Trump agora quer controle da IA. O que o Brasil pode aprender?

6 de Mai de 2026 - 10:45
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Trump agora quer controle da IA. O que o Brasil pode aprender?

Coisa de dois anos atrás, recebi um convite de uma das principais empresas de IA para fazer parte do seu "red team", um grupo de pesquisadores independentes que tem o trabalho de avaliar os modelos de IA antes de chegarem ao público.

O trabalho consiste em tentar quebrar a IA de diferentes formas. Fazê-la dizer o que não deveria, vazar dados, contornar as próprias salvaguardas, produzir conteúdo perigoso.

As empresas de IA pegaram essa ideia da área de cibersegurança por saberem que sozinhas não conseguem antecipar todos os problemas e erros de seus produtos.

O trabalho dos red teams ganhou tanta importância que, em 2023, o presidente Biden assinou uma ordem executiva transformando essa prática técnica em política pública. Empresas que treinassem modelos de IA gigantescos com risco às pessoas ou à segurança nacional teriam que notificar o governo federal e compartilhar os resultados dos testes de red team. O Estado queria se antecipar a uma tecnologia que pudesse impactar a sociedade e mexer no jogo político.

Mas a história mudou com a eleição de Trump. Em 2025, logo nos primeiros dias de seu mandato, o presidente revogou a ordem executiva. No mês seguinte, o vice-presidente JD Vance disse no Summit de IA de Paris que o futuro da IA não seria vencido por quem ficasse tão preocupado com regulação e segurança.

Trump também se colocou contrário aos diferentes projetos de lei estaduais de regulação. É por isso que 2025 ficou marcado como o ano da promessa de desregulação da IA pelo governo americano.

Mas agora, a coisa está mudando. De novo.

De acordo com uma matéria do New York Times, a Casa Branca estaria discutindo algum tipo de supervisão governamental sobre os modelos de IA. E ontem o governo fechou acordo com algumas empresas de tecnologia, como Microsoft, Google e xAI, para avaliar os novos modelos antes do lançamento público.

Os primeiros testes pré-lançamento já estão acontecendo.

Essa virada tem dois ingredientes. O primeiro é técnico. O modelo Mythos, da Anthropic, identificou milhares de vulnerabilidades em softwares de uso geral durante os testes internos.

Ainda não dá para saber exatamente o que é capacidade real e o que é exagero de marketing, mas o fato chamou atenção do governo e da NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA).

O segundo é político e mais decisivo. A sociedade americana parece estar se cansando da narrativa libertária do Vale do Silício.

Como contei em outra coluna, os . E em redutos da base de Trump, eleitores estão se rebelando contra data centers que sugam água, energia e prometem empregos que não chegam.

E o Brasil nessa história?

Vale primeiro entender melhor o movimento dos EUA, porque ele não é exatamente uma regulação. É algo mais próximo de uma tutela, de uma supervisão estratégica.

Os acordos com as empresas são voluntários e não impedem o lançamento dos modelos. Também ainda não há obrigações legais novas, nem direitos do cidadão diante da IA.

O que o governo americano está fazendo é ganhar acesso antecipado a uma tecnologia que pode redefinir capacidades militares e econômicas. Isso interessa ao Pentágono e à disputa com a China muito mais do que ao americano comum, embora ajude a transmitir uma narrativa para acalmar os ânimos da população.

O Brasil tenta um caminho diferente. O debate sobre o Marco Regulatório da IA ainda segue no Congresso. Não sou contrário a uma regulação que seja bem desenhada, mas o que falta por aqui, como já defendi em outras oportunidades, é uma camada técnica capaz de avaliar o que se quer regular.

Um primeiro caminho seria institucionalizar red teams públicos para testar os modelos antes que cheguem ao mercado, não só em segurança, mas também em vieses culturais e linguísticos locais (A Unesco tem até um guia sobre isso). Essa estratégia é importante porque salvaguardas que funcionam em inglês falham em português, e vieses que ninguém vê no Vale do Silício aparecem aqui.

Sem falar que com red teams públicos podemos gerar evidências sobre os impactos sociais, culturais e econômicos no país para desenhar pontos específicos de uma lei mais coerente. Enquanto os EUA tutelam e a Europa regula, talvez o Brasil possa aprender a testar antes de saber o que cobrar.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.