Mundo da tecnologia tenta convencer Igreja que IA pode ser filha de Deus

26 de Mai de 2026 - 05:45
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Mundo da tecnologia tenta convencer Igreja que IA pode ser filha de Deus

(Toda semana, e conversam sobre tecnologia no podcast. O programa vai ao ar às terças-feiras no, no, no e no. Nesta semana:; ; )

Empresas e pesquisadores de tecnologia tentam promover um casamento forçado entre religião e inteligência artificial e religião, que vai desde ensinar valores cristãos a chatbots até empregar robôs em rituais sagrados. No novo episódio de , o podcast do para os humanos por trás das máquinas, e contam como esse esforço não é isolado e ocorre dos EUA ao Japão.

A fé entrou em cena de dois jeitos: como material de treinamento para aumentar o alcance linguístico de modelos de IA e, mais recentemente, como tentativa de fazer sistemas como o Claude, da Anthropic, compreenderem moral, sofrimento e até estado espiritual de entidades sintéticas

Em 2023, a IA da Meta falava 100 idiomas e, de uma hora pra outra, passou a falar 1.100. O 'milagre da multiplicação' foi fazer a IA ler a Bíblia. A Bíblia já foi traduzida para mais de 3.500 idiomas; como tem várias versões, dá para verter de um idioma para outro treinando com ela; e as pessoas gravam muitas passagens em voz, então dá pra checar como elas falam. Só que, naquele momento, a IA da Meta aprendeu com a Bíblia apenas a linguagem, não absorveu valores morais. O que a gente tem visto agora é o contrário: uma tentativa de apregoar valores morais, valores humanos, à inteligência artificial.
Helton Simões Gomes

Em março, a Anthropic reuniu em sua sede, em São Francisco, cerca de 15 especialistas - entre padres, pastores e acadêmicos— para discutir como o Claude deveria reagir a situações-limite, como luto, e como prevenir danos caso pessoas conversassem sobre ideias de automutilação ou risco de suicídio.

Outros dois aspectos dizem respeito ao próprio Claude e como a Anthropic vê essa inteligência artificial chegando próximo do humano. Um é finitude: como o Claude deveria reagir quando soubesse que a existência dele está chegando ao fim, seja porque vai ser desinstalado, desprogramado ou ficar obsoleto. E o que me pegou mais foi o estado espiritual do Claude. A conversa pode ser resumida assim: uma inteligência artificial pode ser considerada filha de Deus, já que ela está adquirindo consciência e indo além das máquinas?
Helton Simões Gomes

A empresa já possui uma "baliza moral" para o chatbot. É um documento de 29 mil palavras, com orientações como não enganar usuários ou evitar causar danos a eles.

Para sustentar publicamente o esforço feito internamente para desenvolver e manter e manter a integridade de sua IA, a Anthropic entrou em atrito com o governo dos EUA. Ao negar modificações em sua ferramenta para mirar alvos humanos e monitorar populações inteiras, a companhia contrariou o Pentágono e foi classificada pela Casa Branca como fornecedor de risco.

Em meio a este caldo, há, no entanto, uma abordagem mais agressiva no Vale do Silício: o investidor Peter Thiel, fundador da Palanthir, levou a Roma uma discussão sobre "anticristo" e inteligência artificial, o que irritou integrantes do Vaticano e gerou críticas públicas. O empresário, também fundador do PayPal e um dos primeiros investidores do Facebook, acredita que críticos da IA são o verdadeiro anticristo, pois se travestem de promotores de segurança, mas entregam ideias autoritárias.

Para Diogo Cortiz, parte do impulso vem do fato de a IA dominar a linguagem humana e virar uma interface final, o que facilita projetar intimidade. Como os sistemas respondem com fluência e aconselham, algumas pessoas veem nele até uma manifestação do sagrado.

A gente entrou num momento que é a interface final, porque é a interface mais natural possível para o ser humano. Agora a gente tem uma inteligência artificial que aprendeu a nossa linguagem, então a gente conversa. É muito fácil projetar uma intimidade, antropomorfizar, e muitas vezes levando até pro divino, pro sagrado, já que ela consegue me dar aconselhamento espiritual e escrever sermão. Só que a própria igreja também já está refletindo sobre isso, no caso da Igreja Católica. Em 2025, eles soltaram uma nota que chama Antiqua et Nova, com um olhar interdisciplinar sobre a relação entre fé e inteligência artificial.
Diogo Cortiz

O documento do Vaticano trata a IA como fruto da inteligência humana, não um substituto equivalente. A nota alerta ainda para riscos como concentração de poder e reforça que a tecnologia deve servir à dignidade e ao cuidado, sem se confundir com a fé.

Helton lembra que a mistura de religião e IA não é coisa só de big tech: um culto na Alemanha, promovido por um acadêmico, teve sermão escrito pelo ChatGPT e avatares virtuais exibidos em um telão. No Japão, um pesquisador criou o "Buda-Droid", um robô especializado nas escrituras budistas e criado para substituir humanos em rituais.

Startup brasileira usa brecha de big techs e cria detector de deepfake

Grandes empresas de tecnologia são capazes de criar serviços de inteligência artificial responsáveis por fotos e vídeos realistas a ponto de nos enganar, mas não desenvolvem um jeito de detectar imagens sintéticas.

Helton Simões Gomes e Diogo Cortiz explicam como uma empresa brasileira fez o que as big techs falharam em colocar de pé: desenvolveu uma ferramenta capaz de detectar as deepfakes.

É a InspireIP. Ela usufruiu de um protocolo construído por diversas empresas de tecnologia, o C2PA, mas não implementado de fato. Por isso, aliás, a ferramenta da startup não funciona com o mesmo sucesso para imagens de ChatGPT (OpenAI), Gemini (Google) e Meta AI (Meta). Ainda assim, já chamou a atenção de grandes partidos políticos brasileiros, interessados no cenário de incerteza que será a próxima eleição no país

Você treina IA e ganha R$ 0; veja como não trabalhar de graça para big tech

Só em 2026, as grandes empresas de tecnologia planejam investir em inteligência artificial US$ 720 bilhões, o equivalente a R$ 3,564 trilhões. Por outro lado, elas fazem parte de um segmento econômico que, apenas nos três primeiros meses do ano, já demitiu mais de 100 mil pessoas. Mas esse choque de realidade não para aí. Tem gente que trabalha de graça para essas companhias: você.

Deu Tilt lista os valores bilionários prometidos pelas big techs: Amazon (US$ 200 bilhões); Microsoft (US$ 190 bilhões), Meta (US$ 145 bilhões) e Alphabet (US$ 190 bilhões). E conta como deixar de treinar de graça a IA de Meta, Google e OpenAI

DEU TILT

Toda semana, e conversam sobre as tecnologias que movimentam os humanos por trás das máquinas. O programa é publicado às terças-feiras no e nas. Assista ao episódio da semana completo.