Só estender e pronto: como funciona o pagamento com biometria da mão

22 de Jul de 2026 - 10:15
 0  3
Só estender e pronto: como funciona o pagamento com biometria da mão

Ainda neste ano, vão começar testes no país de uso de pagamento pela biometria da mão. Em vez de ficar carregando um cartão por aí ou mesmo seu celular, você só vai estender a mão sobre uma máquina que vai validar a operação.

Como funciona

Tecnologia de "leitura da mão" é parceria entre a brasileira Positivo e a chinesa Tencent. A companhia brasileira apresentou no início do ano maquininhas com a tecnologia em eventos do setor de varejo e agora pretende realizar testes em varejos físicos para demonstrar o funcionamento no último trimestre do ano em varejistas e supermercados. A ideia é servir para identificação de clientes de programas de fidelidade e, posteriormente, para pagamento via Pix ou substituindo o cartão.

Máquina que permite pagamentos com a mão tem sistema inteligente de reconhecimento. O diferencial dela é que há uma câmera, mais uma câmera com infravermelho e um flash. O processo ocorre da seguinte forma:

  • Câmera RGB: tira múltiplas fotos da palma da mão, capturando as linhas da palma
  • Câmera infravermelha: lê a disposição única dos vasos sanguíneos da mão
  • Flash: auxilia a câmera infravermelha a checar se há oxigenação (se é a mão de uma pessoa viva, por exemplo)

Os sensores trabalham em conjunto para criar perfil único da pessoa. Segundo a Positivo, a câmera RGB capta a superfície da palma da mão, enquanto a câmera infravermelho capta o "mapa vascular do indivíduo", garantindo um padrão de segurança de identificação "superior à biometria facial" e "sem constranger o usuário a expor seu rosto".

Como é na prática?

Primeiro, é feito o cadastro da mão. Para isso, é feita a leitura da palma colocando-a sobre os sensores, e atribuindo a mão à pessoa com um cadastro. O processo leva segundos — o mais complicado foi digitar o nome da pessoa. No varejo, a Positivo acredita que essa conexão será auxiliada pela bandeira do cartão, e deverá acontecer na primeira vez que o cliente quiser usar o pagamento pela mão.

Processo de pagamento envolve só abrir a mão sobre o sensor. Após o vendedor colocar o valor na máquina, o comprador deve colocar a mão aberta sobre o sensor, e a operação é finalizada em segundos.

Você pode, por exemplo, escolher a mão esquerda para pagamentos por Pix, e a mão direita para validar pagamentos com cartão.
Norberto Maraschin, vice-presidente de negócios da Positivo, em conversa com Tilt

A empresa cita a conveniência como um dos principais usos da tecnologia em pontos físicos de alto fluxo de pessoas. Uma vez tendo a palma cadastrada, seria possível efetuar pagamentos sem precisar de um cartão ou do celular. Para o varejo, a vantagem é na rapidez do processo, evitando filas, e na segurança, pois ainda não há registros conhecidos em larga escala de fraudes com a tecnologia.

Por outro lado, há o desafio da adoção. O uso da tecnologia envolveria a troca do equipamento das lojas (a combinação de sensores torna a maquininha mais cara), além da criação de uma base de dados centralizada criptografada de informações de palmas da mão, de modo que o sistema funcionasse em diferentes sistemas.

Para Jean Paul Rebetez, da Gouvêa Consulting (consultoria no ramo de varejo), a adoção da forma de pagamento é interessante, mas levanta dúvidas. Para ele, existe uma tendência global de eliminar interfaces, tornando a experiência de compra mais fluida. O especialista diz que o desafio é a conveniência do equipamento na atividade do varejo.

Atualmente, o pagamento é uma das coisas mais rápidas no processo de compra, seja com cartão por aproximação ou Pix. O que leva mais tempo no processo é o manejo e conferência dos produtos. Fora isso, historicamente o varejo é pragmático: adota tecnologias para cortar custos ou aumentar vendas. A troca de maquininhas antigas por novas pode ser uma barreira.
Jean Paulo, head de estratégia e gestão da Gouvêa Consulting

A título de curiosidade, a Amazon anunciou o encerramento do seu sistema de biometria da palma da mão. Chamado Amazon One, o sistema, usado para compras em lojas físicas da companhia nos EUA, foi encerrado em junho. Além de pagamento, sistema era usado para identificação (impedindo que menores comprem bebidas alcoólicas) e juntar pontos em programas de vantagens. A empresa citou como justificativa a baixa adesão.

Além do pagamento

Pagamento rápido e sem precisar de cartão são os chamativos da tecnologia, mas a Positivo mira outra possibilidade: a autenticação de identidade.

Atualmente, uma das formas mais comuns de validação de identidade é o uso de biometria facial. Presente em vários processos, a opção é usada na abertura de contas ou até mesmo para usar serviços do Gov.Br, com a facilidade de a captação ser feita com qualquer celular. Embora sistemas modernos de biometria facial contem com mecanismos de detecção de vivacidade, pesquisadores e empresas de segurança .

A Positivo vê potencial no futuro para que a palma da mão possa ser usada para prova de vida. "O sistema poderia ser usado pelo governo para fazer prova de vida de benefícios sociais, evitando fraudes ou que alguém receba em nome de outra pessoa", explica Norberto, da Positivo. Outro ponto é o sistema de cashback, previsto para funcionar em 2027 com a reforma tributária.

Com a reforma tributária, pessoas de baixa renda poderão receber cashback ao comprar alguns produtos. A palma da mão poderia ser uma forma de identificar a pessoa. Com essa autenticação feita, esse crédito iria direto para o beneficiário, evitando que esse dinheiro possa ser fraudado ou ir para terceiros.
Norberto Maraschin, vice-presidente de negócios da Positivo, em conversa com Tilt

Palma da mão poderia ser usada para diversos fins. Controle de acesso em shows, prédios e até para permitir que pessoas passem pela catraca de meios de transporte, evitando filas. Na China, por exemplo, a autenticação de pessoas pela mão é usada tanto para pagamento como para entrada em trens, por exemplo, virando uma opção rápida de acesso.

Testes no Brasil não são novidade, porém foram feitos apenas em ambientes "fechados" até então. A Ingenico, uma das líderes globais no ramo de maquininhas, conta com tecnologia semelhante e realizou testes no ano passado em um laboratório da Cielo, em São Paulo. Na região, a empresa realiza testes no Uruguai junto com a Mastercard, em um processo em que os clientes fazem o processo de cadastramento da palma.