Plano trilionário de Musk para a SpaceX esbarra no Brasil em 5 pontos
A SpaceX, do multibilionário Elon Musk, deu início à temporada das aberturas de capital das empresas de inteligência artificial. No rastro dela virão OpenAI e Anthropic.
Muito mais complexa do que as donas de ChatGPT e Claude, a . Ora monumental por atuar em áreas tão díspares quanto complementares como internet via satélite, redes sociais e IA. Ora desengonçado por se equilibrar entre a defesa das ofensivas imagens de IA que desnudam mulheres e a celebração do retorno à Lua. Até a última semana, as entranhas desse gigante eram um mistério, mas agora, graças a , temos uma visão detalhada (veja mais abaixo).
Para quem gosta de resumo, aí vai um: se ficou famosa pelos foguetes reutilizáveis que dão ré, a SpaceX queima bilhões de dólares com IA a ponto de ter data centers ociosos e ganha dinheiro mesmo é com internet. Para a companhia, seu mercado é potenciais US$ 28,5 trilhões. Se der certo, a abertura de capital da empresa será a maior já realizada e Elon Musk será o primeiro trilionário do mundo. Mas, até essa promessa virar realidade, há riscos para contornar, e o Brasil aparece em cinco encruzilhadas. E uma coisa é certa: os entreveros com as instituições brasileiras assumirão maior peso político e passarão a mexer com os ponteiros do futuro de um dos maiores conglomerados em formação do Planeta.
O que rolou?
Já considerando o resultado retroativo da xAI, , a SpaceX faturou US$ 18,67 bilhões, mas amargou um prejuízo líquido de US$ 4,94 bilhões em 2025. Mas suas áreas internas se comportam de forma distinta:
- O segmento de IA (xAI, Grok e X) queima caixa de forma agressiva: faturou US$ 3,2 bilhões, mas registrou perdas operacionais de US$ 6,35 bilhões em 2025;
- Também investe alto: US$ 12,727 bilhões no ano passado e, só no primeiro trimestre deste ano, US$ 7,72 bilhões;
- O segmento espacial, a SpaceX, gerou US$ 4,09 bilhões em 2025, mas teve um rombo operacional de US$ 657 milhões, fortemente pressionado pelos (US$ 3,8 bilhões em 2025 e US$ 1,052 bilhão em 2026);
- Já a Starlink é a galinha dos ovos de ouro. Em 2025, gerou US$ 11,39 bilhões de receita e US$ 4,42 bilhões de lucro operacional, um crescimento de 49,8% anual. É o único segmento genuinamente lucrativo e o que sustenta toda a estrutura.
Por que é importante?
Seja como protagonista ou coadjuvante de luxo, o Brasil aparece em diversos pontos do prospecto enviado pela SpaceX à SEC como um fator de risco político e regulatório, nas seguintes vertentes:
1. Mercado relevante para Starlink
A Starlink tem 10,3 milhões de clientes no mundo, dos quais 704 mil estão no Brasil —não raro, no entanto, executivos da empresa falam em 1 milhão de brasileiros atendidos. Com quase 7% da base de usuários, o país é um dos principais mercados para a firma de internet de Musk. Embora o prospecto não divulgue receita por país, perder espaço no mercado brasileiro afetaria o motor financeiro da SpaceX.
A Starlink opera no Brasil com autorizações concedidas pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). Não obter ou manter licenças internacionais pode inviabilizar o negócio de conectividade, pontua a SpaceX no prospecto enviado à SEC. No caso do Brasil, , mas estão pendentes análises de expansão de sua constelação satelital. Fora isso, representantes brasileiros nos fóruns da UIT (União Internacional das Telecomunicações) são críticos à formação de frotas volumosas de satélites, algo visado pela Starlink, pois comprometem a atuação de rivais e inviabilizam outras atividades, como a observação espacial.
Se os ganhos potenciais com a exploração espacial são avaliados em US$ 370 bilhões e os com a conectividade em US$ 1,6 trilhão, é na IA que a SpaceX vê uma verdadeira mina de ouro: US$ 26,6 trilhões. Mas, à medida que agências regulatórias mundo afora apertam o cerco contra a xAI devido à proliferação de nudes sintéticos, o . . Além disso, o , que atingem em cheio a atuação do Grok, e deputados discutem diretrizes para IA no país. Não cumprir as regras brasileiras já colocou a xAI em maus lençóis por aqui, e normas adicionais estão a caminho.
O histórico recente de embates entre o STF (Supremo Tribunal Federal) e Elon Musk criou um precedente jurídico prejudicial para o grupo. No prospecto, a SpaceX cita nominalmente os conflitos no Brasil para evidenciar o risco de a atuação das empresas do grupo comprometerem a situação financeira de suas irmãs. O Judiciário brasileiro já demonstrou disposição para congelar contas bancárias e ativos financeiros da Starlink para quitar penalidades aplicadas à plataforma X, sob a tese de constituírem um "mesmo grupo econômico de fato". Na época, o elo entre elas era Elon Musk. Agora, estão de fato sob o mesmo teto. Para futuros acionistas públicos da SpaceX, o Brasil figura como jurisdição de alto risco, disposta a desconsiderar a personalidade jurídica. Ou seja, onde os lucros da Starlink podem ser retidos para arcar com litígios das divisões mais ruidosas da SpaceX.
Para a SpaceX, um risco ao seu sucesso é a concorrência com novos entrantes no mercado de constelações LEO (Órbita Terrestre Baixa). Por aqui, o governo federal busca alternativas. Já e a chinesa Spacesail. O fomento estatal brasileiro a competidores representa ameaça direta à expansão de mercado da Starlink. Além disso, novos rivais são autorizados a atuar no Brasil na mesma faixa da empresa de Musk, caso da norte-americana AST SpaceMobile. Isso pode estrangular não só o fornecimento de internet residencial da SpaceX, mas também sua mais nova operação, a conexão direta a smartphones.
Reportagem
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