Selic a 14% frustra indústria, anima comércio e acende alerta de recessão

5 de Ago de 2026 - 21:15
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Selic a 14% frustra indústria, anima comércio e acende alerta de recessão

A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central de , fixando a Selic em 14% ao ano, dividiu opiniões. Se por um lado o alívio no crédito anima o varejo às vésperas das festas de fim de ano, por outro, a indústria reclama do ritmo lento. No mercado financeiro, a leitura é de que o Brasil conviverá com juros altos por um bom tempo, e especialistas já soam o alarme para os impactos na economia real.

O que você precisa saber

Para Felipe Salto, economista e colunista do UOL, a manutenção dos juros em patamares elevados por um longo período acende um sinal amarelo para a atividade econômica. Ele alerta que as atenções não devem ficar restritas apenas ao controle da inflação.

"Eu chamo a atenção para a gente começar a ficar de olho no risco para a outra ponta. O risco de ter uma recessão no ano que vem", adverte Salto. O colunista explica que a combinação dessa alta carga de juros prolongada com o inevitável ajuste fiscal projetado para o próximo ano pode gerar um impacto severo.

O risco é você ter um baque na economia, que depois é muito difícil de reverter Felipe Salto, colunista do UOL e economista-chefe da Warren Investimentos

Apesar do alerta, Salto considera que o Banco Central está agindo com prudência, mesmo que a "passos de tartaruga". Como a taxa ainda está muito elevada, ele ressalta que "tem gordura" para o BC continuar cortando os juros no atual ritmo de 0,25 ponto percentual, monitorando os riscos internos e externos.

Indústria reclama de "asfixia" e aponta juros desproporcionais

A insatisfação com a lentidão nos cortes ecoou fortemente nas entidades de classe ligadas à produção. A CNI (Confederação Nacional da Indústria) classificou a taxa atual como desproporcional à trajetória de queda da inflação e estimou que a Selic ideal estaria na casa dos 10,4% — ou seja, 3,6 pontos percentuais abaixo da meta atual.

Para a entidade, os juros funcionam hoje como um "imposto invisível". "Não há justificativa compreensível para a manutenção da taxa de juros em um nível tão alto. A decisão do Banco Central piora a perspectiva para a indústria e compromete gravemente a renda das famílias", criticou Ricardo Alban, presidente da CNI.

A FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) e a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) adotaram tom semelhante. Ambas consideram o corte positivo, mas insuficiente para destravar os investimentos, cobrando também maior responsabilidade fiscal do governo. Já no comércio, a perspectiva é mais otimista. Para a CDL/BH (Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte), juros menores fortalecem o consumo e preparam o terreno para datas cruciais como a Black Friday e o Natal.

"Ajuste fino", crédito caro e recado ao agronegócio

No mercado de crédito, a avaliação é que o corte está longe de representar um alívio real para o caixa das empresas. Para Amanda Coura, fundadora da Zera, a decisão do Copom foi apenas um "ajuste fino", e não o início de um cenário de afrouxamento.

Ela lembra que, como grande parte dos empréstimos acompanha o CDI (que anda colado na Selic), as despesas financeiras continuarão pressionando os resultados das companhias. O cenário exige adaptação até de setores robustos, como o agronegócio. "Com os juros pressionando o custo das operações, a customização das estruturas ganha ainda mais relevância. Nunca foi tão importante que as empresas do agro fortaleçam sua governança e mantenham um planejamento financeiro rigoroso", alerta Amanda, destacando o papel vital do mercado de capitais para financiar o setor de forma pulverizada e fugir da dependência dos empréstimos tradicionais.

Mercado financeiro elogia cautela e comunicação mais clara

Entre os economistas do mercado financeiro, a avaliação é positiva. A percepção é de que o Banco Central acertou ao adotar uma postura cautelosa e dependente dos próximos dados, sem se comprometer com novos cortes.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, elogiou a clareza do comunicado do BC desta vez, que evitou os ruídos da reunião anterior. Para ele, o Comitê fez bem em não amarrar decisões futuras, já que os riscos continuam assimétricos para cima — puxados pela desancoragem das expectativas de inflação, conflitos no Oriente Médio e eventos climáticos que podem encarecer os alimentos. "Dado esse nível de incertezas, o mais importante é não se comprometer e não reduzir os graus de liberdade que o BC terá nos próximos 45 dias", explica Sung.

Essa visão é compartilhada por Rodolfo Margato, economista da XP, que notou a mudança de tom do BC em relação à atividade econômica — deixando de falar em "aceleração" para reconhecer "moderação". A XP projeta que a Selic deve estacionar nos atuais 14% até o fim do ano. Da mesma forma, Marco Antonio Caruso, do Santander Brasil, resume a nova fase do Copom: o ciclo de cortes continua vivo, mas o Banco Central agora avança "checkpoint by checkpoint".

Como o corte na Selic já era esperado, o mercado financeiro não deve ter grandes oscilações nesta quinta-feira (6) como reação. "Acredito que amanhã há pouco espaço na bolsa para grandes oscilações que venham apenas do tema Copom, já que não veio nenhuma surpresa. As tendências de curto prazo devem se manter em dólar, juros e bolsa", avalia Augusto Parente, sócio da AW Capital.