Inteligência artificial tem nos deixado mais burros? Estudo sugere resposta
O uso de inteligência artificial pode nos deixar burros? Um baseado em estudos recentes investiga essa pergunta e deixa uma resposta em aberto: depende.
O que aconteceu
Autores argumentam que transferir tarefas mentais para a IA pode atrapalhar a aprendizagem e causar perda de habilidades. O risco, porém, depende de como a tecnologia é usada.
Transferir o pensamento para a IA atrapalha o aprendizado. Segundo o artigo, quando delegamos completamente uma tarefa cognitiva à inteligência artificial, o cérebro deixa de praticar aquela habilidade. Isso dificulta a aquisição de novas competências e reduz a chance de o conhecimento se fixar de forma sólida.
Artigo cita o princípio do "use ou perca". O uso constante da IA para realizar tarefas específicas pode levar à perda gradual de habilidades já consolidadas. Sem prática regular, o que já foi dominado começa a enfraquecer com o tempo.
As evidências são extremamente claras de que, se transferirmos uma habilidade específica para a IA, provavelmente não conseguiremos reter essa habilidade de forma satisfatória Trent N. Cash, cientista comportamental da Universidade de Waterloo
O que estudos mostram
com médicos treinados para identificar pólipos em colonoscopias foi tomado como exemplo. A ajuda de uma ferramenta de IA pareceu corroer essa habilidade especializada, e quando os médicos voltaram a trabalhar sem assistência após três meses usando a ferramenta, a taxa de detecção de pólipos caiu
Padrão se repete também em habilidades menos específicas. Entre alunos do ensino médio que estavam aprendendo um novo conceito de matemática, uma ferramenta de IA como o ChatGPT pôde ajudar a resolver problemas de treino. Porém, ao retirar a ferramenta, o desempenho dos alunos foi pior do que o daqueles que nunca haviam usado a ferramenta, .
Pesquisadores relataram algo semelhante com a compreensão de leitura. Pessoas que usaram um assistente de IA para resolver questões de treino de um exame educacional nos EUA tiveram dificuldade para encontrar as respostas corretas quando a IA foi retirada, relatou a pesquisadora Grace Liu, da Universidade Carnegie Mellon em Pittsburgh em .
Sem ajudante de IA, participantes demonstraram maior probabilidade de pular perguntas do que aqueles que nunca tinham usado a ferramenta. "Essas descobertas são particularmente preocupantes porque a persistência é fundamental para a aquisição de habilidades", escreveu a equipe.
Nem todo uso de IA é prejudicial
O problema, segundo o artigo, surge principalmente quando a ferramenta assume todo o trabalho mental, sem exigir esforço da pessoa. Quando ela funciona apenas como apoio, o impacto negativo tende a ser bem menor.
Capacidades cognitivas fundamentais, como atenção, raciocínio geral e memória de trabalho, tendem a ser mais resilientes à erosão causada pela IA. Elas parecem sofrer menos do que habilidades específicas treinadas.
Artigo sugere que os temores de que a IA vá "derreter" nossos cérebros são exagerados. Ele reforça que os humanos são resilientes e as habilidades básicas devem se manter, mesmo com o uso frequente das ferramentas.
Alerta: é preciso manter o cérebro no circuito. Para evitar a perda de competências, a recomendação é continuar engajado mentalmente. A IA deve ser usada como apoio, e não como substituta total do pensamento, para que o cérebro continue treinando.
Quando você está resolvendo um problema, precisa sujar as mãos Alp Sungu, economista da Wharton School da Universidade da Pensilvânia
O artigo foi liderado por Trent N. Cash, cientista comportamental da Universidade de Waterloo, no Canadá, com colaboração de pesquisadores de outras universidades.