Entrei numa feira de robôs da China e descobri o grande problema do país
"Meu Deus, quanto robô. A competição por aqui é realmente insana." Foi isso que eu pensei logo que pisei no pavilhão de exposição de robótica durante a WAIC (World Artificial Intelligence Conference), maior conferência de IA do mundo realizada em Xangai, na China.
Passei horas andando pelos estandes. Visitei desde a famosíssima Unitree, que virou o símbolo dos robôs humanoides chineses, até uma centena de outras empresas de que eu nunca tinha ouvido falar.
Algumas apresentavam produtos específicos e bem avançados, como robôs para combate a incêndio e resgate, ou para instalação de fios de alta tensão. Mas o que me chamou atenção mesmo foi a quantidade de empresas mostrando robôs humanoides com propostas parecidas, mas com qualidade bem diferente.
Passei longos minutos de tensão e agonia olhando um robô tentando dobrar uma camiseta sem nenhum sucesso. Um contraste gritante com o estande do lado, ou com os produtos da Unitree, que lutavam e dançavam kung fu com movimentos leves e coreografados.
Fiquei encafifado para entender se realmente tinha demanda para tantas empresas disputando espaço com resultados tão desiguais. Fui pesquisar e descobri que esse é um problema que os próprios chineses já identificaram.
Aquele robô travado na camiseta, cercado por dezenas de concorrentes fazendo a mesma coisa, não era apenas o sinal de uma tecnologia imatura, mas o sintoma de algo mais grave que os chineses chamam de involução competitiva.
A involução competitiva descreve uma cena contraintuitiva para nós. A visão que muita gente tem da China é que a competição interna leva a mais eficiência e ganho de escala. Só que nem sempre é assim. Quando a disputa fica intensa demais, o esforço não para de crescer, mas o ganho coletivo não acompanha.
Todo mundo trabalha mais, investe mais e corta mais preço, mas o resultado coletivo não melhora na mesma medida. Na verdade, pode piorar. É um esforço em que uma empresa pode canibalizar os ganhos das outras, mesmo sem oferecer o melhor produto ou tecnologia.
Uma das raízes desse problema está justamente em uma característica que ajudou a explicar o sucesso econômico chinês. A economista Keyu Jin, no seu livro "A Nova China - Para Além do Capitalismo e do Socialismo", chama isso de "economia dos prefeitos". No país, o poder político é centralizado, mas a gestão econômica é bastante descentralizada.
Pequim define as grandes prioridades enquanto os governos locais executam e competem entre si para ver quem apresenta os melhores resultados.
Para Jin, essa competição explica boa parte do dinamismo chinês. E, de fato, funcionou por um tempo. O problema é que, quando esse motor acelera demais, os efeitos colaterais aparecem. Conversei com algumas pessoas de lá que me deram exemplos de empresas e produtos que não faziam o menor sentido existir.
Quando surge uma tendência, toda província quer ter seu próprio campeão. Então os governantes locais criam subsídios, formas de financiamento, atraem talentos para fazer a coisa acontecer. E, de repente, o país acorda com centenas de empresas fazendo o mesmo produto.
Em um mercado de competição saudável, as empresas inovam e diferenciam produtos e serviços que criam valor. Mas com essa forcinha dos governos locais, muitas empresas simplesmente repetem as mesmas estratégias e disputam um mercado limitado em que a competição vira um jogo de soma negativa. Além do melhor não vencer, muitas vezes o pior prejudica o mercado como um todo fazendo guerra de preços.
Pequim já percebeu o tamanho do problema. No fim do ano passado, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, principal órgão de planejamento econômico do país, comunicou que já tinha mais de 150 empresas fabricando robô humanoide, boa parte com produtos quase idênticos. Foi quando o risco de bolha pipocou.
Em março deste ano, o combate à competição involutiva entrou oficialmente na agenda econômica nacional. O governo anunciou medidas para controlar o excesso de capacidade, aumentar a fiscalização de preços e qualidade e estimular uma mudança da "competição por preço" para a "competição por valor", além de pensar na consolidação em grandes players.
Mas as políticas econômicas não mudam o mercado do dia pra noite. Quando eu entrei naquele pavilhão em julho, tudo continuava lá. Dezenas de empresas disputando o mesmo espaço com produtos parecidos.
A questão é se Pequim vai conseguir transformar toda essa energia competitiva em inovação de verdade. Ou se o país vai seguir criando dezenas de empresas para fabricar o mesmo robô que mal consegue dobrar uma camiseta.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.