Neymar sabe que esta é sua última Copa. E você, sabe quando é a sua?

20 de Jun de 2026 - 10:30
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Neymar sabe que esta é sua última Copa. E você, sabe quando é a sua?

Neymar está na Copa do Mundo. Machucado. Treinando separado. Sem data para entrar em campo. Com 34 anos e o corpo cheio de cicatrizes de quem já passou por lesões que encerrariam a carreira de qualquer outro jogador.

Ele sabe que talvez não exista outra.

E tem algo muito poderoso em saber que talvez seja a última vez.

Quando eu era trainee na PepsiCo, um diretor de operações entrou na sala e disse: "Precisamos mandar um de vocês para o Chile. Precisa falar espanhol."

A verdade é que eu não falava espanhol. Arranhava. E muito mal. Mas alguma coisa naquela hora me disse que se eu não levantasse a mão ali, naquele segundo, a chance ia embora e não voltava.

O diretor me escolheu. Não só pelo espanhol que eu não tinha, mas pelo que eu vinha entregando até ali.

Cheguei ao Chile falando portunhol. E mesmo assim, uma das minhas primeiras missões foi contratar 15 trainees para a operação. Eu, que mal falava espanhol, entrevistando candidatos em espanhol. Quando alguém respondia rápido demais, eu pedia: "Hable más despacio, por favor." O time caía na risada. Porque "despacio" pode significar "devagar" ou "lentamente", e eles faziam questão de interpretar do jeito errado. Repetiam tudo em câmera lenta, palavra por palavra, morrendo de rir.

Mas eu tinha muita vontade de fazer acontecer. E o time percebeu. Quando a pessoa do outro lado vê que você está se esforçando de verdade, ela encontra um jeito de te ajudar. Aprendi espanhol na marra, entre reuniões, almoços e risadas do meu sotaque. Anos depois, morei no Chile por dois anos. Depois na Espanha. Hoje falo espanhol fluente.

Tudo isso porque levantei a mão numa sala de reunião sem ter certeza de nada. A única certeza era de que aquela porta não ia ficar aberta por muito tempo.

Neymar está vivendo algo parecido. Só que na frente do mundo inteiro.

Ele poderia ter ficado em casa. Com 34 anos, com o histórico de lesões que tem, ninguém questionaria se decidisse não ir. Poderia ter protegido o legado, evitado o risco de fracassar na maior vitrine do esporte. Poderia ter dito que o corpo não aguenta mais.

Está ali. Na concentração. Fazendo fisioterapia duas vezes por dia. Esperando a chance de entrar em campo nem que seja por 20 minutos.

Ao longo da carreira, vi muita gente talentosa deixar a oportunidade passar. Não por falta de competência, mas por excesso de cautela, por esperar o momento perfeito, por achar que haveria uma próxima vez.

Às vezes tem. Às vezes não tem.

No mundo corporativo, ninguém te avisa que aquela reunião era a última chance, que aquela vaga não vai reabrir, que aquele momento deveria ter sido tratado como a sua última Copa.

A diferença do Neymar é que ele sabe. Ele tem essa clareza brutal que a maioria de nós não tem. E mesmo sabendo, mesmo machucado, mesmo sem garantia de nada, ele está ali.

Quando eu levantei a mão naquela sala, não sabia que era a última vez que aquela pergunta seria feita. Só soube depois. E se eu tivesse hesitado por dois segundos a mais, outro teria levantado antes.

Neymar pode entrar em campo nesta Copa e ser brilhante. Pode entrar e não render o que esperavam. Pode nem entrar. Mas ele está ali. E estar ali, sabendo que talvez seja a última vez, já diz tudo sobre o que ele é.

Neymar joga esta Copa como quem sabe que talvez não exista outra. A maioria de nós descobre depois que deixou passar.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.