropic. Agora assinantes dos planos superiores ganham acesso limitado a 50% da capacidade padrão, enquanto os demais passam a consumir créditos para usar o modelo de ponta. E quanto custam os créditos que vão possibilitar entregar um relatório ou um projeto de programação mesmo? Ninguém sabe.
Ao começar uma tarefa, o Claude não estima quantos créditos ele vai engolir até o fim. Usar o Fable virou uma espécie de jogo do tigrinho: você aposta uma recarga, torce para o trabalho terminar antes dos créditos, e quando a tela pisca pedindo mais, já está emocionalmente comprometido demais para desistir. Com a diferença de que, no tigrinho original, pelo menos o valor da aposta é conhecido de antemão.
Não que o lado chinês esteja imune às suas próprias contradições. No domingo, a Moonshot suspendeu novas inscrições do Kimi K3 alegando que a demanda esgotou a capacidade computacional da empresa em 48 horas. O modelo é aberto, mas a infraestrutura para rodá-lo continua sendo um recurso escasso, e caro, dessa nova economia.
Ficam muitas perguntas para as próximas semanas. Trump vai reagir com novas restrições ao uso dos modelos abertos chineses? E, se sim, como se proíbe algo que qualquer um pode baixar? Quantos países, especialmente do Sul Global, vão embarcar na abertura das porteiras do open source, agora que ela vem embrulhada em organização internacional com sede em Xangai e 5.000 vagas de treinamento técnico prometidas pelo anúncio chinês? Por fim, será que na IA o código aberto pode assumir um protagonismo global?
O histórico recomenda cautela. O momento DeepSeek de 2025 foi rapidamente engolido pelo fascínio com a nova geração de modelos de fronteira americanos, como o Fable, e o dinheiro (ou a promessa dele) voltou a se direcionar para o mesmo lugar de sempre. Pode acontecer de novo, mas cada rodada dessa dança vai revelando uma coreografia: a economia dos tokens vai ficando mais visível, e o que ela revela não é bonito. Pagar caro por token sem saber quanto se está gastando só se sustenta enquanto não houver alternativa. Os modelos chineses chegam exatamente para balançar essa premissa.
A chacoalhada no modelo de negócio da IA, portanto, pode estar menos nos benchmarks e mais na fatura. Na sexta-feira, as duas telas contavam a mesma história. A questão é qual delas o mercado vai continuar olhando. Porque enquanto uma metade do mundo aposta no tigrinho, a outra acaba de perceber que dá para simplesmente abrir a jaula.
Opinião
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