Nicolelis viu mulher paralisada voltar a andar na China: ?emocionante?

30 de Jul de 2026 - 07:45
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Nicolelis viu mulher paralisada voltar a andar na China: ?emocionante?

(Toda semana, e conversam sobre tecnologia no podcast. O programa vai ao ar às terças-feiras no, no, no e no. Nesta semana: Miguel Nicolelis: ; ; )

Para Miguel Nicolelis, ter visto uma jovem voltar a andar no meio de uma praça chinesa lotada de gente foi uma das cenas mais emocionantes de sua vida. Em entrevista a , o podcast do para os humanos por trás das máquinas, o neurocientista apontado como pai da interface cérebro-máquina conta como a China tem apostado nessa tecnologia para restaurar os movimentos de pessoas paralisadas.

A gente sabe, desde 2024, que existem aproximadamente 3,4 bilhões de pessoas sofrendo de pelo menos uma das 37 mais prevalentes doenças neurológicas do mundo. E a China provavelmente tem próximo de 450 milhões de pessoas com problemas neurológicos e eles sabem que não há sistema de saúde público nem privado no mundo capaz de lidar com isso. Eles estão à procura de novas abordagens terapêuticas para tratar esses pacientes.
Miguel Nicolelis

A China incluiu as interfaces cérebro-máquina como prioridade no 15º plano quinquenal, que define as prioridades econômicas do país para os próximos cinco anos. Equipamentos desse tipo captam ou estimulam sinais cerebrais para conectá-los a equipamentos que ajudem pessoas paralisadas a reaver os movimentos.

A interface cérebro-máquina passou a ser uma prioridade de saúde pública. E é curioso falar isso, porque o maior sistema público de saúde do mundo, por incrível que pareça, é o brasileiro. E o governo brasileiro não tem a menor vocação e interesse de usar a interface cérebro-máquina no país.
Miguel Nicolelis

Ao falar de um projeto feito em parceria com um hospital de neurologia de Pequim, Nicolelis descreve um estudo clínico com 19 pacientes na China, somado a casos no Brasil, que chegou a 26 participantes. Ele afirma que, pela primeira vez na área, houve grupo controle e comparação com fisioterapia convencional.

E, pela primeira vez na área de interface cérebro-máquina, nós tivemos um grupo controle onde fizeram a fisioterapia normal dos pacientes e um grupo experimental. E, quando terminou os nove meses do estudo, cinco pacientes do grupo controle, que não tinham tido melhora alguma em comparação ao grupo experimental, onde a melhora clínica foi estatisticamente significativa, as pessoas [passaram pelo experimento e] voltaram a andar.
Miguel Nicolelis

O ponto mais marcante, segundo ele, veio quando a equipe levou uma das pacientes para andar fora do laboratório. A jovem chegou de cadeira de rodas a uma praça cheia para depois se levantar e caminhar, um momento que parou quem passava, diz ele.

Foi uma das coisas mais emocionantes, porque ela chegou na cadeira de rodas, uma moça de uns 20 e poucos anos. Ninguém deu bola. De repente, a gente pôs o carrinho, esses andadores de idoso, na frente dela, sem exoesqueleto, sem nada. A menina levanta e começa a andar. Parou a praça inteira. Ela foi andando cem metros, até a entrada do templo. É uma das cenas mais emocionantes.
Miguel Nicolelis

Nicolelis afirma que o método chama atenção por ser "não invasivo", "barato" e "seguro", com potencial de ser escalado. Para ele, quando uma tecnologia entra no plano quinquenal chinês, ela sai do papel.

Eles perceberam como é não invasivo, é barato, é seguro e pode ser ampliado para milhões de pessoas. E lá é o seguinte: se eles aceitam, eles fazem. Quando eles põem no plano quinquenal, não tem esse "não vai poder fazer". Se tá no plano quinquenal, acontece.
Miguel Nicolelis

Outra prioridade incluída no plano quinquenal é a inteligência artificial, que, segundo o neurocientista, ganha outro propósito para o governo chinês: melhorar a vida cotidiana, não só impulsionar negócios.

O governo chinês, que tem uma abordagem completamente diferente da inteligência artificial, a inteligência artificial lá não é para aumentar a valuation de startup. É para melhorar a qualidade de vida da população, em todos os sentidos.
Miguel Nicolelis

Falar em IA com consciência só gera medo e amplia valor de big techs, diz Miguel Nicolelis

Atribuir consciência humana a modelos de inteligência artificial não passa de estratégia para gerar medo entre as pessoas e ampliar o valor de mercado das empresas por trás desses serviços, afirma o neurocientista Miguel Nicolelis.

Desde o início da área, os proponentes da inteligência artificial inventam, mentem, usam o hype. Eles usam isso por duas razões básicas. Uma é para instalar o medo. Porque o medo faz com que você ganhe poder. Quem diz que detém um objeto, uma máquina, um instrumento consciente -que ninguém sabe definir, nem eles, nem ninguém-- detém um poder enorme. E segundo: isso aumenta o 'valuation' da sua empresa. Quanto mais lorota você contar, e como o mundo hoje acredita em todos os maiores loroteiros da história, o seu 'valuation' aumenta
Miguel Nicolelis

'Estamos sendo incorporados pela IA, diz o neurocientista Miguel Nicolelis

A inteligência artificial generativa virou parte da economia da atenção e, ao mesmo tempo, um sistema que aprende com as nossas perguntas.

Diante do treinamento dos modelos de IA requererem não só milhões de dados, mas passarem a incorporar também a interação das pessoas, o neurocientista Miguel Nicolelis sustenta que a relação não é só de uso. A tecnologia passa a "absorver" o comportamento humano e a capturar nossa produção intelectual, diz ele.

O cérebro humano chegou até aqui porque incorporava como parte dele as ferramentas que ele criava, ou seja, as tecnologias. Então, toda a história da humanidade se reduz à produção de tecnologias que foram assimiladas para expandir, de acordo com o cérebro, a mente humana, o footprint humano no mundo. É a primeira vez que nós criamos uma tecnologia que está revertendo o processo. Nós estamos sendo assimilados.
Miguel Nicolelis

Nicolelis sobre chip cerebral de Musk: 'Não dá para competir com a China'

A Neuralink pode "sumir do mapa" em poucos anos por não conseguir competir com a China, além de esbarrar em limitações biológicas, financeiras e de viabilidade, afirma o neurocientista Miguel Nicolelis, em entrevista a Deu Tilt.

Se estivermos aqui, daqui a três, cinco anos, e você me perguntar, 'por que a Neuralink faliu?', eu vou falar, 'bom, era óbvio, todo mundo que é do ramo sabe'. Não tem como competir. Não interessa o que o Elon Musk faça com a Neuralink. Se a China decidir realmente, e eu acho que eles já decidiram, jogar o peso tecnológico do país e o investimento -que são bilhões de dólares-- a Neuralink não vai nem estar aqui. Ela pode ser viável politicamente, como você falou. Só que ela não é viável economicamente.
Miguel Nicolelis

Pai da tecnologia das interfaces cérebro-máquina, Miguel Nicolelis é reconhecido internacionalmente por pesquisar há quase 40 anos como as áreas da robótica, inteligência artificial e neurociência podem convergir para restituir a capacidade de movimentos de pessoas com paralisias neurológicas.

DEU TILT

Toda semana, e conversam sobre as tecnologias que movimentam os humanos por trás das máquinas. O programa é publicado às terças-feiras no e nas. Assista ao episódio da semana completo.